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O Canal Aberto publicou recentemente a impressionante constatação do secretário nacional de segurança pública: «A segurança pública brasileira é um desastre». Mais de 40 mil mortes a cada ano não deixam dúvidas disso; os exemplos cada vez mais hediondos são abundantes. No que diz respeito ao desprezo à vida, o Brasil é referência.

Além do atentado rotineiro à vida, crime e violência trazem sérias conseqüências indiretas para a sociedade. Em 2006 a cidade de São Paulo parou por um dia, vítima do clima de medo instalado por boatos e por atentados diretos à Polícia Militar. No Rio de Janeiro, todos os dias uma parte da cidade tem suas atividades interrompidas por tiroteios; comércio, escolas e hospitais são fechados pela ação direta de criminosos. Além disso, o clima de constante guerra civil e o medo associado a essa situação criam campo fértil para outros tipos de violência, uns mais brandos, outros mais severos. A violência urbana esfacela a sociedade e o esfacelamento da sociedade estimula ainda mais a violência urbana.

Ilhabela participa dessas estatísticas. Homicídios já não são novidade no arquipélago. Crimes contra o patrimônio são corriqueiros e trazem em si a ameaça potencial à vida. Brigas e agressões, especialmente toleradas e relativamente comuns em eventos noturnos de fim de semana, também representam ameaça à vida: ninguém espanca outra pessoa porque quer que ela continue vivendo ou porque preza sua vida. De formas diversas, os pequenos e os grandes crimes coincidem no desprezo e na ameaça potencial ou real à vida alheia.

A eleição da nova diretoria do Conseg representa um esforço importante no combate e na prevenção ao crime em Ilhabela, mas não suficiente — principalmente se estas não forem as prioridades absolutas da população e do poder público. Apesar da importância do tema, ainda se perde valioso tempo discutindo nomes de ruas, títulos beneméritos e o pedágio da balsa. Veja só.

O poder público transmite um recado importante ao não colocar a defesa da vida como prioridade máxima em seus trabalhos. A competência para um cargo público pode ser medida pela forma como o sujeito define suas prioridades. Para trabalhar, investir no turismo e no mercado imobiliário, defender o meio ambiente e melhorar a infra-estrutura municipal é necessário antes estar vivo e ter a certeza de que sua família e seus bens não serão ameaçados. Qual brasileiro hoje pode ter essa certeza? Se nem mesmo os responsáveis por manter a paz e a ordem não têm senso de prioridades e não conseguem garantir a própria integridade, que dizer de cidadãos comuns?

Não há nada mais importante do que a defesa da vida. Apesar disso, não se vê qualquer contradição entre a tolerância para com pequenos delitos e a criminalidade crescente. O que ontem era considerado abominável e absolutamente inaceitável hoje é encarado com fleuma, que traz em si uma certeza mórbida: diante disso tudo, estamos indefesos e somos completamente impotentes.

Mas sempre é possível fazer algo. O primeiro passo é encarar seriamente a questão, colocar como prioridade aquilo que realmente é prioritário. Repito: não há nada mais importante do que a defesa da vida. Se compreendermos realmente o sentido desta afirmação, será possível fazer algo em relação à questão da violência, sem perder tempo com miudezas. O segundo passo é informação: com a população devidamente informada sobre as ocorrências e sobre os meios de prevenção será muito mais fácil restabelecer os vínculos sociais (fundamentais para a prevenção e para a solução de crimes) e evitar a proliferação da violência. O terceiro passo é educação, não apenas a educação direta, que afasta jovens do crime, mas também o estabelecimento de uma cultura de absoluta intolerância e repúdio ao crime e à violência.

Logicamente, esses três passos não dispensam o poder público do cumprimento de suas responsabilidades fundamentais, como policiamento, investigação e punição. A ação conjunta do poder público e da sociedade é fundamental. Seja você cidadão comum ou pessoa pública, lembre-se que o silêncio, a inércia e a neutralidade só beneficiam os criminosos. No que diz respeito ao crime e à violência, não há meio termo: ficar em cima do muro faz de você um alvo ainda mais fácil.

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Publicado no jornal Canal Aberto em 15 de maio de 2009. link da imagem