
Não, não serve apenas para manter o marido na linha.
A vida não é feita de respostas prontas, mas de perguntas fundamentais e sérias que nos colocam num caminho ou que nos afastam definitivamente dele. O que todos buscam é a Verdade e o Bem. A possibilidade de obter estes valores em sua própria vida está mais ligada às perguntas do que às respostas. No entanto, a determinação na busca por respostas evita que você se perca na névoa densa das perguntas.
Praticar Aikido é uma das formas mais interessantes de se expor a perguntas profundas e fundamentais e dedicar-se seriamente à busca de respostas. A simplicidade e a sinceridade de um ataque direto e a necessidade de se defender com rapidez e eficiência não deixam espaço para respostas ambíguas ou hesitantes. Você não pode parar para pensar, não pode ter dúvidas do que vai fazer e raramente pode evitar a situação que foi colocada diante de você. No Aikido, você não precisa ter uma resposta definitiva, basta que ela seja válida, basta que você encare com sinceridade e determinação a questão que lhe foi proposta.
Diante da lâmina da espada do oponente só há duas respostas possíveis: vida ou morte. O Budo — o conjunto das artes marciais tradicionais japonesas, com o qual o Aikido tem relação direta — resume-se a matar ou morrer. No Japão dos samurais, hesitar significava morrer. A vida também é assim, porque ela não permite ensaio e só existe uma direção possível — sempre adiante.
Mas o leitor poderá perguntar: numa época em que muitas artes marciais são praticadas para obter medalhas e muitos conflitos são resolvidos num tribunal ou num tiroteio, qual a importância do Aikido? Qual a importância de praticar Aikido num mundo marcado por conflitos aparentemente insolúveis, em que as pessoas se vêem como inimigas umas das outras?
Algumas respostas podem surgir se pensarmos nas origens dos conflitos que vemos todos os dias. Brigas, discussões, até mesmo guerras — todos os conflitos têm origem na consciência individual. Guerras são travadas entre povos e nações, mas um líder ou estadista é que de fato determina o início das batalhas. Uma disputa jurídica começa quando uma pessoa acha que um direito seu está sendo desrespeitado; advogados e julgamentos em tribunais vêm bem depois.
Ações desse tipo — processar alguém, começar uma guerra — começam quando um indivíduo sente-se ameaçado de alguma forma. Esse sentimento depende de como a pessoa vê o mundo e a realidade à sua volta. Se uma pessoa desconfia de todos e só vê adversários ao redor, logo ela não verá alternativa senão brigar e impor-se através da força. O medo gera violência e a violência gera medo.
O Aikido mostra de uma forma muito objetiva e direta que a violência não é uma boa resposta para os conflitos. Diante de um ataque, você pode contra-atacar golpeando fortemente seu parceiro, a ponto de nocauteá-lo. Você terá resolvido o conflito, mas terá perdido seu parceiro de treino. Logo não restará ninguém disposto a treinar com você e você será malvisto por seu grupo. Algo semelhante ocorre na vida, fora dos treinos de Aikido: uma pessoa violenta, que responde aos conflitos de forma agressiva, pode ser bem-sucedida hoje, mas amanhã terá uma legião de inimigos à espreita, pessoas dispostas a buscar vingança ou a revidar suas atitudes agressivas. A vitória sempre cria derrotados e é fácil perceber que o sentimento de derrota pode ser bem ruim para o mundo.
Outra forma de lidar com o ataque é neutralizá-lo sem nocautear o parceiro. Não é importante apenas preservar a integridade física do parceiro para que o treino possa prosseguir. Mais do que isso: é fundamental evitar o ataque e construir uma situação de paz real, verdadeira e boa para todos. O êxito que causa danos às pessoas ao redor não é êxito verdadeiro. A paz obtida à força não é paz verdadeira. A paz verdadeira é boa para todos aqueles envolvidos num conflito.
A principal contribuição do Aikido para o mundo é oferecer aos praticantes a possibilidade de experimentar formas eficientes e seguras de evitar e resolver conflitos. Inicialmente, isto é mostrado de uma forma muito clara e palpável, através da simulação de ataques (socos, chutes) e da prática de respostas a esses ataques (as técnicas do Aikido). Com o treinamento, o praticante percebe que cada ataque e cada técnica podem ser vistos como metáforas dos conflitos do dia-a-dia e que os princípios das técnicas marciais do Aikido podem ser entendidos e usados num contexto não-marcial. Quantas pessoas já não se envolveram em conflitos no trabalho, num relacionamento, no contato familiar? Quantas pessoas já não perceberam a importância de resolver esses conflitos de uma forma que seja positiva, pacífica e construtiva para ambas as partes?
