msn comic

Não discuto nunca. Regra de civilidade. Isto não significa abdicar da verdade e de sua defesa. Isto significa apenas não discutir. Na maioria dos casos em que a discussão parece tornar-se necessária, ela não vale a pena e, mesmo que seja iniciada e vencida, fica sempre a sensação de que a Verdade não veio à tona, não foi observada, tampouco absorvida. Simplesmente não valeu a pena e nunca valerá. Não há nada que se possa fazer para alterar a velocidade da passagem do tempo — ou “A Verdade é filha do…”.

Mesmo que se trate de mentiras ou de verdades muito simples — “você não disse que entregaria o projeto hoje?”, “você tem falado com aquela vagabunda?” ou “nunca antes na história destepaiz” — a discussão não trará nenhum benefício genuíno, a verdade permanecerá esquecida e toda a interação girará em torno daquilo que foi dito, passando a léguas de distância dos fatos, daquilo que as pessoas realmente sabem que a verdade é e se sustentará na capacidade demoníaca que elas têm de mentir para si mesmas. É preocupante notar a incapacidade crescente de fazer confissões para si mesmo.

Eu sou a única pessoa com quem me permito discutir. É uma triste exceção para uma regra que não deveria permitir nenhuma, porque no fundo não há diferença entre discutir comigo ou com outra pessoa. A discussão não traz a Verdade à tona, seja quem for seu interlocutor. Discussões são jogos de palavras. Como tais, sua utilidade máxima é cansar a mente e levá-la a um ponto em que não seja mais capaz de protagonizar o que quer que seja. É um processo semelhante ao de algumas artes marciais: o esgotamento físico total leva o corpo a manifestar energias ocultas e a mostrar que, afinal, a verdadeira força não está nos músculos, assim como a Verdade, afinal, não está nas palavras.

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Update: “neti neti” é expressão que vem do sânscrito e que significa algo como “não isto, não aquilo”. Seu objetivo é mostrar ao indivíduo que a Verdade não é aquilo que ele vê, ouve, sente ou pensa. Naturalmente, todas as coisas palpáveis, assim como todo o mundo material, correspondem em alguma medida a uma categoria específica de realidade — aquela que inclui contas para pagar, salada para o almoço e o descanso no fim do dia. Mas a Verdade não é isto e não é aquilo. Neti neti.

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Graças a Deus sou útil. Há pelo menos uma pessoa que dá atenção ao que tenho para transmitir — ou àquilo que julgo ser útil para outrem e que realmente me traz alguma satisfação. Eu acho que isso é sucesso, embora reconheça sua insuficiência para a minha própria subsistência e para a expectativa das pessoas ao meu redor de que eu consiga comprar eletrodomésticos (como costumava dizer Plínio Marcos), ter morada própria e constituir família.

É claro que isso me entristece, porque a sensação de sucesso — interior e miúdo que seja — parece não significar nada diante da evidência do fracasso, conforme o critério das pessoas ao meu redor. E junto com a pressão… ok, chamemos de “pressão social”, na falta de outro clichê… e junto com a pressão social mais óbvia vêm outras pressões menores, mas não menos sociais: o tempo que passa, as oportunidades perdidas, o desperdício, o ostracismo, o limbo, a solidão.

Realmente não sei nada sobre o futuro. Nunca soube. E nunca quis saber. Agora é tarde, mas o prazo de validade vencido tem a vantagem de, no limite, dispensar-me de ser socialmente bem-sucedido. Com alguma sorte, serei o velho ranzinza que vive sozinho numa casa escura, assusta crianças da vizinhança e jamais sorri.

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john fahey

Ouça.

Simplesmente não consigo parar de ouvir essa música. A versão original tem 23 minutos e pode ser baixada aqui.

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John Fahey já apareceu neste blog antes. Merece uma re-espiada.

Conhecer John Fahey é obrigatório para quem, como eu, gosta de violão. Nem tudo dele é excelente, principalmente alguns blues slides exagerados em algumas músicas, mas Fare Forward Voyagers é excelente — procurem também Mark 1:15 e Voice of the Turtle.

soco estômago

O que você esperava? Uma crítica de cinema? A resenha de um livro? Uma metáfora?

