Hermann Hesse

As pessoas dizem que não tenho noção da realidade. Os poemas que escrevo, bem como os quadrinhos que pinto, não correspondem à realidade. É freqüente esquecer, quando escrevo, as exigências que os leitores cultos fazem com relação a um livro e, o que é mais importante, realmente me falta o respeito à realidade. Eu a encaro como última coisa com que devemos nos preocupar pois ela está, e bastante monotonamente, sempre presente, enquanto outras coisas mais belas e necessárias exigem nossa atenção e cuidado. A realidade é aquilo com que a pessoa não deve, por circunstância alguma, ficar satisfeito, aquilo que a pessoa não deve em circunstância alguma adorar e reverenciar pois é acidental, o sobejo da vida. E não deve de modo algum ser modificada, essa realidade esmolambada, sempre desapontadora e estéril, a não ser se a negarmos e provarmos, enquanto isso, que somos mais fortes do que ela é.

Em minhas obras as pessoas muitas vezes sentem falta do respeito costumeiro pela realidade e quando pinto as árvores têm rosto e as casas riem ou dançam ou choram, mas se a árvore é uma castanheira ou pereira na maior parte das vezes não pode ser determinado. Tenho de aceitar tal repreensão, reconheço que minha própria vida me parece com freqüência exatamente igual a uma lenda, é comum ver e sentir o mundo externo ligado e em harmonia com meu mundo íntimo de um modo que só posso chamar de mágico.