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letras

Às vezes eu me canso de mim mesmo e digo — murmurando, condescendentemente — que existem coisas muito mais importantes do que defender valores. Oh, sim, são eles que sustentam o mundo, que o impedem de se tornar uma festa que terminará em mortes e vômito, blablabla.

Mas perceba que isso não pode ser dito simplesmente — ou não pode ser apenas dito. Quem recebe uma mensagem desse tipo só a entenderá se puder vislumbrar uma festa cheia de mortes e vômito e a desgraça que isso representa.

Entre os vários significados de “vislumbrar” está “perceber” ou “compreender”, que é o que acontece quando uma imagem nítida forma-se na sua mente. Morte e vômito não são coisas boas — literal ou metaforicamente. E festa não é exatamente o destino mais digno que se pode imaginar para o mundo.

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A escrita tem um limite para além do qual escrever torna-se tarefa digna de pena. Piada recorrente:

– Eu sou escritor.
– Sei. Legal. Mas, mudando de assunto, com quê você trabalha?

Se o escritor usa a literatura para defender os valores em que ele acredita sem antes examinar se estes valores correspondem à grita geral, então sua ruína será certa e a glória — se vier –, sempre póstuma. Mesmo que exista essa correspondência, a ausência de exame impedirá o escritor de dar à sua defesa aquela couraça popular que a torna aceitável.

(Quando falo de popular eu me refiro, respectivamente, às idéias que estão em voga e que são aceitas porque são correntes e normalmente aceitas e também me refiro às idéias que são habitualmente desejadas e para as quais existe uma permeabilidade natural e às vezes inconsciente, mesmo que não sejam comuns)

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O sucesso na literatura é algo admirável. Escrever é a arte de manipular o leitor e impedi-lo de saber-se manipulado.

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link da imagem

japanese swordsmith

O que impressiona e encanta é a capacidade de ser aquilo que se se faz, de manifestar por si só aquilo que se é e os hábitos e fazeres e rituais que constróem sua personalidade.

Eu não vejo como a arquitetura pode levar a esse tipo de manifestação. A arquitetura não é arte, mas processo — dos croquis até a obra pronta, quantos capítulos. A arquitetura não é obra de gênio, mas de grupos — pense em Niemeyer escultor e seu mecenas; ou em Niemeyer arquiteto e seu calculista.

Relação diferente entre obra e criador há nas artes marciais, na dança e nas artes em geral, nos rituais de algumas religiões, na filosofia. Há ascese, há sentido, há genialidade (mesmo que apenas potencial) na medida em que o indivíduo se baste em si mesmo ao criar sua obra, na medida em que ele, sozinho, possa ser considerado artista, gênio, indivíduo pleno, completo e indiscutível.

Você não discutiria com Sto. Tomás de Aquino, com Fídias, com Bach ou com Morihei Ueshiba porque estamos falando de mestres indiscutíveis, mas porque aquilo que eles fizeram basta tanto quanto aquilo que eles foram. E porque, afinal, não se percebe neles nenhuma diferença entre ser e fazer.

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Original da imagem aqui.

Esta é a Capela Sistina:

capela sistina

Você, arquiteto, por favor me responda: o que impede que a arquitetura seja assim hoje?

Antes de responder a pergunta sugiro que você reflita sobre a idéia de que a arquitetura deve estar para o mundo e para as pessoas da mesma forma que as paredes e as molduras estão para uma pintura.

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Original da imagem aqui.

Não é porque o cara é meu amigo que eu sugiro a vocês que visitem seu saite pessoal e ouçam suas músicas. Eu sugiro que vocês façam isso porque músicos habilidosos e inspirados como ele são raros hoje em dia.

Imperdível.

leminski

Comecei a ler poesia da pior forma poss?vel: precisei decorar os primeiros versos de “Os Lus?adas” e declam?-los em voz alta e bom som diante de uma plat?ia que n?o me suportava e que me considerava ? erroneamente, ? claro ? um nerd sociopata. Levei muito tempo at? me recuperar. Quando me recuperei, me deparei com os haiku de Paulo Leminski. E fiz o favor ? para mim e para o poeta curitibano ? de esquecer Cam?es.

