Em época de eleição, bom mesmo é conversar. E raro também. A maioria das pessoas prefere expressar-se com paus, pedras e mastros de bandeiras numa época dessas.
*
Eis uma conversa hipotética. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência — ou nem tanto:
– E que tal votar no [Candidato 1]?
— Nem a pau! Você não lembra que ele fez [burrada 1, burrada 2, crime 1, crime 2 etc. etc. etc.]?
— Pô, é mesmo… E o [Candidato 2]?
— Menos ainda. Sabe quem tá com esse sujeito? Você já imaginou as pessoas que vão mandar nele caso ele seja eleito? Pra quem você acha que ele vai trabalhar se for eleito?
— E o [Candidato 3]?
— Cara, esse sujeito estacionou o carro em lugar proibido em janeiro de 1982. Eu não votaria nele em hipótese nenhuma.
— Caramba, não sobra ninguém? Alguém vai ter que ser eleito, não?
— Você, eu não sei, mas eu vou anular meu voto.
— Me parece mais sensato fazer um esforço e tentar pesar todos esses defeitos e ver qual pesa menos, não?
— Ah, sei lá. Eu não quero participar disso.
— Se você tem alguma consciência de todas essas coisas e é capaz de discerni-las e pesá-las numa balança moral, sua participação é muito mais importante do que você pensa. Porque tem muito eleitor aí que não é capaz de fazer isso. Além disso, a ausência das pessoas inteligentes beneficia os piores candidatos.
— O que você sugere? Que eu vote no [Candidato 1]?
— Em quem você vai votar é problema seu. Eu só acho importante tentar encontrar o “menos ruim” e votar nele, mesmo que você ache que todos são ruins, mesmo que você esteja decepcionado com estas eleições. Além disso, tudo depende de como você vai pesar as qualidades e os defeitos dos candidatos. Se há diferenças entre os candidatos, acho importante enxergar essas diferenças e votar naquele que tem mais qualidades, ou menos defeitos. Ou naquele cujos defeitos não interferem na vida pública e não o tornam incompetente para trabalhar pela cidade.
*
Para alguns, isto pode contradizer o que eu disse aqui, mas perceba que nos dois casos (aqui e lá) o que vale é fazer do voto um exercício de consciência — e pouco importa se ninguém mais o encara desta forma. A maior responsabilidade das pessoas inteligentes e responsáveis é propagar a idéia de que tudo — principalmente os gestos sociais, como votar ou sair à rua — deve ser feito com responsabilidade e consciência.




6 comments
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Sexta-Feira, Outubro 3, 2008 às 3:00 am
Lefebvre
O problema é a responsabilidade. Sabe como é, ninguém quer levar a culpa nas costas, principalmente se não pode fazer nada pra remediar a situação.
Mas nas democracias, até mesmo abrir um blog para criticar o seu candidato tá valendo, mesmo que ninguém leia.
O negócio é não deixar a peteca cair.
Segunda-feira, Outubro 6, 2008 às 1:04 pm
Anne Carrie
Parabéns pelo post!
Finalmente achei alguem que pensa como eu *-*
Por isso ontem votei!
Apesar de ter 16 anos e não ter essa ‘obrigação’
voltarei aqui com certeza!
Beijooes!
Terça-feira, Outubro 7, 2008 às 1:40 pm
Alberto
O problema, Christian, é que o voto nulo se mistura com o do cidadão que não consegue votar, por mais surreal que seja. A pessoa entra na estatística do analfabeto eleitoral, não do vot conscient contra todos so candidatos.
Agora, se houvesse a tecla “nenhum”, te garanto que ganharia em primeiro turno de norte a sul do país
Terça-feira, Outubro 28, 2008 às 1:23 pm
Fabio
Concordo com o Alberto. Ontem mesmo vi um representante do TSE na TV equiparando o voto nulo com o ato de “votar errado”.
Não podemos esquecer, que anular o voto (que é diferente de votar nulo), pode também indicar um descontentamento com o sistema representativo vigente.
E parte do problema, passa pelo próprio TSE, que em nenhuma das suas campanhas televisivas do “Vota Brasil”, esclarece sobre como proceder para anular o voto, direito garantido em lei e que foi conquistado com muito sangue e morte no nosso país.
Terça-feira, Outubro 28, 2008 às 1:29 pm
Fabio
Outro ponto que esqueci de mencionar: votar no “menos ruim” é simplesmente negar a própria opinião e aceitar de cabeça baixa a situação política do país como um todo. Agindo dessa maneira, você se deixa de opinar o que realmente pensa acerca da eleição e dos candidatos e se conforma no que lhe é dado (e de certa forma imposto, já que o voto é obrigatório). É aceitar o mando do TSE e ignorar as formas igualmente democráticas de expressão da opinião, como o ato de anular o voto.
Terça-feira, Outubro 28, 2008 às 4:51 pm
Christian
Fábio,
sou obrigado a discordar de você. Votar no “menos ruim” pode não ser a melhor das posturas como eleitor, mas não implica negação da própria opinião. Um eleitor pode votar no “menos ruim” porque acredita fortemente na idéia do “mal menor”, porque acredita que faz diferença entre ter sua cidade administrada por um político que é “apenas” incompetente ou por um outro, que é incompetente, desonesto e ladrão. Acho essa crença válida para determinar o próprio voto. Se ela é a melhor opção, não sei.
O que sei é que, infelizmente, é improvável que o voto nulo chegue um dia a anular uma eleição e, mesmo que isso ocorra, é otimismo demais imaginar que os novos candidatos serão melhores do que os antigos. O problema é a democracia e a educação dos eleitores (ou a falta dela), não o sistema baseado na candidatura livre e no voto universal e direto.