
Existe a idéia solidificada de que todas as ações afirmam algo — e que elas devem afirmar algo. É possível não afirmar nada? Talvez não seja. A respiração é a reafirmação constante da própria vida e do desejo de viver. Atenhamo-nos então às afirmações mais essenciais, mais elementares, mais necessárias.
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A lição definitiva do exercício de conscientização é dissolver a consciência, porque conscientizar-se profundamente significa perceber que não há o que perceber, que não há o agente e o objeto da percepção. Perguntar sobre métodos para tornar-se mais consciente é a reação mental típica, a armadilha de Jñana, que em muitos casos conduz ao fracasso. Sua utilidade está em cansar a mente a um ponto tal que ela pare de fazer perguntas, pare de querer saber, pare de tentar controlar e perceba verdadeiramente.
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A razão nos coloca nesta ou naquela direção e há diferenças entre lançar-se de um penhasco e caminhar com segurança numa praça. Naquilo que é elementar é bom dar ouvidos ao que a razão diz — débil e claudicante, mas nos economiza o tempo de reinventar rodas. Mas e depois? Como se escolhe uma direção quando se está parado em silêncio e repouso? Como e por que escolher uma direção quando não há bifurcações ou quando elas só existem na mente?



7 comments
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Quinta-feira, Julho 2, 2009 às 6:04 pm
eliane
Bem importante a questao que voce coloca a respeito das acoes. Veja o que diz um sabio indiano, numa carta citada no livro Occult World
( Sinnet, 1885 )
Desculpe a traducao sem muito cuidado e tambem a falta de acentos.
” Para voces ( ingleses ) nao existe diferenca entre a forca vital dispensada por um viajante, que abre picadas no seu caminho, e o mesmo equivalente dinamico empregado por um sabio para colocar um pendulo em movimento. Nos sabemos a diferenca; sabemos que existe um abismo entre esses dois homens. Um dissipa e gasta sua forca, sem proveito algum, o outro concentra-a e armazena-a; e aqui, e preciso notar que de modo algum considero a utilidade relativa de cada homem, como facilmente pode-se supor.
Eu me atenho somente ao fato de que, no primeiro caso, ha simplesmente emissao de forca irrefletida, sem que esta seja voluntariamente transformada numa forma mais alta de energia mental; e no segundo caso, e justamente o contrario que acontece.
Quando um cerebro trabalha de uma maneira verdadeiramente cientifica, a consequencia de sua mais alta atividade intelectual e o desenvolvimento, a evocacao de uma forma sublimada de energia mental, a qual pode produzir na atividade cosmica resultados ilimitados”.
Isto me parece ser Jnana; nao creio que existam armadilhas, o yoga e pura ciencia e requer muito estudo e orientacao.
Vai com calma que o andor e de barro!
beijos
Terça-feira, Julho 7, 2009 às 12:16 am
Christian
É sempre bom ser lembrado a respeito do lado científico do yoga, a despeito do que nossa percepção insiste em nos dizer a respeito da prática e do estudo de temas, coisas e doutrinas orientais.
Muito obrigado, Eliane.
Beijos.
Terça-feira, Julho 7, 2009 às 2:50 am
Moreno Garcia
A lição definitiva do exercício de conscientização é dissolver a consciência
Que vantagem há em dissolver a consciência?
porque conscientizar-se profundamente significa perceber que não há o que perceber, que não há o agente e o objeto da percepção.
O que diabos isso quer dizer?
Perguntar sobre métodos para tornar-se mais consciente é a reação mental típica, a armadilha de Jñana, que em muitos casos conduz ao fracasso. Sua utilidade está em cansar a mente a um ponto tal que ela pare de fazer perguntas, pare de querer saber, pare de tentar controlar e perceba verdadeiramente.
O que diabos é “perceber verdadeiramente” e que indícios existem que isso é possível além da percepção normal?
Terça-feira, Julho 7, 2009 às 12:14 pm
Christian
Moreno,
Que vantagem há em dissolver a consciência?
O que diabos isso quer dizer?
A vantagem é a economia de tempo e a facilidade na compreensão da realidade — e provavelmente há mais vantagens. À medida que se reduzem as diferenças e as distâncias entre sujeito e objeto estes papéis são desfeitos. Trata-se de um longo caminho em busca da Unidade.
O que diabos é “perceber verdadeiramente” e que indícios existem que isso é possível além da percepção normal?
Eu não sei o que é “perceber verdadeiramente”, mas eu me referia à luz que surge quando o emaranhado de perguntas e discussões cessa. Os indícios de que isso é possível além da percepção normal estão na Bíblia, no Tao Te Ching, no Bhagavad Gita. A mim me parece evidente que Buda, Jesus, Lao Tzu e Shânkara percebiam coisas que eu, simples mortal que tem uma “percepção normal”, não percebo.
Domingo, Julho 12, 2009 às 11:39 pm
Moreno Garcia
Eu acho que percebe sim. Só não intelige. Isso fica bem claro quando Sócrates interroga o escravo no Ménon.
Recentemente você escreveu o “Eu, eu, eu”. Gostei muito dessa parte:
“Mas o que me permite viver é saber que não sou aquilo que não sou.”
Foda é quando você explica isso para alguém que se pretende mestre e ele não entende. E muito pior do que um cego é um cego que quer guiar os outros.
Eu entendo que nesse tipo de texto sagrado há verdade. Mas essas palavras (dissolução, consciência, verdade) estão tão viciadas que atualmente só servem para hipnotizar e confundir. Há muito tempo perdeu-se da nossa cultura, da nossa linguagem e do nosso modo de pensar a base mínima necessaria para se compreender tais coisas ao invés de se afundar em um amontoado de mais palavras.
Por enquanto é isso. ;)
Segunda-feira, Julho 13, 2009 às 5:10 pm
Christian
Entendo e concordo, Moreno.
As diferenças entre percepção e compreensão renderiam vários posts e eu nem sequer comecei a esmiuçá-las na minha cabeça.
O que você disse me fez lembrar deste episódio — link 1 e link 2. Pude acompanhar uma das aparições do guru no Jô Soares. Na ocasião, uma moça da platéia questionou o guru criticando sua verborragia nauseante. O mal estar foi visível, como se ela tivesse acabado de cometer uma heresia. A resposta foi ainda mais verborrágica e nauseante. Mais tarde vieram à tona as duas matérias que linkei aí.
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No que diz respeito ao yoga (pois é isso de que trata o post) felizmente há sempre a possibilidade de recorrer às escrituras, já que parte delas fala de coisas palpáveis como perna, braço, cabeça, chão, respiração, digestão etc. etc. etc. Por mais que os discursos, os debates e os textos pareçam confusos e hipnóticos, há sempre a possibilidade de deixar tudo isso de lado, estender o tapete e praticar.
Terça-feira, Julho 14, 2009 às 12:16 am
Milarepa
Então, alguém experiente com a realização
Percebe não a consciência, mas a mente primordial,
Percebe não a aparição da realidade, mas a própria realidade,
E assim a força da compaixão surge.
Os atributos iluminados dos Budas,
Incluindo poder, destemor e conservação,
Emergem à maneira de uma pedra preciosa.