No fundo, no fundo,
bem l? no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela m?goa sem rem?dio
? considerada nula
e sobre ela ? sil?ncio perp?tuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra tr?s,
l? pra tr?s n?o h? nada,
e nada mais

mas problemas n?o se resolvem,
problemas t?m fam?lia grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.


50 poesias de Paulo Leminski
, perdidas em algum lugar de meu saite antigo.

Kamiquase, o saite oficial.

Aqui o poeta fala do judo e de sua rela??o com a poesia ? a for?a individual, a n?o-hesita??o. Leminski era faixa preta e professor de judo.

Pedro Sette Câmara, impecável como sempre, n’O Indivíduo:

A visão historicista e hegeliana da história da literatura (ou melhor: da simples sucessão de obras literárias) acaba também produzindo um pequeno monstro, que é a crença de que, por estarmos vivendo no presente e não no passado, estamos como que «na crista da onda». Os autores sentem-se mais obrigados a «inovar» do que a escrever bons livros; sentem a grande pressão de não repetir algo já feito, como se fosse melhor escrever algo experimental e ruim (melhor exemplo: poesia concreta) do que repetir formas já utilizadas e ser bom. Por séculos prevaleceu o acordo de que literatura seria mais ou menos falar e escrever bem; hoje, «literatura» é falar algo de um jeito que ainda não foi falado por ninguém e, para repetir o clichê, todo autor precisa reiventar a roda e propor toda uma nova teoria da arte em cada obra de arte, porque a obsessão metalingüística leva a crer que fazer obras de arte é meramente refletir sobre a arte.

Vale uma reflexão sobre a arquitetura à luz das idéias expostas acima. Ouvi alguém mencionar Vitruvio?

Se a vida tivesse trilha sonora, a minha seria mais ou menos assim:

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sand mandala

Mandala vem do s?nscrito, significa c?rculo m?gico.

Monges Tibetanos criam estas imagens arquet?picas para nos lembrar do ciclo de vida e morte. No Tibet, o processo de se criar uma mandala ? t?o importante quanto a mandala em si. Leva-se anos de prepara??o e treinamento para se ganhar a habilidade e conhecimento apropriado para pintar uma mandala. Mesmo quando se est? apto para pintar, ainda ? feito uma medita??o de tr?s dias antes que se d? as primeiras pinceladas.

(leia toda a explica??o aqui)

As mandalas tradicionais s?o feitas de areia. Sua fragilidade e delicadeza simbolizam a imperman?ncia da vida.

Aqui, todo o processo de confec??o de uma mandala tradicional. Espetacular.

Você já ouviu Bach? Talvez já tenha ouvido sua Tocata e Fuga em ré menor, obra célebre para órgão do músico de Eisenach, freqüentemente usada para dar um ar sombrio a reportagens de TV. E Beethoven? Todos conhecem os compassos iniciais de sua Quinta Sinfonia, que, conforme alguns críticos, é o “destino batendo à porta”. Há também Vivaldi e As Quatro Estações e Mozart e sua Pequena Serenata Noturna, que já foram usadas para vender sabonetes. E quando se quer dar um tom apoteótico a algo, é inevitável recorrer a “O Fortuna”, da obra Carmina Burana, de Carl Orff — que não deve ser confundido com Offenbach, do can-can. Mendelsson sempre aparece em casamentos, às vezes substituído por Sir Edward Elgar, presença constante onde se queira pompa e circunstância.

Alguns destes músicos viveram há mais de 300 anos. Suas obras permaneceram, resistiram a épocas em que não havia aparelhos sonoros, CDs, MP3 ou qualquer tipo de tecnologia que permitisse registrar as execuções de concertos, sinfonias e corais. Tudo que havia era o papel das partituras e a dedicação de músicos e compositores à arte. Fazer música, naquela época, era algo muito diferente do que é hoje.

