
Há muitas maneiras de resolver um problema. A melhor delas é conhecer suas causas. Sem esse conhecimento o problema pode até ser resolvido, mas se as causas não forem eliminadas, o problema voltará, provavelmente com mais força.
Estas afirmações dizem muito a respeito do problema da violência. Não é difícil descobrir as causas da violência. Uma delas é a desorganização do Estado no combate ao crime. O Estado organizou-se bastante para assuntos que considera fundamentais, como alimentos saudáveis em cantinas escolares, a cruzada antitabagista em estabelecimentos privados e as lágrimas da menina Maísa na TV. Enquanto isso, quarenta mil homicídios por ano não são suficientes para tornar o assunto prioridade máxima. Mata-se mais no democrático e malemolente Brasil do que no radical e belicoso Oriente Médio.
Outro fator óbvio que levou ao crescimento da violência foi a organização do crime. A facilidade com que criminosos comandam bairros inteiros em algumas cidades mostra sua capacidade de organização e aumenta a visibilidade do naufrágio do Estado no cumprimento de suas responsabilidades mais elementares. A logística do tráfico de drogas, por exemplo, pode ser algo bem complexo e eficiente. Eu não ficaria surpreso se descobrisse que é mais fácil comprar drogas do que protocolar um pedido numa repartição pública e vê-lo atendido.
Mas o motivo principal para o crescimento da violência é sem dúvida a desorganização da sociedade. O crime não se propaga apenas porque se trata de uma «oportunidade de trabalho» rentável, sedutora e garantida. Há nisso mais questões envolvidas.
Primeiramente, há o esfacelamento dos núcleos de educação moral — a família e a escola. Não quero dizer que a família acabou, mas é evidente perceber as mudanças na hierarquia familiar, a forma como a criança e o adolescente se impuseram sobre seus pais (com o auxílio ishperto de «especialistas» e do próprio Estado), a glamorização da rebeldia e a banalização da delinqüência. Também não quero dizer que toda escola é ruim, mas as falhas do sistema são óbvias. A fraqueza, a covardia e a lentidão ao rechaçar a rebeldia e a delinqüência transmitiram aos jovens duas mensagens importantes: 1) é bom ser rebelde e 2) pais e professores só são bons na medida em que dão espaço para a rebeldia. Nas palavras do filósofo Olavo de Carvalho, a rebeldia juvenil nada mais é do que «amor ao mais forte que o despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama».
Em segundo lugar, a cultura também colabora com a desorganização da sociedade. Se, como se vem repetindo nas últimas décadas, a satisfação pessoal e o sucesso material são valores fundamentais, não haverá problemas em obtê-los a qualquer custo, independentemente de meios, de ética, de moral, até mesmo de vidas. É a cultura, por exemplo, que impede que jovens criminosos sejam punidos como adultos. É a cultura que culpa a vítima e vitimiza o bandido, dando espaço para pérolas jurídicas que condenam a 150 anos, que no papel se transformam em 30 e que na prática não chegam a 10 anos – isto é, quando as penas são cumpridas. É a cultura que defende a liberação do aborto e das drogas, que inventa leis e cotas raciais e sexuais, que afrouxa os valores morais e os substitui por uma pasta rançosa de corrupção generalizada, impunidade, desordem, assassinato e banalização da vida. Em outras palavras, a cultura está aí para dizer que na maioria das vezes o crime compensa e que respeitar a lei e não se desviar do caminho reto é coisa para molóides.
Quando vão perceber que antes de combater as fraudes financeiras, os crimes políticos, o desmatamento, a ocupação desordenada, o desemprego, as instabilidades econômicas, o preconceito e a discriminação é necessário antes que as pessoas estejam vivas e garantir que elas não se matem umas às outras? Quando vão perceber que estar vivo é condição necessária para fazer qualquer coisa pelo bem de uma cidade ou de um país? É tudo uma questão de ordem.
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Publicado no jornal Canal Aberto em 29 de maio de 2009. link da imagem



3 comments
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Terça-feira, Junho 2, 2009 às 1:50 pm
gilvas
aparentemente, é mais importante tratar com cuidado e delicadeza a tal da geração indigo, estas crianças super-sensíveis e criativas, que devem ser livres para fazer qualquer besteira que desejem. sabe, tem dias em que eu penso que é uma boa ser mortal.
Quarta-feira, Julho 15, 2009 às 8:35 am
Rosangela Berges
Olá Christian, tudo bem? Acabei de ler o teu texto, pois cheguei até ele atraves do link no atual tópico de discussao sobre o barulho no campo da
Galera em Ilhabela. Christian sempre que posso leio os teus escritos por que acho que você tem uma visao lucida e coerente a respeito deste dias tao dificeis em Terras Brasilis…Mas desta vez eu acho que vou discordar um pouco de você, por que lá no tópico da Comunidade Ihabela você escreve que a questao do barulho em Ilhabela é o de menos em relacao aos problemas de criminalidade que Ilhabela vem sofrendo, mas Christian eu acho que esses “Eventios” promovido pelos politicos em Ilhabela, mas é ai neste ponto que eu acho que tua opiniao está em desencontro no que você expoe no teu texto Violencia & Cia, pois na minha opiniao eu acho que tá tudo ali junto, nao sei se você entende bem o que quero dizer, infelizmente o espaco é pequeno, vocên citou o Olavo de Carvalho, se você lembrar bem o Olavo diz que tudo comeca devagarinho e atraves dessa vaca sagrada que é a cultura popular que muita coisa vai pro brejo!
Por isso eu acho sim que tem quer ser combatido o problema do barulho que é gerado por esses Eventos, nao pelo Evento em si mas por tudo que ele representa, inclusive o barulho. Abracos. Que teus anjos te protejam.
Sexta-Feira, Julho 17, 2009 às 12:02 am
Christian
Entendo seu ponto, Rosangela, e de fato você está correta quando sugere que os grandes temas se expressam também nas coisas mais miúdas.
Talvez eu tenha me expressado mal em meu artigo. Refiro-me à importância de agir. A ação é bem-vinda sempre e é sempre mais fácil começar a agir sobre aquilo que cabe nas mãos, que está ao alcance dos braços, que oferece menos riscos — a poluição sonora é um problema muito mais simples do que o da violência.
A idéia, acredito, é manter vivo o senso das proporções. Saber distingüir entre dois problemas diferentes. Eu entendo o escândalo e a revolta com um problema com a poluição sonora, mas não entendo a raridade do escândalo diante da criminalidade. Meu receio é de que a anestesia realmente se torne uma regra, ao ponto da violência só assustar a pessoa quando ela própria se tornar mais uma vítima. Mas há mais solidariedade para coisas miúdas, como o barulho das cidades, o péssimo serviço de balsas e os eventos turísticos, do que para coisas grandes e importantes, como a violência.