itaguassu
Se essa imagem pudesse ser cheirada…

A verdade é que esta cidade não produz nada. As pessoas vêm para cá, divertem-se, consomem, produzem lixo e esgoto e vão embora — ou permanecem, para continuar fazendo essas coisas pelo tempo que seu apreço por este lugar perdurar. Tudo se resume a isso. Quase todas as pessoas que aqui vivem dedicam-se a tornar esse processo cada vez mais fácil: quanto mais pessoas vierem, maior será o faturamento, maior será a prosperidade superficial que nada devolve de positivo para o arquipélago. A verdade é que este lugar estaria melhor sem nós, sem o turismo, sem ruas rasgando-lhe o tecido, sem construções que demandam desmatamento, sem o esgoto que polui o solo e as águas, sem ocupações ordenadas ou desordenadas, sem a pressão sobre os limites de áreas preservadas e frágeis.

Pode-se argumentar que esta cidade produz experiências, memórias e emoções — estas coisas de que os turistas tanto gostam. Apesar de tudo, as pessoas continuam saindo de Ilhabela com impressões mais positivas do que negativas; a maioria pensa em voltar e de fato volta. O problema é que esse êxito depende da capacidade do arquipélago manter-se como ele é e é claro que esta capacidade é cada vez menor. Com o objetivo de proporcionar experiências únicas para mais e mais pessoas, a condição original do arquipélago tem sido transformada até o ponto em que essas experiências deixarão de ser únicas e poderão ser obtidas em qualquer lugar. E quando essas experiências puderem ser obtidas em qualquer lugar, as pessoas deixarão de perceber as qualidades particulares do arquipélago e deixarão de responder a isso, acelerando o processo de destruição desse lugar. Quando toda experiência for única, todas as experiências serão iguais — aqui e em qualquer lugar.

As pessoas só preservam aquilo que conhecem. Se suas experiências resumem-se a eventos que podem ocorrer em qualquer lugar — raves e baladas, bebedeiras e rachas, filas nos restaurantes e mercados —, elas passarão a buscar esses eventos em qualquer lugar, sem se preocupar com o lugar que efetivamente sustenta esses eventos. Pode ser Ilhabela, São Sebastião, Florianópolis ou Recife. Alheias ao lugar, nenhum lugar será mais importante do que a necessidade de se divertir. E assim as pessoas conhecerão cada vez menos o chão que estão pisando e se sentirão cada vez mais à vontade para pisá-lo — ou pisoteá-lo. Com o tempo, a extinção deste lugar só fará diferença para quem sentir essa extinção no bolso.

Pode-se argumentar que a falta de autenticidade no turismo não seria um problema se as pessoas continuassem tendo boas experiências, memórias e emoções, independentemente do destino turístico. O problema está no fato de que em meio a este oba-oba nada resta de positivo — mesmo que o turismo seja autêntico, estiloso e bacaninha. Álbuns de fotos e cartões de memória cheios não compensam o fato de que o lugar está sendo destruído todos os dias. A arquitetura, outra atividade economicamente relevante, não tem tornado este lugar melhor — o saldo de tantas obras tem sido muito negativo, é fácil notar. Desde que Ilhabela integrou-se aos dogmas do eixo Rio-São Paulo, a vida aqui se resume a construir, consumir, desenvolver e progredir. Já dizia o sábio que se você seguir caminhos já trilhados necessariamente chegará a lugares já conhecidos — não me parece que as grandes cidades sejam um bom referencial; basta olhar para elas e perguntar-se se é aquilo que você quer.

Contam-se nos dedos de uma mão as pessoas que têm consciência desse estado de coisas e que realmente se esforçam para tornar este lugar um pouquinho melhor. A avassaladora maioria continua contribuindo apenas com lixo e esgoto. Este é o espírito da coisa.

.
Publicado no jornal Canal Aberto em 23 de janeiro de 2009.