
Não discuto nunca. Regra de civilidade. Isto não significa abdicar da verdade e de sua defesa. Isto significa apenas não discutir. Na maioria dos casos em que a discussão parece tornar-se necessária, ela não vale a pena e, mesmo que seja iniciada e vencida, fica sempre a sensação de que a Verdade não veio à tona, não foi observada, tampouco absorvida. Simplesmente não valeu a pena e nunca valerá. Não há nada que se possa fazer para alterar a velocidade da passagem do tempo — ou “A Verdade é filha do…”.
Mesmo que se trate de mentiras ou de verdades muito simples — “você não disse que entregaria o projeto hoje?”, “você tem falado com aquela vagabunda?” ou “nunca antes na história destepaiz” — a discussão não trará nenhum benefício genuíno, a verdade permanecerá esquecida e toda a interação girará em torno daquilo que foi dito, passando a léguas de distância dos fatos, daquilo que as pessoas realmente sabem que a verdade é e se sustentará na capacidade demoníaca que elas têm de mentir para si mesmas. É preocupante notar a incapacidade crescente de fazer confissões para si mesmo.
Eu sou a única pessoa com quem me permito discutir. É uma triste exceção para uma regra que não deveria permitir nenhuma, porque no fundo não há diferença entre discutir comigo ou com outra pessoa. A discussão não traz a Verdade à tona, seja quem for seu interlocutor. Discussões são jogos de palavras. Como tais, sua utilidade máxima é cansar a mente e levá-la a um ponto em que não seja mais capaz de protagonizar o que quer que seja. É um processo semelhante ao de algumas artes marciais: o esgotamento físico total leva o corpo a manifestar energias ocultas e a mostrar que, afinal, a verdadeira força não está nos músculos, assim como a Verdade, afinal, não está nas palavras.
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Update: “neti neti” é expressão que vem do sânscrito e que significa algo como “não isto, não aquilo”. Seu objetivo é mostrar ao indivíduo que a Verdade não é aquilo que ele vê, ouve, sente ou pensa. Naturalmente, todas as coisas palpáveis, assim como todo o mundo material, correspondem em alguma medida a uma categoria específica de realidade — aquela que inclui contas para pagar, salada para o almoço e o descanso no fim do dia. Mas a Verdade não é isto e não é aquilo. Neti neti.
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12 comments
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quarta-feira, novembro 18, 2009 às 5:01 pm
Jacqueline
Oi Christian,
não sei se o que vou escrever está em sintonia com o que pensava no momento da escrita,
mas concordo em parte com vc (sic).
Na revista Veja desta semana saiu um especial “vocação”.
A questão é: “Em qual profissão vc se encaixa?”
Em um questionário acerca do tema, perguta-se: Você prefere levar sua vida como?
1-Com pouca rotina e poucas regras
2-Com regras definidas e disciplinas
3-Interagindo com todo tipo de pessoa
4-Com muito autonomia “na sua”.
Então deduz-se que de acordo com o que se opta é que se defini o quanto
as discussões são inevitáveis ou não na vida.
Dependendo da forma como se leva a vida é que se gradua o nível em que as pessoas se expõem.
Muitas vezes a falta de discussão torna-se uma imparcialidade, e isso é uma atitude muito desagradável
em um indivíduo, pois se tem a impressão que a outra parte nunca está sendo autêntica.
Ela simplesmente se exclui de se mostrar, de se expor, e são nesses momentos que realmente se conhece o ser humano.
Não me refiro as discussões violentas e de baixo nível, me refiro sim as discussões acerca daquilo que acreditamos
como valores, virtudes … Veja, “acreditamos”, pode ser que a partir de uma boa discussão nasça
um outro ponto de vista que leve alguém a enxergar o que não conseguiria se outro alguém não dissesse.
No meu ponto de vista o objetivo de argumentar ou discutir deve ser sempre na intenção do progredir, compartilhar,
interagir, e nunca de ser dono da verdade. Afinal, ninguém o é.
Qual opção escolheria?
Um abraço
Jac
quinta-feira, novembro 19, 2009 às 11:03 am
joaopc
Christian, antes de mais, obrigado pelo excelente blog, já ganhou um admirador. Aliás, dos blogs, já que cheguei aqui por via do seu também magnífico Advaita Yoga (não sou yogi mas é a minha companheira, e gerimos um estúdio de yoga, formação e bem-estar em Portugal, que pode conhecer aqui http://taocentro.blogspot.com/ e onde o seu blog já está linkado).
Sobre este post, consigo empatizar com a sua posição existencial relativamente à discussão, também sou assim. Ou melhor, tento ser assim por princípio. Mas não em sentido absoluto ou fundamentalista… Ou seja, faço depender essa postura das circunstâncias, do contexto. Porque também não consigo deixar de me relacionar com a opinião do comentador Jac, que também me parece bastante sensata.
Também depende um pouco do que você entende por “discussão”, penso que aqui se refere a um (des)encontro mais violento de palavras e ideias – um trabalho de equipa criativo exige um processo de discussão, por exemplo.
O confronto de ideias, no entanto, mesmo de forma mais assertiva, pode, sim, ter benefícios genuínos. Pode não ser na hora, mas já me aconteceu várias vezes na vida, ter discussões violentíssimas em torno de impressões ou convicções – de política, de religião, etc.. E depois de passar a fúria, ou eu ou o outro, começarmos a reflectir com mais tranquilidade nos argumentos contrapostos e vergarmos nas nossas concepções erradas. Nem que seja no dia seguinte. Também depende, presumo eu, da natureza da relação que se tenha com o outro.