É verdade que a vida de alguns compositores foi amaldiçoada pela privação, pelo isolamento e pela doença e que muitos deles permanecem desconhecidos mesmo para aqueles que realmente se interessam por música — como Karl Kohaut, Dietrich Buxtehude ou Filippo Gragnani. Mozart morreu doente e foi enterrado em vala comum. Schumann morreu louco, internado num sanatório para doentes mentais. Poucos, como Liszt, experimentaram um sucesso semelhante ao dos popstars. A maioria levava vida simples e comum, como Bach, que era mestre-de-capela, pai de uma família numerosa e responsável, durante muitos anos, por compor a cantata que enriqueceria o sermão de cada domingo.

A música mudou muito desde então. Os artistas também. A mudança mais importante veio com a tecnologia — não me refiro ao Kraftwerk, a Sergio Mendes ou a qualquer exemplar da música eletrônica. A partir do momento em que se tornou possível colocar uma sinfonia de Beethoven inteira em um disco, a música tornou-se um objeto, como os sapatos, os livros ou os relógios. E com essa transformação veio o comércio. Embora o manuscrito da Nona Sinfonia de Beethoven tenha sido arrematado há poucos anos por US$3,47 milhões, um CD com essa obra pode ser encontrado por cerca de R$20.

Somente a literatura padece de uma condição semelhante à da música. No caso destas duas belas-artes, o meio e a mensagem não têm relação obrigatória e necessária. A música não muda essencialmente se ouvida numa sala de concerto ou no seu quarto, num prosaico toca-discos ou num modernoso iPod. A literatura não varia se a encontramos nas páginas de uma edição luxuosa de Cosac&Naify, nas letras luminosas de um PDF ou manuscrita numa carta.

A facilidade com que hoje se reproduzem a música e a literatura é uma das causas — não a principal, decerto — do sucesso e da banalização que estas duas artes experimentam atualmente. Trata-se, sem dúvida, de uma faca de dois gumes: uma arte cuja essência e valor independem do veículo utilizado propicia mais liberdade ao artista, que se verá dispensado de resolver questões materiais que farão sua obra chegar aos leitores ou aos ouvintes (consumidores?).

O que custou US$3,47 milhões de dólares não foi a Nona Sinfonia, mas o manuscrito da Nona Sinfonia, feito pelo próprio compositor. A sinfonia em si não pode ser comprada. Essa ‘pureza’, claro, tem um preço. O preço é receber o nome genérico de música, que se aplica em igual medida e proporção a exemplares menos dignos de recebê-lo. Com os livros também acontece isso: a coleção Sabrina, disponível em qualquer banca de revistas, é literatura tanto quanto Hamlet, de William Shakespeare.

O bom apreciador de arte sabe que não estou comparando coisas incomparáveis, assim como sabe que o cinzeiro de argila que ele fez na pré-escola (à época em que ainda não era politicamente incorreto ensinar criancinhas a fazer esse tipo de artesanato) é diferente do Davi de Michelangelo.

Que fique claro, diante disso, que gosto se discute, assim como todas as obras de arte, passíveis de discussão — se elas serão conclusivas ou não, é outra história. Há, de um lado, a arte perene, feita para permanecer, feita com sentimento, alheias ao tempo e ao olhar inquisidor dos críticos. Há, de outro lado, a arte efêmera, que desde seus primeiros esboços diz amém ao consumidor e aos críticos, que se baseia nas tendências mais recentes e que é, como sempre deverá ser, um símbolo da miséria e da subserviência da capacidade artística de um indivíduo. Diante de uma obra de arte, é bastante fácil perceber se o artista está do lado da arte perene ou da arte efêmera. Diante de si mesmo — como apreciador, ouvinte, leitor, observador ou consumidor — sempre é difícil e necessário perguntar-se: de que lado você está?

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