storm sailing boat
Tempestade à frente? Só o futuro dirá. (link da imagem)

Se as eleições revelam até onde as pessoas estão dispostas a ir para realçar as diferenças, as semanas que as sucedem trazem-nas de volta à realidade: este arquipélago é um só. Isto significa que não há diferenças importantes, mesmo que os partidos e seus líderes digam o contrário.

Nunca entendi a existência de vinte e sete partidos políticos num país onde os problemas e as soluções são bastante óbvios e urgentes. As eleições deste ano em Ilhabela tiveram quatro coligações, algumas formadas por coligações menores — estas, por sua vez, formadas por partidos cujas legendas poderiam sugerir incompatibilidade total. Eu não entendi nada. Lia programas de governo, conversava com candidatos e encontrava soluções muito parecidas. A sabatina proposta aos candidatos por este Canal Aberto revelou que não havia diferenças importantes em suas propostas ou na disposição para trabalhar pelo bem da cidade. As diferenças estavam em detalhes que não eram suficientes para explicar a atmosfera tensa e nauseabunda que tomou conta de Ilhabela nos poucos meses de campanha.

Como era de se imaginar, as divergências entre candidatos estenderam-se aos seus eleitores. Votar em X significou tornar-se inimigo de todos os que votaram em Y ou Z. Política é algo bem diferente de futebol, mas as torcidas se alinharam, houve foguetório, gritaria, agitação de bandeiras, buzinaço — provas de que a maioria não entendeu a importância da política e a utilidade das eleições. O que poucos perceberam é que só havia um gol a ser feito, não havia time adversário, não estávamos num campeonato, jogávamos todos no mesmo time e, assim, não havia, como não há, time perdedor ou time vitorioso.

É cedo para chamar os candidatos eleitos de vitoriosos. A vitória se anunciará a partir de 1º de Janeiro, quando os eleitos efetivamente ocuparão seus cargos, trabalharão e demonstrarão suas capacidades, reforçando nossa fé na democracia ou frustrando-a irremediavelmente. Penso que houve uma derrota geral quando possíveis debates deram lugar a discussões inúteis e superficiais e quando o barulho anulou o silêncio necessário à reflexão (eu tendo a pensar que muita estupidez é feita simplesmente porque não houve o silêncio necessário para pensar em coisas melhores, mas isso fica para depois). Por outro lado, a fé que ainda tenho na democracia leva-me a acreditar que as transformações serão positivas e que, afinal, todos seremos vencedores.

Aos eleitos, desejo boa sorte e que sejam capazes de retribuir a confiança que lhes foi depositada. Aos reeleitos, que sejam ainda melhores e saibam aproveitar as lições do mandato que se encerra. Aos que não foram eleitos, desejo que prossigam trabalhando pela cidade, pois este lugar não se constrói apenas com cargos públicos, mas com trabalho honesto, responsável e competente, em qualquer esfera.

A todos, desejo sabedoria e humildade para perceberem que só existe uma única vitória possível, um único plano de governo exeqüível, um único objetivo realmente digno de ser alcançado: transformar Ilhabela num lugar cada vez melhor. Isto não nos obriga a unirmo-nos com quem nos ofendeu, muito menos a praticar um altruísmo demagógico. Basta trabalhar pelo bem deste lugar. Se este for o objetivo, o que fizermos em benefício próprio beneficiará também aqueles que estiveram do outro lado das trincheiras políticas e mostrará que, afinal, vivemos todos no mesmo arquipélago, circulamos na mesma avenida e observamos o mesmo pôr-do-sol.

.
Artigo publicado no jornal Canal Aberto em 10 de Outubro de 2008.