Hermann Hesse
O que você diz sobre o seu sentimento de dilema quanto a deveres sociais etc., compreendo perfeitamente, pois em parte acontece o mesmo comigo. Parece-me que se trata do velho dilema entre tarefas pessoais e sociais. Ambas estão diante de nós, no entanto, e não podemos atender às duas corretamente. Ou vivemos, como o coração dentro do peito nos exige, de acordo com os nossos sentimentos pessoais próprios, e avaliamos toda a ação segundo o sentimento de prazer ou sofrimento que ela nos traz, ou vivemos para fora, construímos e organizamos, vivemos para outra coisa, para o Estado, para a Igreja, para outros etc. Em ambos os casos pode-se lutar até o esgotamento e ficar infeliz, e no fundo lamento muito aqueles que esquecem o eu e apenas por persistente sentimento de dever sobrenadam no que é social.
Escolhi o caminho dos egoístas ou dos religiosos e considero os deveres para fora como indiretamente contra os deveres a que estamos obrigados para com a nossa própria alma. Retornei ao sentimento de que a minha alma representa em tamanho pequeno uma parte do desenvolvimento da humanidade e que no fundo todo estremecimento do nosso íntimo é tão importante como a guerra e a paz no mundo exterior. Vivo segundo esse instinto e tenho, desde que aqui estou, trabalhado muito em coisas importantes. No que se refere a trabalho, estou contente com o mundo. Quando ele fica prejudicado por pressão interna ou dor nos olhos etc., os tempos ficam maus pra mim e vou então de noite às grutas, e falo com o deus do vinho. No entanto, não dou um passo como um andarilho noturno que, em última análise, não tenha alguma coisa a ver com o meu trabalho, e tenho em mente mais uma vez recomeçar do início a luta com a forma e achar a expressão para o novo conteúdo do que eu tenha a dizer. Houve arranhões e ferimentos nisso, e não sei qual será o resultado, mas sei, isso sim, que assim tenho de fazer.



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