Pode parecer exótico vestir um kimono, repetir termos japoneses e treinar técnicas que raramente terão alguma utilidade prática — pois, por exemplo, ninguém usa torções de pulso para pagar contas ou cumprir suas responsabilidades profissionais —, mas o que o Aikido ensina é que, seja no tatami, seja no dia-a-dia, existem formas inteligentes, eficientes e boas para lidar com um conflito e que, afinal, seu oponente não é muito diferente de você mesmo.
O Aikido ensina a ser forte, confiante e determinado — em outras palavras, a agir sem hesitação, pois é importante sobreviver aos conflitos do dia-a-dia. Mas o Aikido também ensina a ser justo, pacífico e bom, pois é importante resolver esses conflitos sem causar mal a ninguém. E não há neste mundo nada mais importante do que justiça, paz e bondade.



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Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009 às 10:52 am
eliane
Chris, vejo aqui uma tentativa de fazer essas práticas se amoldarem à um discurso moralista. Eu não conheço a história do Aikido, mas sendo uma arte marcial será mesmo uma forma de ensinar o pacifismo? Aprender a rugir, defender-se com garras se necessário – com toda a elegància e calma, ou seja, ter presença de espírito, é isso o que acredito ser o benefício que essas praticas trazem para algumas pessoas. Outras já tem esse domínio naturalmente. Pessoalmente eu busco isso, já que tremo como vara verde frente aos conflitos.
Você parte do pressuposto de que o conflito é gerado pela pessoa que vê o mundo e a realidade à sua volta com desconfiança. Diz que uma disputa jurídica começa quando uma pessoa acha que um direito seu está sendo desrespeitado. Nossa… Imagine, se tudo parte dela mesma, se somente ela tem o poder de neutralizar o conflito, então ela tem o controle total é?
Justo, pacífico e bom…hummm, cuidado com aquilo que o Reinaldo chama de etiqueta dos bons pensamentos — a minha professora de yoga já dizia : enquanto pratica, observe seus pensamentos, coloque uma etiqueta neles… É uma boa maneira de desatar a corda que quer nos enforcar.
abraços,
Eliane
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009 às 11:39 am
Christian
Oi, Eliane.
O discurso é moralista porque o aikido — como muitas artes marciais — está relacionado com clareza e decisões morais. A responsabilidade ao lidar com uma agressão, mesmo que de uma forma simulada e controlada, é grande e tem algumas implicações morais.
O pacifismo proposto como solução para as questões morais desta arte marcial esbarram em sua ascendência: o aikido está ligado à tradição samurai que, embora permeada do espírito do xintoísmo e do zen-budismo, resumia-se na prática à arte de guerrear.
Mesmo sob um mundo ‘moderno’, o aikido continua sob o paradoxo de ser uma arte do combate mas ao mesmo tempo propor uma atitude pacífica (ou pacifista) diante do conflito.
Naturalmente, nem tudo está sob o controle do indivíduo. Outro paradoxo do aikido seria afirmar-se como controlador de uma situação (conflito) que começa em razão de sua falta de controle sobre ela. Ao mesmo tempo, afirmar-se como controlador de um conflito exige também perceber a própria responsabilidade sobre a origem dele. O poder de neutralizar o conflito exige o reconhecimento de nossa participação em sua origem.
Etiquetas oferecem riscos, mas elas podem ajudar no começo, para traçar caminhos quando não se tem nenhum. O bom-mocismo, inclusive nos discursos, oferece o risco de “confundir o dedo com a lua”. Com atenção e observação constantes, de fato, pode-se evitar que as etiquetas se acumulem no próprio pescoço.
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009 às 11:58 am
eliane
Tratando-se de uma luta, imagino que a clareza ou a decisão moral começam pelo respeito às regras : não valem golpes baixos, etc. Sem dúvida menor, este já é um grande ensinamento. Agora não consigo ver a ponte que você estabelece entre uma arte de guerra e um propósito pacifista. Acredito sim que o aikido deve levar à um exercício constante de auto consciência, como o hatha yoga, e com isto pode se alcançar um domínio que eu não chamaria de pacifismo.
