Rubem Alves
Um homem tinha longas conversas com o diabo. Cavalheiro de voz mansa, bem vestido, em nada se parece com o que dizem dele: rabo, chifres, patas de bode e cheiro de enxofre. Um dia ele ficou sabendo o motivo exato do desentendimento definitivo entre Deus e o diabo:
- Todo mundo sabe que, no início, eu era a mão direita de Deus. Estávamos de acordo em tudo. Ele mandava, eu fazia. Foi por causa do casamento que nos separamos. Até então trabalhávamos juntos. Quando Deus disse que não era bom que o homem estivesse só, e melhor seria que ele tivesse uma mulher, eu concordei. Quando Deus disse que essa união não deveria ser sem fim, até a morte, eu aplaudi. Mas aí apareceu o pomo da discórdia. Para colar o homem na mulher, Deus foi buscar uma bisnaguinha de amor. Protestei. Argumentei: “Senhor! Amor é coisa muito fraca, de duração efêmera! Quem é colado com amor logo se separa!”
E o diabo continuou explicando: o amor é chama tênue, fogo de palha. Não pode ser imortal. No começo, aquele entusiasmo. Mas logo se apaga. Chama de vela, fraquinha, que se vai com qualquer ventinho… Amor é bibelô de louça. Todos os amantes sabem disso, mesmo os mais apaixonados. E não é por isso que sentem ciúmes? Ciúme é a consciência dolorosa de que o objeto amado não é posse: ele pode voar a qualquer momento. Por isso o amor é doloroso, cheio de incertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares: coisa deliciosa, sem dúvida. E é por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar. Amar é tem um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.
Como construir uma união duradoura com uma cola tão fraquinha? Por isso os casais se separam, por causa do amor, pela ilusão de outro amor. Qualquer tolo sabe que o pássaro só fica se estiver na gaiola. O amor é cola fraca para produzir um casamento duradouro porque no amor vive o maior inimigo da estabilidade: a liberdade. É preciso que o pássaro aprenda que é inútil bater as asas. Um casamento duradouro é aquele em que o homem e a mulher perderam as ilusões do amor. Foi aí que nos separamos, ele continuou. Não porque discordássemos que o casamento deveria ser eterno. É isso o que eu quero. Nos separamos porque não estávamos de acordo sobre o que é que junta um homem e uma mulher, eternamente. Deus é um romântico. Eu sou um realista.
Perplexo, o homem perguntou:
- Qual foi sua proposta? Que cola deveria ser usada?
O diabo sorriu confiante, e respondeu:
- O ódio. Enganam-se aqueles que dizem que o ódio separa. A verdade é que o ódio junta as pessoas. Como disse um jagunço do Guimarães Rosa, quem odeia o outro, leva o outro para a cama. Diferente do fogo da vela, o fogo do ódio é como um vulcão. Não se apaga nunca. Por fora parece adormecido. No fundo as chamas crepitam. A diferença entre os dois? O amor, por causa da liberdade, abre a mão e deixa o outro ir. No amor existe a permanente possibilidade de separação. Mas o ódio segura. Não tenha dúvidas. Os casamentos mais sólidos são baseados no ódio. E sabe por que o ódio não deixa ir? Porque ele não suporta a fantasia do outro, voando livre, feliz. O ódio constrói gaiolas, e ali dentro ficam os dois, moendo-se mutuamente como máquina de moer carne que gira sem parar, cada um se nutrindo da infelicidade do outro. As pessoas ficam juntas para se torturarem. Não menospreze o poder do sadismo. Ah! A suprema felicidade de fazer o outro infeliz!
*
Este é o resumo que fiz do conto “…Até que a morte…”, do mineiro Rubem Alves, que chegou às minhas mãos em cópia xerox. Achei interessante por exemplificar bem o que ocorre em algumas relações estáveis e duradouras. A idéia de que só se pode ser feliz tendo alguém ao lado é tão forte na nossa cultura que muitas vezes se paga qualquer preço por isso. Embora existam casais que vivem felizes juntos, por muito tempo, isso não é regra. Mas quando um casal de velhinhos é observado junto na rua, é raro não ouvirmos elogios e comentários de admiração por eles. Na realidade, ninguém se preocupa em saber como é a vida íntima dos dois. A imagem já é suficiente para alimentar a idealização do par amoroso.
O psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa, após 50 anos de clínica, não tem dúvidas quanto ao ódio que pode se desenvolver num casamento. No seu livro “Briga de casal” ele afirma: “Já vi casais cuja única finalidade na vida era infernizar e torturar o outro o tempo todo, em cada frase, em cada olhar. O horror dos horrores. Só dois prisioneiros vitalícios obrigados a morar para sempre na mesma cela poderiam desenvolver sentimentos tão terríveis; e só dois que se proibiram de admitir outra pessoa ou qualquer outra atividade na própria vida chegam a esse ponto de miséria moral e de degradação recíproca.”
Muitos acreditam que um casal pode ficar junto por outros motivos, principalmente por hábito e por dependência. O difícil é entender como uma necessidade tão grande de outra pessoa não desencadeie um sentimento de ódio por ela, mesmo que inconsistente. Afinal, é comum responsabilizar o parceiro pelas nossas próprias incapacidades, neste caso, de se imaginar vivendo sozinho.
(se alguém souber quem escreveu estes três últimos parágrafos, por favor me diga – C.R.)



2 comments
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Terça-feira, Maio 2, 2006 às 3:31 pm
Tamara!
… e ? por isso q eu disse tudo aquilo pra vc no telefonema de hj. Maiores detalhes n?o interessam a ningu?m. Apenas posso dizer q amo vc, do meu jeito, e se isso te faz feliz, tb me faz feliz. Ou, pelo menos me faz sentir aliviada.
Te amo. Sinto saudades. Muitas.
Segunda-feira, Junho 8, 2009 às 10:51 am
daiane
Onde compro este livro??????????
grata desde já