Com a minha mulher, não sendo frequente, acontece começarmos a discutir e acabarmos a rir ou a fazer outras coisas simpáticas… E quase sempre um de nós diz: “tens razão, desculpa, fui uma besta”. E do conflito nasce luz :)
A nossa condição de animais sociais tem muito que se lhe diga…
quinta-feira, novembro 19, 2009 às 11:10 am
joaopc
ps: ficou linkado no meu comentário um blog que mantenho em nome do riso, mas o meu blog pessoal é o http://naturalmente.wordpress.com/
Bem-Haja!
quinta-feira, novembro 19, 2009 às 12:18 pm
gilvas
provar que palavras não provam nada: eis o pior tipo de discussão em que eu já me meti, e o qual mais me esforço para evitar.
segunda-feira, novembro 23, 2009 às 10:55 am
Eliane
Que ótimo texto Chris, excelente mesmo, também os comentários. Me caiu como uma luva!
quinta-feira, novembro 26, 2009 às 11:56 am
Snake
Oi, Chris!
Estou com um novo blog. Se quiser conferir, o endereço é esse:
http://alternativosindependentes.blogspot.com/
Abraços!
quinta-feira, novembro 26, 2009 às 10:37 pm
Christian
Obrigado, Eliane. Fico feliz que tenha gostado. Esse foi um dos meus posts com ‘paternidade plena’.
quinta-feira, novembro 26, 2009 às 10:39 pm
Christian
Seja bem-vindo, Snake. Verei o novo blog.
Abraços.
quinta-feira, novembro 26, 2009 às 10:44 pm
Christian
Não sei o que eu escolheria, Jacqueline. Talvez a 4, porque prezo a autonomia, embora reconheça minhas próprias dificuldades de obtê-la.
Você tem razão no que disse, mas trata de um tipo muito específico e positivo de discussão. Naturalmente, quando se trata de duas pessoas inteligentes e que sabem dialogar com elegância (virtude cada vez mais rara), permitindo a natural alternância das falas, a discussão realmente produz bons frutos. Nessas condições, o silêncio e a ocultação do próprio conteúdo podem ser formas abomináveis de deselegância e de desonestidade.
Todo o problema gira em torno da possibilidade de encontrar pessoas assim, conscientes das vantagens de uma boa discussão e das regras que as regem.
Abraços.
quinta-feira, novembro 26, 2009 às 10:51 pm
Christian
Relendo seu comentário, João, noto que a resposta que ofereci à Jacqueline é adequado ao que você disse.
O confronto de idéias realmente pode trazer excelentes benefícios — e tanto maiores eles serão quanto maiores forem as ligações com nossos interlocutores. Se o diálogo é entremeado com cumplicidade emocional e intelectual, tanto melhor. Toda e qualquer discordância que possa surgir nessas condições será motivo para enriquecimento mútuo, não para separação e agressão.
Além do problema de encontrar pessoas com que se possa manter essas discussões, como eu disse à Jacqueline, há também as dificuldades de conservá-las ao nosso redor. Enfim, discutir não é fácil, mas pode gerar frutos doces.
Obrigado por seu comentário e por seus elogios, João. Seja bem-vindo.
sexta-feira, novembro 27, 2009 às 12:01 am
joaopc
Obrigado, vou tentar continuar a ser visita do seu excelente blog.
Concordo consigo. E acrescento, ainda no contexto do animal social que todos somos, que a discussão é um ingrediente inevitável (e essencial!), por exemplo, de uma democracia saudável. Naturalmente que falamos sempre no domínio do confronto de ideias, mesmo que mais acalorado (um parlamento ou um congresso onde não haja discussão é um fórum moribundo…), porque a democracia, como tudo na vida social ou individual, é um jogo de cedências. Porque todos nós, indivíduos ou grupos, temos, legitimamente, interesses particulares a defender. E para que o todo funcione de forma minimamente harmoniosa, há que existir esse constante debate/discussão entre interesses (ou ideias, opiniões, ideais, etc.) diferentes, uma negociação permanente. Nem sempre as negociações são pacíficas, mas a solução que delas resultar será sempre muito mais legitima e equilibrada.
É claro que seria eventualmente mais simpático que os parlamentos fossem constituídos por sábios racionais, sussurantes e gentis. Mas isso não seria uma representação real do Ser humano e da sua dimensão emocional.
E o que temos nas nossas democracias (peço desculpa por esta intromissão da política e falo de realidades como a europeia, a norte-americana ou a brasileira) é já um meio-termo muito interessante, em que, na procura do tal compromisso, o debate de ideias não degenera em violência e o nível da discussão é regra geral civilizado.
sexta-feira, novembro 27, 2009 às 10:55 am
Jacqueline
Christian, tá vendo como seu post gerou uma discussão maravilhosa. Bom seria se tivêssemos sempre ao nosso redor pessoas como vocês: criativas, inteligentes, cordiais, que se interessam pelo crescimento pessoal e do próximo, com sensibilidade até para discordar.
Um abraço aos comentaristas Gilvan, Eliane, Snake e João.