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carro de som
Isto sim é que é carro de som bão.

Tento descobrir a lógica oculta sob carros de som, muros pintados e panfletos que emporcalham as ruas. O esforço é vão, porque essa lógica é semelhante àquela outra, não menos misteriosa, que leva algumas pessoas a estourar fogos de artifícios quando um navio se vai, a abrir o porta-malas de um carro para que todos ouçam o som que vem dali e a acelerar forte uma moto barata de escapamento aberto em plena madrugada. É a lógica da melancia no pescoço, que diz que a melhor forma de conseguir algo que se deseja é fazer barulho, chamar a atenção, mostrar-se mesmo que de formas ridículas.

Se essa lógica se mostra impenetrável em meses normais — porque eu acho que nunca vou entender motociclistas e fogueteiros —, no período eleitoral ela ganha alguns flancos a partir dos quais seria possível (eis minha esperança) compreendê-la, expugná-la e bani-la deste arquipélago.

Eu começaria perguntando ao eleitor se ele votaria em candidato que faz circular pelo município um carro de som a pleno volume 18 horas por dia. Jingles publicitários são lamentáveis; quando somados a uma mensagem política ao estilo “ruim por ruim, vote em mim”, tornam-se patéticos. Se considerarmos ainda que esses carros de som têm potência suficiente para fazer os jingles se sobreporem às nossas vozes, invadindo nossas casas e interferindo no sossego habitual à maioria dos bairros de Ilhabela, então colocamo-nos a pensar em como serão as coisas a partir de 2009. Se o cara faz isso enquanto é candidato, imagine se for eleito.

O mais triste é que a maioria dos candidatos recorreu a estratégias de marketing surradas, caquéticas, ultrapassadas e — pior de tudo — danosas. É natural que os candidatos queiram destaque e se esforcem (com ou sem melancias no pescoço) para estar sempre em evidência; falem bem ou falem mal, mas falem deles. Eu, ingenuamente, sempre achei que o período eleitoral fosse época especial para os candidatos mostrarem algo além de boas (e barulhentas) intenções. Infelizmente a maioria mostra isso apenas no papel e no discurso, em programas de governo, palanques, entrevistas e debates, deixando em segundo plano a possibilidade de mostrar suas capacidades onde elas efetivamente serão úteis e necessárias: no dia-a-dia da cidade, no contato direto com os problemas do município — algo que nada tem a ver com o corpo-a-corpo com os eleitores.

Os quatro candidatos à Prefeitura já ocuparam cargos públicos no município e podem (devem) ser avaliados com base no que fizeram quando estavam lá. Eles esperam também ser eleitos com base no que pretendem fazer no futuro. Mas parece adequado considerar o que eles fazem hoje. Não me refiro aos sorrisos, aos apertos de mão e aos discursos diplomáticos. Refiro-me às ações. Hoje a atuação deles resume-se à candidatura, como se isto excluísse sua condição de cidadãos exemplares. Ilhabela precisa mais de exemplos do que de candidaturas, mais de cidadãos do que de candidatos, mais de ação do que de discurso, buzinaço e panfletagem.

Trata-se de desde cedo tratar com rigor quem pretende administrar a cidade e ser bem pago por isso. O mesmo tratamento deve ser dado aos candidatos à Câmara Municipal. Embora menos barulhentos e às vezes até discretos, a única diferença entre estes candidatos e os candidatos à Prefeitura é o orçamento da campanha. Pelas limitações naturais, o baixo orçamento os torna menos capazes de fazer barulho dentro de nossas casas e sujar calçadas. Todos, talvez com meia dúzia de exceções, estão impregnados da lógica da melancia no pescoço. Ilhabela não merece isso. Decibéis não deveriam eleger ninguém.

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Artigo publicado no jornal Canal Aberto em agosto de 2008.