
O inimigo não está do lado de lá.……………………………………..Nem do lado de lá.
A arquitetura é algo muito engraçado. Um lote de 1000 m² pode, por exemplo, ser ocupado por um edifício de 20 andares e no final o empreendimento (lote e edifício) terá algo em torno de 12000 m² de área útil. Pode ser mais ou menos, conforme a lei municipal que rege as construções. Fazer com que a terra renda mais do que sua própria natureza permite tem um preço. Se aquele edifício de 20 andares for residencial de padrão médio, teremos dois ou três apartamentos por andar, o que totalizará 200 a 300 pessoas. Se opusermos este número à área original do lote, teremos algo como 3 m² por pessoa — o espaço de um banheiro. Pelo que propõe a arquitetura e a construção civil — com o perdão do trocadilho –, o direito à terra nas grandes cidades é uma merda. Ou uma ducha de água fria.
Decerto não se fazem apenas edifícios altos. Há também casas térreas ou com dois pavimentos. Em muitas cidades pequenas esta é a tipologia predominante. Mas neste caso a arquitetura continua sendo engraçada. É comum um lote de 1000 m² ser ocupado por uma casa de 1200 m² (dois pavimentos) e esta casa ser utilizada por quatro pessoas apenas quatro ou cinco vezes ao ano — num total de pouco mais do que 15 dias. Temos aqui um total de 1600 m² (a casa somada à área livre) divididos por quatro pessoas, em quinze dias a cada ano. Geralmente quem dispõe de uma casa desse porte e nessas condições vive o resto do ano num espaço ainda maior. Supondo que cada uma daquelas quatro pessoas viva numa outra casa igual à primeira, teremos algo em torno de 800 m² de área útil por pessoa, o que equivale a mais de 250 banheiros.
Alguns desses números não são muito precisos, como o leitor atento notará. Mas a arquitetura continua sendo algo engraçado, por mais que as contas não fechem. A FAU-USP, por exemplo, formou o arquiteto que só anda de ônibus e trabalha na prefeitura com projetos de cunho social e também aquele que projetou a maioria dos edifícios neoclássicos da capital paulista forrados de mármore travertino. O discurso destas e de outras pessoas tenta justificar tanto os 3 m² como os 800 m² por pessoa, tanto a habitação social como o mármore travertino. A arquitetura é engraçada não por ser tão heterogênea ao ponto de servir demandas tão distintas, mas por encontrar meios de justificá-las. No Brasil, a defesa do mármore travertino não se dá sem uma ponta de remorso e a defesa da habitação social sempre é acompanhada de um tom raivoso contra aqueles que defendem o mármore travertino, que, paradoxalmente, vêem com certo desdém os defensores da habitação social.
A arquitetura é engraçada porque nela transparecem vivamente o conflito histórico entre Estado e mercado e a visão de que só o Estado pode fazer habitação social e o mercado só pode oferecer mármore travertino. Esta visão estreita e dualista não é exclusividade dos arquitetos, claro, mas na arquitetura a origem dos dois times é, como sugeri antes, mais próxima e tem menos relação com a condição social de seus integrantes do que se imagina. Esse conflito está no cerne de diversos problemas da arquitetura e da profissão. Não que todo profissional deva ser polivalente; o problema está em permitir que a reflexão se especialize também, não vendo problemas em contradições que podem estar no cerne da própria arquitetura. Em outras palavras, não há nada que impeça que arquitetos que projetam com mármore travertino façam isso a vida toda, mas seria muito bom — para ele e para toda a classe — se ele demonstrasse que sua opção é fruto de reflexão, não uma contingência. A mesma idéia vale para quem trabalha a vida toda com mutirões e urbanização de favelas e se engaja no problema dos sem-teto ao ponto de arriscar a pele em passeatas. Digo isso não porque é necessário causar esta ou aquela impressão, mas para que certas questões sejam resolvidas antes na própria consciência individual e para que seja esta a linha condutora de todo projeto e de toda ação. Depois, que venham o Estado e o mercado — não antes.



3 comments
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Quarta-feira, Outubro 10, 2007 às 4:38 am
luciano l. basso
Descobri o teu blog hoje e gostei muito… falar de arquitetura e dos problemas relacionados a ela com descontração é algo muito bom.
baita blog.
abraço
Terça-feira, Outubro 16, 2007 às 8:22 am
Christian
Obrigado, Luciano.
Abraço!
Quinta-feira, Dezembro 18, 2008 às 5:06 pm
Renato Saboya
Bom!
Uma das soluções defendidas por muitos para esse dualismo chama-se reorma urbana. Trata-se de uma tentativa de diminuir as desigualdades no acesso à terra urbanizada. Enquanto um número absurdo de pessoas não têm onde morar, ou moram em condições subumanas, uma quantidade incrivelmente grande de imóveis estão subaproveitados ou abandonados, esperando a valorização imobiliária. É a especulação correndo solta e, pior, já entranhada na cultura dos brasileiros. Para a maioria das pessoas é isso é considerado normal …