Claro, paz é o que a maioria ( não todos ) quer, e de agressões ninguém gosta, mas os conflitos não são tão simples assim, muito menos as guerras. O mal que se infiltra não é justamente essa tendência geral contra o direito de defesa ( que implica em ataque ), contra a verdade ou princípios morais se você preferir?
Veja, por exemplo, o que escreve o jornalista da folha Luiz Felipe Pondé :
Num programa Roda Viva com o ministro José Gomes Temporão, da Saúde, que fazia a defesa da legalização do aborto, indaguei se não poderíamos garantir aos fetos os mesmos direitos de que gozam os ovos de tartaruga. A minha intervenção foi considerada agressiva.
É óbvio que não se trata disso no seu texto, mas ao dizer: “o poder de neutralizar o conflito se dá mediante o reconhecimento de nossa participação em sua origem” ( uau, isso é tema para a igreja, nem o papa se atreveria! ) ou “uma disputa começa quando uma pessoa acha que está sendo desrespeitada “, não posso deixar de acusar o quanto isso pode ser enganoso.
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009 às 2:10 pm
Christian
Eliane,
se entendi o Aikido, os paradoxos a que me referi não foram resolvidos ou simplesmente não são discutidos, sobretudo quando se chega a um nível que permite o mestre comandar diversos alunos. Neste caso, vale a hierarquia e o silêncio — necessários para que a arte se perpetue tal como ela é, não obstante o peso da tradição. Como quase tudo que é da tradição japonesa, o Aikido evolui lentamente.
Um amigo uma vez indicou um caminho interessante para compreender estas questões: para ser genuína, a paz precisa ser uma escolha consciente.
Você tem o poder para fazer o bem e tem o poder para fazer o mal. Você faz o bem porque tem consciência das implicações, dos resultados e da importância de cada tipo de ação. Um dos objetivos do Aikido é ter esse tipo de clareza, pelo menos até onde for humanamente possível obtê-la.
O que quis dizer em meu texto foi inspirado nisso. As respostas definitivas não estão no indivíduo, mas a consciência individual é a porta para chegar a elas. As duas frases que você destacou têm esse mesmo pressuposto.
Obviamente, existe um limite para a consciência individual e além desse limite a consciência realmente pode trair, mas fora dela me parece impossível começar a resolver os conflitos — sejam eles corriqueiros, sejam eles épicos. Certamente uma solução final (se isso existir) não se encerra no indivíduo, mas parece justo começar em si próprio essa investigação.
Terça-feira, Fevereiro 17, 2009 às 11:15 pm
Norton
pode-se dizer que um punho fechado liberta e aprisiona?
em um único tópico bem redigido várias questões se apresentam e fica cada vez mais difícil compreende-las se não começarmos a desvenda-las por partes.
e uma das partes que acho primordial é de como isso se apresenta dentro de mim.
se o conceito de liberdade esta atrelado a espaço,seja ele de expressão ou físico, sem luta o único lugar seguro é dentro de seus próprios pensamentos, mas meu corpo não participará desta liberdade sem luta ou conflito,interno ou externo
então se o conflito é necessário saber lidar com ele é a chave da liberdade.
contra uma força maior nada se pode fazer, mas nenhuma força por mais intensa que seja pode mudar um pensamento e nenhum pensamento pode evitar sofrimento físico imposto por outro.
então qual seria a incongruência sobre uma arte marcial que procura a dissolução de conflitos?
sejam eles internos ou externos.
pode-se dizer que não existe luta no crescimento de uma arvore? uma grande arvore ao crescer luta pelo sol e espaço e com isso tira de outras ao seu redor luz e nutrientes para o seu crescimento, e ao crescer dá sombra a outras que necessitam disso e abrigo a animais em seus troncos e galhos, alimentos a outros tantos também, ouve ou não ouve conflito? não existiu luta?
mas falamos de uma arvore, um pequeno animal doméstico como um cão de porte pequeno achamos ser inofensivo em relação a um de grande porte e existem relatos de pessoas atacadas por cães de grande porte, mas existem mais mordidas de cães pequenos do que grandes em pessoas, mas diríamos, as sequelas são menores, sim concordo mas se fosse possivel a este pequeno animal produzir feridas grandes ele faria, o que lhe falta é tamanho e força, sendo assim a intensão é o que conta e não o estrago produzido.
