Encontro problemas toda vez que tento discutir um tema com alguém, sobretudo quando a discussão não é iniciada pessoalmente, mas filtrada pelas distâncias da Internet.

O principal problema que encontro é a total ausência de noção de como uma discussão deve funcionar. Refiro-me àquela dose mínima de racionalidade para que a discussão não apenas funcione e renda frutos para as pessoas envolvidas na discussão, mas também para que a discussão mereça este nome. Quando, por exemplo, você expõe um fato ou um argumento e a outra pessoa responde acusando você de grosseria ou arrogância, realmente não se trata de uma discussão, trata-se de um encontro casual entre duas entidades que não pertencem à mesma espécie.

Você mesmo, caro leitor, movido pela leitura de minha última frase acima, poderá pensar que um comentário desse tipo constitui grosseria pura e simples. Para que não pense assim, lembre-se dos atributos que costumam ser usados para definir o que é um ser humano: um ser humano é um indivíduo dotado de razão e capaz de conhecer a realidade. Isto inclui saber perceber as diferenças que há entre dois seres/entes/objetos diferentes — por exemplo, um tomate e um cachorro — no momento mesmo em que observa esses dois seres. Certamente distinguir grunhidos, opiniões, argumentos e descrições de fatos não é algo tão rápido e simples como distinguir tomates e cachorros, mas é condição necessária para que um ser humano se considere apto a se comunicar com outros seres humanos. Por exemplo, a diferença entre «ai!» e «ajude-me, estou com uma dor forte no peito!» pode ser a diferença entre viver e morrer.

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A primeira condição para discutir um tema é ter interesse nele. Óbvio. Na maioria das vezes uma pessoa inicia uma discussão não porque tem genuíno interesse no tema, mas apenas porque queria expressar-se e chamar para si a atenção dos ouvintes/leitores/espectadores.

Sabemos que a maneira mais fácil de atrair a atenção das pessoas ao redor é expressar-se com eloqüência, preferencialmente de forma opinativa/controversa. Para esse fim, bater panelas ou pendurar uma melancia no pescoço funciona melhor do que um bom argumento. Às vezes é difícil detectar, à primeira observação, se a pessoa expressou-se porque realmente tem interesse no tema exposto ou porque simplesmente queria chamar a atenção para si. Se o segundo caso se confirma, o máximo que essa pessoa merece é compaixão — nunca descrições consistentes sobre a realidade do tema sugerido, muito menos argumentos. Em outras palavras, não se deve discutir com quem preza mais o barulho e o calor do conflito do que o tema em si. O tempo é valioso.

A segunda condição para discutir um tema é respeitá-lo. Respeitar um determinado tema significa permitir que ele seja o que é, não aquilo que você gostaria que ele fosse. Dois exemplos:

1) Militantes pró-gays esforçam-se para demonstrar que existe um holocausto gay em andamento; uma breve verificação das estatísticas é suficiente para demonstrar exatamente o oposto. Mais detalhes (e também números) podem ser encontrados aqui e aqui.

2) Cada vez que um policial é flagrado cometendo algum excesso, muitas pessoas alardeiam o retorno da ditadura, o que, é claro, subentende que aqueles eram tempos obscuros e indesejáveis. Porém, verificando estatísticas criminais de hoje e de 30 ou 40 anos atrás, é fácil saber que o Brasil da ditadura era bem menos assassino do que o Brasil de hoje. Logo, o Brasil da ditadura era muito menos obscuro e indesejável do que aquelas pessoas alardeiam.

O esforço para demonstar algo que simplesmente não existe é sintoma de desprezo pela realidade. Quem despreza a realidade, sobretudo quando ela é colocada diante de seus olhos, já não merece compaixão, merece mesmo uma camisa de força. É claro que é possível discutir um tema como quem discute fragmentos de um conto de fadas com a Rainha de Copas, mas também é humanamente necessário evitar discussões desse nível e com pessoas desse tipo.

A terceira condição para discutir um tema é conhecê-lo. Conhecimento é conseqüência do respeito. É natural que queiramos saber mais sobre um tema que respeitamos. Note, aliás, como, nos dois parágrafos acima, a ignorância não é o que se pretende combater com a discussão, mas precisamente o que se quer afirmar, como se ignorância e conhecimento fossem espécies do mesmo gênero. Ignorância é o estado em que o conhecimento está ausente.

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Fecha-se assim a primeira tríade: interesse –> respeito –> conhecimento. É esta tríade que torna o indivíduo um debatedor digno de ser ouvido ou lido.

O interesse e o respeito permitem que o indivíduo se sente à mesa, mas só o conhecimento efetivamente o autoriza para o debate. A ausência de conhecimento só é um problema se o indivíduo faz questão de ser ouvido e ao mesmo tempo ignora o direito que as pessoas ao redor têm de ignorar o que ele pretende dizer.

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Tenho consciência de que vivo num mundo que despreza esses três atributos. Ignora-se a importância deles assim como se ignoram as pessoas que os possuem.

Todo estudante genuíno é um marginal.