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Não se deixe enganar pelos bons samaritanos que hoje se mobilizam em benefício das minorias. Primeiro porque ser minoria não atesta a miséria ou a opressão do indivíduo. Ser minoria significa apenas fazer parte de um grupo númerica e relativamente pequeno. Minoria é panfleto, bandeira e palavra de efeito na boca desses mequetrefes. Não existe miséria onde as pessoas fazem três refeições ao dia e não existe opressão onde qualquer pessoa pode sair à rua para expressar qualquer idéia, por mais idiota ou nula que seja.

Em segundo lugar, porque a mobilização em benefício das minorias acontece em detrimento das pessoas que não fazem parte delas. É justo ajudar pessoas necessitadas, mas não é justo que isso ocorra com prejuízos aos direitos de quem mal sanou as próprias necessidades.

Estas duas razões ajudam a compreender o perigo das ações afirmativas.

O discurso ácido dos grupos de defesa dos negros força a barra para esconder as contradições contidas nas expressões «direitos dos negros», «consciência negra» e «cultura negra». Estas expressões pressupõem, por exemplo, que justiça e direito podem depender da cor da pele e de outros atributos que não definem a condição humana, mas apenas a condição de parcelas da população. A ação desses grupos não é pautada pela consistência de sua causa — que, como se nota, não suportaria o mínimo exame — mas pela capacidade de esconder aquelas contradições e mantê-las afastadas das discussões e dos noticiários. Se ninguém se preocupar com elas, se ninguém percebê-las, não haverá nenhum problema em elaborar discursos e executar ações com base nelas. Não haverá, a partir daí, qualquer problema em reconhecer um negro antes como negro e depois como pessoa, submetendo a própria condição ao humana aos critérios raciais. Ao fim, pode-se argumentar sempre que os responsáveis pela empulhação não são aqueles que vendem essas idéias, mas os crédulos que as aceitam e as aprovam sem examiná-las.

Vende-se a idéia de que todo mestiço que tenha algum traço de negritude é negro necessariamente — mesmo que se saiba, desde o ensino fundamental, que todo mulato descende de branco e negro e, portanto, é metade branco (admitindo que haja alguma sensatez em estabelecer quantidades na composição racial de um mestiço). Para resolver os casos mais difíceis, aqueles em que a cor da pele não é suficientemente negra ou suficientemente branca, recorrer-se-á a comissões que avaliarão se o sujeito é negro e se está apto a beneficiar-se das cotas racistas — digo, raciais.

Situação idêntica é a dos grupos de defesa dos direitos dos homossexuais. Como no caso dos negros, a expressão «direitos dos homossexuais» é um oximoro. Mas, diferentemente dos negros, o que se usa como critério não é a cor da pele, mas a opção sexual do indivíduo. Quem defende os direitos dos homossexuais pressupõe que a opção sexual pode ser usada para elaborar leis que privilegiem especificamente. Não, não pode.

Trata-se de um total absurdo jurídico. O homossexualismo (ou homossexualidade) é uma condição que não pode ser atestada senão pelo próprio indivíduo homossexual. Legisladores não vêem qualquer problema no fato de que basta o sujeito declarar-se homossexual para beneficiar-se com as novíssimas leis, que poderão ser usadas inclusive para processar quem queira duvidar da auto-declaração.

Isto é o que ocorre hoje com várias outras minorias e outros temais sociais polêmicos. Na Inglaterra, por exemplo, criam-se cada vez mais concessões para os migrantes islâmicos sem que se perceba que o preço disso são os princípios que permitiram que o país desenvolvesse condições de receber inclusive esses migrantes.

O resultado das ações afirmativas é um só: a dissolução da sociedade. Através das ações afirmativas, pessoas dividem-se em grupos, minorias, castas, clás e exigem para si mesmas a concessão de direitos especiais argumentando que sofrem precisamente porque são minorias — e, portanto, são oprimidas e desprivilegiadas.

No caso brasileiro, com a pressão de grupos de defesa de negros e homossexuais, cria-se a novíssima divisão racial e sexual da sociedade, ainda que a Constituição Federal determine a igualdade universal. Leis que hoje determinam direitos e deveres dos cidadãos, independentemente de cor ou opção sexual, são desbotadas pela criação de várias legislações especiais — assim é o PL 6.418/2005, a chamada lei anti-homofobia.

Ainda mais preocupante é o fato de que o que determina a condição necessária para se beneficiar com legislações especiais não é uma condição universalmente aceita de humanidade, mas em condições auto-declaradas ou critérios confusos e subjetivos — o que equivale, como se pode notar, a escrever essas leis com base nesses critérios.

Cria-se desta forma a idéia de que todos são diferentes perante a lei. Destrói-se desde dentro as leis e os princípios que permitiram que houvesse alguma liberdade, alguma igualdade e alguma ordem neste país. Quem disse que todos são iguais perante a lei não imaginava que as coisas pudessem chegar ao ponto que chegaram: a sociedade cada vez mais dividida em grupos, cada qual exigindo leis que, se aprovadas, arruinarão cada vez mais as leis que sustentam a já frágil igualdade dos indivíduos.

Com o tempo esses grupos não se reconhecerão como iguais e entrarão num conflito tal que apenas o Estado que criou essa divisão será capaz de manter a ordem. Os direitos eventualmente conquistados com as ações afirmativas não compensarão a tragédia de uma sociedade dividida e organizada pela força do Estado, mas esses grupos continuarão achando, por muito tempo, que deram uma lição à maioria opressora, branca e de olhos azuis.

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