Baltasar Gracián y Morales
obtido em O Citador
Cifrar a Vontade
Leiga seria a arte se, ditando o recato aos limites da capacidade, não procurasse dissimular os ímpetos do afecto. Tão acreditada está esta parte da subtileza, que sobre ela ergueram Tibério (Imperador de Roma) e Luís (Luís XI de França, cognome ‘O Prudente’) toda a sua máquina e política.
Se todo o excesso em segredo o é também em torrente, sacramentar uma vontade será soberania. São os achaques da vontade desmaios da reputação e, logo que se declaram, esta vulgarmente morre.
O primeiro esforço basta para violentá-los, o segundo para dissimulá-los. Se aquele tem mais de valoroso, este tem mais de astuto. Quem a eles se rende, baixa de homem a bruto; quem os repudia conserva, pelo menos nas aparências, o crédito.
Acusa torrentosa eminência o penetrar-se toda a vontade alheia, e conclui superioridade saber selar-se a própria. Descobrir-se um afecto a um varão é o mesmo que abrir um postigo na fortaleza da torrente, pois é por ali que maquinam politicamente os astutos, e na maior parte das vezes o assaltam com sucesso. Sabidos os afectos, sabem-se as entradas e as saídas da vontade, tornando-se senhores dela a todas as horas.
Gosto Relevante
Toda a boa capacidade é difícil de contentar. Há cultura do gosto, assim como do engenho. Relevantes ambos, são irmãos de um mesmo ventre, filhos da capacidade, herdados por igual na excelência. Engenho sublime nunca criou gosto rasteiro.
Há perfeições como sóis e há perfeições como luzes. Galanteia a águia o sol, perde-se nele a mariposa pela luz de uma candeia e toma-se a altura a uma torrente pela elevação do gosto. Tê-lo bom é já algo, tê-lo relevante muito é. Ligam-se os gostos à comunicação, e só por sorte se avista quem o tenha superlativo.
Têm muitos por felicidade (de empréstimo será) gozar do que lhes apetece, condenando a infelizes todos os demais; mas desforram-se estes com as mesmas linhas, assim se podendo ver uma metade do mundo rindo-se da outra, com maior ou menor necessidade.
É qualidade um gosto crítico, um paladar difícil de satisfazer; os mais valentes objectos temem-no e as mais seguras perfeições receiam-no. É a avaliação preciosíssima, e regateá-la é próprio de discretos; toda a escassez em moeda de aplauso é fidalga e, ao contrário, os desperdícios de estima merecem castigo de desprezo.
A admiração é vulgarmente um manifesto da ignorância; não nasce tanto da perfeição dos objectos, quanto da imperfeição dos conceitos. São únicas as perfeições de primeira grandeza: seja, pois, raro o apreço.
Os feitos simples são os mais elogiados e lembrados
Duas pátrias produziram dois heróis: de Tebas saiu Hércules; de Roma saiu Catão. Foi Hércules aplauso da orbe, foi Catão enfado de Roma. A um admiraram todos, ao outro esquivaram-se os romanos. Não admite controvérsia a vantagem que levou Catão a Hércules, pois o excedeu em prudência; mas ganhou Hércules a Catão em fama. Mais de árduo e primoroso teve o assunto de Catão, pois se empenhou em sujeitar os monstros dos costumes, e Hércules os da natureza; mas teve mais de famoso o do tebano. A diferença consistiu em que Hércules empreendeu façanhas plausíveis e Catão odiosas. A plausibilidade do cargo levou a glória de Alcides (nome anterior de Hércules) aos confins do mundo, e passará ainda além deles caso se alarguem. O desaprezível do cargo circunscreveu Catão ao interior das muralhas de Roma.
Com tudo isto, preferem alguns, e não os menos judiciosos, o assunto primoroso ao mais plausível, e pode mais com eles a admiração de poucos que o aplauso de muitos, sendo vulgares. Os milagres de ignorantes apelam aos empenhos plausíveis. O árduo, o primoroso de um superior assunto poucos o percebem, embora eminentes, sendo assim raros os que nele acreditam. A facilidade do plausível permite-se a todos, vulgariza-se, e assim o aplauso tem de ordinário o mesmo que de universal.
Vence a intenção de poucos a numerosidade de um vulgo inteiro. Mas a destreza é topar com os cargos plausíveis. É questão de discrição subornar a atenção comum no assunto plausível; manifesta-se a todos a eminência, e com os votos de todos se graduou a reputação.
Devem estimar-se mais os que o são mais (isto é, os assuntos mais plausíveis). É palpável a excelência em tais façanhas, e, se o for com evidência, plausível; as primorosas têm muito de metafísico, deixando a celebridade às opiniões.
Chamo cargo plausível aquele que se executa à vista de todos e ao gosto de todos, sempre com o fundamento da reputação, por excluir aqueles a quem falta tanto de crédito quanto sobra de ostentação. Vive rico de aplauso um histrião, mas perece de crédito. Ser, pois, eminente em assunto fidalgo, exposto ao teatro universal: é isso conseguir a augusta plausibilidade.
Que príncipes ocupam os catálogos da fama, se não os guerreiros? A eles se deve com propriedade o epíteto de magnos. Enchem o mundo de aplauso, os séculos de fama, os livros de proezas, porque o belicoso tem mais de plausível que o pacífico.
Entre os juízes escolhem-se os justiceiros para imortais, porque a justiça sem crueldade sempre foi mais grata ao vulgo do que a piedade remível. Nos assuntos do engenho triunfou sempre a plausibilidade. O que é suave num discurso plausível recreia a alma, lisonjeia o ouvido, já que a secura de um conceito metafísico os atormenta e enfada.



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