vintage ipod

Cresci acostumado à idéia de que o passado era melhor. Eu ouvia com freqüência meus avós dizendo «No meu tempo…» e em seguida eles desancavam o presente e rendiam loas a um tempo acostumado a TVs monocromáticas, carros enormes que poucas pessoas podiam ter, bolos feitos em casa e boa vizinhança. Tudo isso era agradável, é claro. Vou além: tudo isso era melhor, melhor do que as coisas são hoje. Não importa que hoje tenhamos gadgets, internet e melhores indicadores sociais. Tudo era melhor antes.

Gadgets, internet e indicadores sociais não são nada. Comparem-nos com aquilo que foi perdido, esquecido e extinto. A velocidade aumentou, mas morre-se mais no trânsito do que outrora; há menos pobreza, mas mata-se mais por dinheiro do que no passado.

Não vou-me estender nos paradoxos de nosso tempo, apenas recomendo tê-los em mente sempre. O que importa aqui é saber até que ponto o passado realmente era melhor e até onde vai a sinceridade das pessoas quando falam dele e suspiram por ele. Elas estariam dispostas a usar chapéus e a caminhar, a não ter carros bicombustíveis e e-mails, a viver um pouquinho menos, a não ter asfalto nas ruas e lojas refrigeradas e padarias em cada esquina? Elas estariam dispostas a transpirar mais, a fazer mais coisas por elas mesmas, a carregar peso, a cobrir longas distâncias a pé?

A questão não é voltar no tempo, mas trazer o passado para cá. Não é uma questão meramente nacional — porque dizem, com razão, que o país precisa ser reconstruído, recomeçado do zero e que muitas coisas elementares, daquelas que erguem nações, não foram resolvidas até hoje. É uma questão pessoal e emocional perceber que muita coisa foi deixada para trás e que, afinal, antes você era melhor. Não me refiro à infância, refiro-me à pureza (porque não somos puros porque somos crianças; somos crianças porque somos puros). Você era melhor não porque era criança, mas porque tudo era melhor, inclusive você.

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Vale a pena fazer um intervalo e lembrar que viver no presente é bom porque é a única opção disponível. Não há a necessidade de voltar ao passado simplesmente porque a possibilidade também inexiste. Tentar escapar do presente é irrealismo, loucura ou celebração da morte — ou as três coisas juntas, o que não é tão raro como se pensa.

(A propósito disso é interessante observar que há mais realidade e vida em grandes obras de arte do que nas conversas sobre os noticiários. Há mais realidade nas obras de Dali do que nos cadernos de economia dos jornais. Há mais realidade no zazen do que nos projetos de leis. Os mestres da arte e os mestres da vida são aqueles que realmente encaram a realidade.)

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Mas eu falava do passado e de nostalgia.

Ser nostálgico é suspirar pelo passado. É o que dizem. E todos aqueles que suspiram pelo passado e que dizem que ele era melhor se dizem nostálgicos. Não somos nostálgicos. Somos oportunistas. Não queremos o passado, queremos conveniências. A nostalgia cumpre seu papel neste sentido: suspirar pelo passado é uma forma de não assumir plena responsabilidade por tudo que acontece hoje — acredite, eu, você, somos todos culpados. E todos queremos voltar para o passado, mas dirigindo um De Lorean.

Não somos nostálgicos. Somos «vintage».

Verdadeira nostalgia não faz o sujeito apenas suspirar. Verdadeira nostalgia o faz valorizar cada memória, cada carta, cada velho costume (exatamente por ter durado), cada folha caída, cada mancha na parede caiada (naquele tempo não havia tinta acrílica), cada foto. E ao valorizar estas coisas elas são mantidas. Elas não envelhecem, elas evoluem. Elas não se perdem, elas se tornam mais vivas e presentes e doces e reais.

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A orgia de fotos e câmeras digitais não significou apenas o fim da fotografia — porque hoje qualquer pessoa com uma câmera digital na mão e um Photoshop pirata no PC se acha o Araquém Alcântara. Significou o fim das memórias. Talvez elas não tenham se perdido totalmente — ainda. Mas a banalização dos retratos, a confiança plena em meios não-impressos, a impossibilidade de folhear imagens, levá-las para a cabeceira da cama ou enviá-las fisicamente aos amigos, amantes e parentes é, sem dúvida, uma perda. O costume de ver fotos, o ritual de fazê-las, a reverência com que são trocadas, tudo isso ficou para trás.

Há compensações, claro. Mas considere a hipótese de você ter uma velhice que não saberá como a juventude se parecia.

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Eu pensava nisso enquanto pedalava e ouvia música. Eu tinha esse costume perigoso em meus primeiros anos na cidade onde vivo hoje. Por algum motivo que não me ocorre agora o costume foi abandonado. Passei a pedalar menos e deixei de ouvir música ao pedalar. Não houve compensações. Pedalar não se tornou mais seguro (na verdade ficou mais perigoso e isso nada tem a ver com ouvir música). Não me tornei um ciclista mais atento (sempre fui suficientemente atento). E a trilha sonora cada vez mais incluiu motores desregulados e escapamentos deliberadamente abertos. Apesar disso tudo, permaneci tempo demais pedalando nessas condições, tolerando a música ruim do óleo diesel mal queimado e dos boçais do trânsito e — o que era mais preocupante — sendo pior do que eu era naquela época.

Eu perdi algo bom que eu era e não ganhei algo bom hoje. A única felicidade — que é o que, afinal, me impede de cortar os pulsos de desgosto — é ter percebido isso a tempo. Arrisco-me novamente a ouvir música enquanto pedalo, pedalo mais e lembro da alegria que essas coisas trazem e a sinto ao ponto de sorrir sozinho — porque o pouco de autenticidade que nos resta se manifesta nos sorrisos sozinhos, nas lágrimas sozinhas, nos pensamentos que ninguém lê.

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Original da imagem aqui.