Ele nega o holocausto, prega o fim de Israel e o extermínio dos judeus, investe como poucos na corrida nuclear. E o que o governo brasileiro faz? Convida o sujeito para uma visita oficial.

Há algo para entender, mas não para aceitar. O mínimo que se pode fazer é protestar (dia, hora e local no link) — qualquer coisa que deixe claro (inclusive para o governo brasileiro) que o presidente do Irã não é bem-vindo no Brasil.

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Meus agradecimentos ao leitor DD pela dica.
Link da imagem.

Se isto e isto não foram suficientes, este livro será.

Para baixá-lo, clique aqui. Para baixar outros e-books, aqui.

gerald ford

Repita comigo e com o Geraldo, em voz alta:

    “Um governo grande o suficiente para lhe fornecer tudo de que você precisa também é grande o suficiente para lhe tomar tudo que você possui.”

(link, que veio do Mosca Azul)


Imagem meramente ilustrativa

O país está cada vez mais atraente para investimentos e cada vez menos seguro para uma pessoa andar nas ruas.

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letras

Às vezes eu me canso de mim mesmo e digo — murmurando, condescendentemente — que existem coisas muito mais importantes do que defender valores. Oh, sim, são eles que sustentam o mundo, que o impedem de se tornar uma festa que terminará em mortes e vômito, blablabla.

Mas perceba que isso não pode ser dito simplesmente — ou não pode ser apenas dito. Quem recebe uma mensagem desse tipo só a entenderá se puder vislumbrar uma festa cheia de mortes e vômito e a desgraça que isso representa.

Entre os vários significados de “vislumbrar” está “perceber” ou “compreender”, que é o que acontece quando uma imagem nítida forma-se na sua mente. Morte e vômito não são coisas boas — literal ou metaforicamente. E festa não é exatamente o destino mais digno que se pode imaginar para o mundo.

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A escrita tem um limite para além do qual escrever torna-se tarefa digna de pena. Piada recorrente:

– Eu sou escritor.
– Sei. Legal. Mas, mudando de assunto, com quê você trabalha?

Se o escritor usa a literatura para defender os valores em que ele acredita sem antes examinar se estes valores correspondem à grita geral, então sua ruína será certa e a glória — se vier –, sempre póstuma. Mesmo que exista essa correspondência, a ausência de exame impedirá o escritor de dar à sua defesa aquela couraça popular que a torna aceitável.

(Quando falo de popular eu me refiro, respectivamente, às idéias que estão em voga e que são aceitas porque são correntes e normalmente aceitas e também me refiro às idéias que são habitualmente desejadas e para as quais existe uma permeabilidade natural e às vezes inconsciente, mesmo que não sejam comuns)

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O sucesso na literatura é algo admirável. Escrever é a arte de manipular o leitor e impedi-lo de saber-se manipulado.

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guru

Trecho do livro “Sufismo no ocidente”

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Um mestre que conhecia o caminho para a sabedoria foi visitado por um grupo de buscadores. Encontraram-no num pátio, cercado de discípulos, em meio ao que parecia ser uma festa.

Alguns buscadores disseram:
– Que ofensivo, esta não é a forma de se comportar, qualquer que seja o pretexto.

Outros disseram:
– Isto nos parece excelente, gostamos desta sessão de ensinamento e desejamos participar dela.

E outros disseram:
– Estamos meio perplexos e queremos saber mais sobre este enigma.

Os demais buscadores comentaram entre si:
– Pode haver alguma sabedoria nisto, mas não sabemos se devemos perguntar ou não.

O mestre afastou todos.

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dali

Trecho do livro “Sufismo no ocidente”

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Consideremos um aparelho de televisão que pode receber imagens em preto e branco. Imaginemos, por um momento, que ele tenha capacidade de consciência introspectiva. Está mostrando em sua tela, que é uma parte dele, uma imagem em preto e branco. A estação central, da qual sob muitos aspectos depende, está transmitindo uma imagem em cores. O aparelho se pergunta: “Existem as cores? Se existem, por que não posso captá-las?”, e supõe: “Consegui registrar uma imagem por meio de organização e esforço. Com uma atividade semelhante, deveria ser capaz de captar uma transmissão em cores”.

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