Trecho do livro “Sempre Zen”
Charlotte Choko Beck
A única coisa que dá certo (se realmente praticarmos) é o desejo não de ter algo para nós mesmos, mas de acolher a vida toda, incluindo os relacionamentos. Bem, vocês podem afirmar: “É, parece bom, vou fazer isso!”. Mas ninguém quer mesmo fazer isso. Não queremos sustentar mais ninguém, mais nada. Sustentar ou acolher na realidade alguém significa que você lhe dá tudo e não espera nada em troca. Você pode lhe dar seu tempo, seu trabalho, seu dinheiro, qualquer coisa. “Se você precisar, eu lhe dou.” O amor não espera coisa alguma. Em vez disso temos os seguintes jogos: “Vou me comunicar de modo que nossa relação melhore”; na verdade isso quer dizer: “Vou me comunicar com você para que entenda o que eu desejo”. A expectativa implícita que investimos nesses jogos asseguram que esses relacionamentos não darão certo. Se realmente enxergarmos isso, então alguns começarão a entender o próximo passo, que é ver um outro modo de ser. Às vezes temos um vislumbre do que possa ser: “Sim, posso lhe fazer isso, posso sustentar e acolher sua vida e esperar nada. Nada”.
Houve a história verídica de uma esposa, cujo marido estivera no Japão durante a guerra. Lá viveu com outra mulher e teve dois filhos. Ele amava muito a japonesa. Quando voltou para casa, não contou à esposa o que lhe acontecera. Mas, finalmente, quando soube que estava morrendo, confessou-lhe a verdade da relação que tivera e dos filhos. Primeiro, ela ficou muito transtornada, mas depois, algo em seu íntimo começou a se agitar e ela trabalhou sem cessar seus sentimentos de angústia; por fim, antes que o marido morresse, ela disse: “Vou cuidar deles”. Foi, então, ao Japão, encontrou a outra mulher, trouxe-a junto com as crianças para os Estados Unidos. Moraram juntas na mesma casa e a esposa fez o que pôde para ensinar inglês à moça, arrumar-lhe um trabalho, e ajudá-la com as crianças. Isso é amor.
A prática de meditação não é um tipo qualquer de “desligamento”, mas sim um meio para se entrar em contato com a própria vida. Ao praticarmos, fica cada vez mais clara a idéia desta outra forma de ser e começamos anos afastar de uma orientação centrada no eu, não em favor de uma orientação centrada no outro (porque ela termina nos incluindo), entretanto, no sentido de uma orientação completamente aberta. Se nossa prática não estiver indo nessa direção, então não é a verdadeira prática. Sempre que quisermos alguma coisa, sabemos que nossa prática deve continuar. Já que nenhum de nós pode afirmar que isso está resolvido, significa que a prática continua para todos nós. Faz muito tempo que comecei a praticar, todavia, apesar disso, o que notei nessa viagem (longa, para a minha idade, mas o sesshin foi bom tendo causado um forte impacto em várias pessoas) foi que eu estava dizendo: “Bem, me custou muito, não tenho certeza se farei a mesma coisa no ano que vem. Talvez eu precise descansar mais”. A mente humana é assim. Como todo mundo, quero conforto. Gosto de me sentir bem. Não gosto de ficar cansada. Vocês, quem sabe, dirão: “Mas o que há de errado em querer um pouco de conforto?”. Não há nada de errado, a menos que isso contrarie o que para mim é mais importante do que o conforto, a saber, minha orientação fundamental na vida. Se a orientação fundamental não vier da prática, então essa não é uma prática. Se conhecermos nossa orientação fundamental, ela exercerá seu efeito em todas as fases da vida, em nossas relações, em nosso trabalho, em tudo. Se alguma coisa não emergir da prática além daquilo que eu desejo, que só serve para tornar mais confortável minha vida, então essa não é uma prática.
Entretanto, não devemos simplificar demais o problema. Ao praticarmos esta modalidade do sentar, temos que desenvolver dois, três ou quatro aspectos da prática. Sentar-se apenas, com uma forte concentração, tem valor. Mas, a menos que tomemos cuidado, podemos usar essa atitude para fugir à vida. Aliás, a pessoa pode usar muito mediocremente o tipo de poder que desenvolve assim. A concentração é um dos aspectos da prática. Não há necessidade de enfatizarmos isso aqui, mas essa capacidade deve ser alcançada em algum momento. O tipo Vipassana de prática (que eu prefiro), no qual vocês observam, observam e observam, é muito valioso e, para mim, constitui o melhor e mais básico treinamento. No entanto, pode favorecer que as pessoas se tornem quase totalmente impessoais (como acho que eu mesma fiquei durante certo tempo). Nada havia que eu sentisse na dimensão emocional porque eu tinha me tornado uma máquina de observar. Essa, às vezes, pode ser a desvantagem desta espécie de prática. Há também outras formas de prática. Cada uma delas tem suas forças e fraquezas. Existem inúmeros treinamentos psicológicos e terapêuticos valiosos que, porém, também têm suas desvantagens. O desenvolvimento de um ser humano, até que se torne o que eu chamaria uma pessoa sábia, compassiva e equilibrada, não é simples.
Numa relação, toda vez que sentimos incômodo – o ponto em que ela deixa de nos convir – um grande ponto de interrogação deveria saltar bem diante de nossos olhos, para que indagássemos o que está acontecendo conosco. De que modo praticarmos com o incômodo?



No comments yet
Feed de comentários deste artigo