um cão covarde morde mais que um cão confiante.
mas estamos falando de cães, uma caneta não fere, mas sim uma arma, errado.
uma caneta mata e uma arma pode divertir ou participar de olimpiadas,o que difere é quem a segura.
e a única coisa que segura a intensão errada de agredir ferir ou matar é a disciplina, que vem junto com preceitos morais, como a cão deve-se dar disciplina já que a moral vem depois de nos conhecermos e entendermos o significado da palavra liberdade que é de todos, mas até o entendimento do meu espaço e o seu deve -se seguir a hierarquia daquele que sabe apontar o dedo na direção correta até que tenhamos parametros suficientes para entendermos algo.
peço desculpas aos pacifistas de plantão, mas se vestir de branco e deitar na areia faz de vocês vitimas, porque o agressor ainda não entende o seu gesto.
atitudes pacifista somente não mudam nada e se mudam caem por terra inócuas como nasceram junto aos mártires que produziram, ser pacifico não significa ser fraco, mas saber defender uma causa e usar a força necessária para defender seus pensamentos espaço e corpo, saber o emprego do necessário requer ensinamentos morais e disciplina e anos de dedicação a arte da guerra pela paz.
acredito que uma atitude de vitima procura carrascos, sejam eles físicos ou psicológicos, existem violências que nenhuma arte marcial pode evitar, mas se a mudança não começa dentro de nós aonde começaria ? no outro que também esta perdido?
dois bebes juntos, um belisca e outro chora, quem esta certo e quem esta errado? quem é vitima ou quem é agressor? alguem poderia responder isso sem conhecer toda historia?
Mas para aquele que é beliscado sobra pouca opção, ou chora e sofre ou aprende a se defender,defendendo-se torna-se agressor, não existe tempo para grandes e profundas reflexões, resta sempre a ajuda externa que pode ser de forma ponderada afastando os dois
ou batendo no agressor,mas ouve emprego de força nas duas situações o que difere é como quem tinha a força conhecimento e poder a utilizou.
isso não tem haver com o que foi colocado?
o conhecimento da força não trás bons e maus resultados?
onde então não se justifica o conceito de moral dentro de uma arte marcial ou a proposta pacifista?
parte-se então do pressuposto que todo artista marcial é um agressor e todo pacifista nunca tem atos agressivos, isso seria verdade?
este debate todo não é um conflito?
Quarta-feira, Abril 8, 2009 às 10:58 am
thiago andré
Admiro a técnica do Aikido. Só não concordo em parte com os aspectos filósoficos. Vejo que o Aikido ensina um pacifismo que muitas vezes não é possível em um confronto real.Os defensores do Aikido dizem que Morihei modificou o enfoque que era dado ao militarismo no Aikijutsu e passou a dar um enfoque civil. Mas nas ruas a realidade é muito cruel.Não adianta vir com “história de reconciliação” ou de “reconduzir o oponente ao caminho da paz”.Isto só funciona na academia, com colegas de treino que estão com objetivos pacifistas,mesmo que anteriormente tenham sido briguentos. Nas ruas quando se vai tentar aplicar esta filosofia,o Aikidoista está correndo um sério risco de ser morto ,sem a menor piedade.
Quarta-feira, Abril 8, 2009 às 11:16 am
Christian
Você está certo, Thiago. Se a situação é de perigo, se sua vida está em jogo, a única coisa importante é preservar sua própria integridade física e emocional. Não há filosofia suficiente quando querem agredir você.
No entanto, acredito que o Aikido é capaz de atuar exatamente onde nenhuma outra arte marcial atua. Por exemplo: se ao se defender você machucar seu oponente, você pode estimular sentimentos de vingança — e assim sua defesa terá sido a origem de novos ataques. Outro exemplo: o Aikido desenvolve no praticante uma atitude mais segura e positiva em relação à própria vida e este tipo de atitude pode ser um motivo a menos para um agressor atacá-lo.
O que quero dizer é que a visão que os aikidoka têm sobre a defesa pessoal não é ingênua ao ponto de limitar-se ao pacifismo e ao mesmo tempo ultrapassa o mero treino de técnicas de ataque e defesa. Se a defesa pessoal se limitasse ao combate corpo a corpo, as armas de fogo teriam extinguido todas as artes marciais.