1.
O homem se torna muitas vezes o que ele próprio acredita que é. Se insisto em repetir para mim mesmo que não posso fazer uma determinada coisa, é possível que acabe me tornando realmente incapaz de fazê-la. Ao contrário, se tenho a convicção de que posso fazê-la, certamente adquirirei a capacidade de realizá-la, mesmo que não a tenha no começo.

2.
As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferente, desde que alcancemos o mesmo objetivo?

3.
Para se ver frente a frente com o Espírito da Verdade, universal e onipresente, é preciso ser capaz de amar a coisa menor da criação como a si mesmo. Um homem que aspira a isso não pode se manter afastado de qualquer setor da vida. É por isso que minha devoção à Verdade levou-me para o campo da política; e posso dizer, sem a menor hesitação e mesmo com toda a humanidade, que aqueles que dizem que a religião não tem nada a ver com a política não sabem o que é religião.

4.
Oração não é pedir. É um anseio da alma. É uma admissão diária das próprias fraquezas. É melhor na oração ter um coração sem palavras do que palavras sem um coração.

5.
A fé é uma função do coração. Deve ser imposta pela razão. As duas coisas não são antagônicas, como pensam algumas pessoas. Quanto mais intensa a fé, mais profunda se torna a razão. Quando a fé se torna cega, inevitavelmente morre.

6.
O caminho da paz é o caminho da verdade. Ser honesto é ainda mais importante do que ser pacífico. Na verdade, a mentira é a mãe da violência. Um homem sincero não pode permanecer violento por muito tempo. Ele vai perceber, no curso de sua busca, que não tem necessidade de ser violento. Vai também descobrir que enquanto houver nele o menor vestígio de violência não conseguirá encontrar a verdade que está procurando.

7.
É impossível ser um internacionalista sem ser um nacionalista. O internacionalismo só é possível quando o nacionalismo se torna um fato, isto é, quando as pessoas pertencentes a diversos países se organizaram e são capazes de agir como um só homem.

8.
A economia que ignora as considerações morais e sentimentais é como figuras de cera, que podem ser parecidas com a vida, mas carecem da vida genuína da carne viva. Em todos os momentos cruciais, essas novas leis econômicas fracassaram na prática. E s nações ou indivíduos que as aceitam como máximas de orientação devem perecer.

9.
Para serem bem usadas, as máquinas têm de ajudar e atenuar o esforço humano. O uso atual das máquinas tende mais e mais a concentrar a riqueza nas mãos de uns poucos, em total menosprezo a milhões de homens e mulheres, cujo pão lhes é arrebatado da boca.

10.
Não acredito que um indivíduo possa progredir espiritualmente, enquanto aqueles que o cercam estão sofrendo. Acredito em advaita, acredito na unidade essencial do homem e também de tudo o que vive. Portanto, acredito que se um homem progride espiritualmente o mundo inteiro está progredindo com ele; se um homem cai, o mundo cai junto com ele.

Advaita: uma das duas principais ramificações do Vedanta, que é um dos seis sistemas clássicos da filosofia indiana. Sustenta que Brahma, o Eu, é a realidade suprema, que o mundo veio de Brahma e é totalmente dependente dele.

11.
A verdade (satya) implica amor, a firmeza (agraha) cria e portanto serve como sinônimo para a força. Comecei por isso a chamar o movimento indiano de satyagraha, ou seja, a força que nasce da verdade e do amor ou não violência.

A força gerada pela não violência é infinitamente maior do que a força de todas as armas inventadas pela engenhosidade do homem.

A não violência e a covardia não combinam. Posso imaginar um homem armado até os dentes que no fundo é um covarde. A posse de armas insinua um elemento de medo, se não mesmo de covardia. Mas a verdadeira não violência é uma impossibilidade sem a posse de um destemor inflexível.

A não violência nunca deve ser usada como um escudo para a covardia. É uma arma para os bravos.

12.
Ahimsa é o atributo da alma e por isso deve ser praticado por todos, em todos os momentos da vida. Se não pode ser praticado em todas as áreas da vida, então não tem qualquer valor prático.

Ahimsa não é a coisa primária de que se tem falado. Não fazer mal a qualquer coisa viva é certamente uma parte de ahimsa. Mas é a expressão mínima. O princípio de ahimsa é violado por cada pensamento nocivo, pela pressa indevida, pela mentira, pelo ódio, por desejar o mal a qualquer pessoa. É também violado quando retemos alguma coisa de que o mundo precisa.

13.
A desobediência civil é o direito intrínseco de um cidadão. Ele não pode renunciar a esse direito sem deixar de ser um homem. A desobediência civil nunca é acompanhada pela anarquia. A desobediência criminosa pode levar à anarquia. Todos os estados reprimem a desobediência criminosa pela força. Um estado perece, se assim não agir. Mas reprimir a desobediência civil é tentar aprisionar a consciência.

14.
Se queremos alcançar a verdadeira paz neste mundo e se queremos desfechar uma guerra verdadeira contra a guerra, teremos de começar pelas crianças; se crescerem com a sua inocência natural, não teremos de lutar; não teremos de tomar resoluções ociosas e infrutíferas, mas seguiremos do amor para o amor, da paz para a paz, até que finalmente todos os cantos do mundo estarão dominados pela paz e pelo amor, pelo que o mundo inteiro está ansiando, consciente ou inconscientemente.

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Citações extraídas de “As Palavras de Gandhi” texto selecionado por Richard Attenborough, Editora Record.