Eduardo Fernandes
do saite fraude.org

Quem disse que você precisa ser bem sucedido?

“Sou jornalista. E não imaginava que isso significava ficar dez horas trancada numa sala, fazendo trabalhos automáticos e entrar e sair de um lugar e ver que o sol já vazou. Todos os meus textos, vontades e idéias morreram. Não tenho tempo pra escrever e, se penso num artigo, tem que ser no Outlook, porque o chefe tem que pensar que estou trabalhando. Não tenho mais tempo pra viver. Não tenho namorado,não vejo meus amigos há semanas, mal sei quem ganhou a eleição [que eleição?] porque não há tempo.”
FM – Campo Grande, MS

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Com os cortes e a falência da “indústria cultural” brasileira (ou Gambiarra Cultural), estamos trabalhando cada vez mais e em regimes insalubres. É difícil que os patrões voltem atrás e contratem pessoas. A tendência é que as redações (ou composições) fiquem cada vez enxutas e opressoras.

Não ganhamos nada acumulando o trabalho de dez pessoas. Pelo contrário, vivemos sob a ameaça da perda do emprego, do “corte”. Cada vez estamos mais fodidos e descontentes com o trabalho.

Com este quadro, a saída é simplificar. Quanto menos dinheiro você tem, mais aprende a apertar o cinto. Descobre que mantinha muitos hábitos supérfluos.

Custa, mas você consegue abandona-los. A maior dificuldade é a reeducação psicológica: depois que você nota que realmente não precisa ser bem sucedido, todo o resto se facilita.

Manual de Miséria Sustentável ou neo-thoureaunismo

1) Não se fixe numa “profissão”. Zona de Trabalho Autônomo Temporário.

2) Arranje vários bicos que paguem suas despesas básicas.

3) Mate o consumista que existe em você (isso não é riponguismo – é que a autonomia tem um custo, infelizmente).

4) Simplifique a vida ao máximo. Ande a pé ou de bicicleta, poupe água, energia e comida, tire xerox de livros, baixe mp3.

5) Consuma comida barata (não necessariamente de má qualidade – vegetal é barato) e de produção local.

6) Mude-se pra cidades menores, com menos stress.

7) Saia pouco de casa – só quando for imprescindível. E apenas pra lugares que o divirtam realmente.

8 ) Pratique a inadimplência (enquanto for possível, pois o mercado o reprimirá – a humilhação do SPC).

9) Valorize aquilo que você já tem. Exemplo: pra que comprar um livro se você tem um monte em casa que nem leu? Pra que acumular pilhas de cds e nem sequer ouvi-los direito?

10) Pratique o escambo e as parcerias.

11) Compre tudo de segunda mão.

12) Evite pagar impostos. Estude a lei pra saber como. Use o Direito contra o Estado.

13) Aprenda a obter satisfação sozinho (não estou falando em punheta). Faça artesanato (que você pode vender ou trocar. Mas não ouça The Doors, por favor), corra, escreva, pinte, medite. Enfim: não necessite do mercado e de outras pessoas pra se divertir.

14) Use a tecnologia pra facilitar sua vida. Mas não seja escravo dos aparelhos eletrônicos.

15) Seja um inventor. Crie alternativas pra se livrar dos gastos. Favelado, morador de rua e 90% do mundo (os países “em desenvolvimento”) já fazem isso, por que você tem que comer frango e arrotar Peru?

16) Assuma sua miséria. Não tenha vergonha dela. Que se foda a ambição. Quem é que disse que “sucesso” é igual a felicidade?

17) Toda vez que puder criar, deixe de comprar.