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O problema não está no apego, mas no apego às coisas erradas. Ligamo-nos às coisas que mudam constantemente e isso nos faz mudar também e nos torna cegos para as leis eternas. Se pensarmos estritamente, o apego permite a continuidade da vida.
Não é uma grande ajuda jogar todas nossas roupas fora, amanhã elas ainda serão necessárias. Vivemos e temos fé na vida, nos valores morais, no maior valor do bem sobre o mal porque acreditamos na existência do futuro. Mas ter fé na vida é uma coisa, ter fé na vida porque estamos usando Armani é outra coisa. Não confunda unda com…
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Filosofias orientais insistem no tema da dissolução do ego e algumas até o aproveitam para causar uma embriaguez que de fato trará essa dissolução — como quando oramos ou entoamos um mantra até um ponto em que não reconhecemos mais nossa própria voz, embora ela ainda esteja ali, orando ou entoando o mantra. Mas o que me permite viver é saber que não sou aquilo que não sou. Eu digo algo que você não diz, sinto dores ou prazeres que você não sente. Assim, de que forma é possível dissolver o ego e por que isso é importante?
A maioria das pessoas se satisfaz sendo o que é. As pessoas não querem ter aquele corpo ou ser aquele sujeito rico; as pessoas querem ter aquele corpo ou ser ricas como aquele sujeito e continuar sendo exatamente aquilo que são. O sujeito quer melhorar sua vida, mas não quer deixar de ser o asno que faz brincadeiras de mau gosto com os colegas no trabalho — «eu não vou mudar por causa deles». Não há a menor percepção de que há princípios de vida subjacentes a uma vida rica ou saudável (ou simplesmente melhor).
A chave da mudança consiste em encarar sinceramente os princípios que o tornaram aquilo que você é.

Eu gosto de historinhas zen. Até disponibilizei um ebook com uma boa coletânea aqui em meu site. O problema é que muitas dessas histórias não fazem sentido ou, quando não fazer sentido é o objetivo expresso da história (originando assim um koan), ela já está resolvida de tão conhecida que é. Há o problema do deslocamento, da quantidade de poeira acumulada sobre essas histórias, do preconceito, dos clichês.
Muitas dessas histórias tornaram-se exatamente aquilo que pretendiam criticar ou evitar. Cristais bonitos, mas com pouca utilidade — a não ser que o indivíduo tenha aprendido antes da leitura aquilo que a história pretende ensinar.
Eu penso com freqüência em finais alternativos para histórias conhecidas na tradição zen. E vejo, aos poucos, que esse exercício tem alguma relação com aquilo que o conjunto dessas histórias pretende ensinar. A idéia é precisamente transcender aquilo que já foi dito — não porque inovar é bacana, mas porque é interessante exercitar aquilo que achamos que aprendemos.
Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas.
Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.
O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:
«Está muito cheio. Não cabe mais chá!»
«Como esta xícara,» Nan-in disse, «você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe…»
Antes que o mestre pudesse terminar a frase, o professor pegou a xícara e a lançou no chão, que ficou coberto de chá e cacos de louça rústica. O mestre sorriu suavemente.

Existe a idéia solidificada de que todas as ações afirmam algo — e que elas devem afirmar algo. É possível não afirmar nada? Talvez não seja. A respiração é a reafirmação constante da própria vida e do desejo de viver. Atenhamo-nos então às afirmações mais essenciais, mais elementares, mais necessárias.
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A lição definitiva do exercício de conscientização é dissolver a consciência, porque conscientizar-se profundamente significa perceber que não há o que perceber, que não há o agente e o objeto da percepção. Perguntar sobre métodos para tornar-se mais consciente é a reação mental típica, a armadilha de Jñana, que em muitos casos conduz ao fracasso. Sua utilidade está em cansar a mente a um ponto tal que ela pare de fazer perguntas, pare de querer saber, pare de tentar controlar e perceba verdadeiramente.
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A razão nos coloca nesta ou naquela direção e há diferenças entre lançar-se de um penhasco e caminhar com segurança numa praça. Naquilo que é elementar é bom dar ouvidos ao que a razão diz — débil e claudicante, mas nos economiza o tempo de reinventar rodas. Mas e depois? Como se escolhe uma direção quando se está parado em silêncio e repouso? Como e por que escolher uma direção quando não há bifurcações ou quando elas só existem na mente?

Retornarei depois do feriado, período em que dedicarei meu tempo à minha menina e à conclusão de meu mestrado — sobre isto, falarei no momento certo.
Por hora, tentem responder as questões abaixo, cujo cerne talvez seja objeto de posts futuros.
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A fome ou a sede predispõem o indivíduo à eliminação da fome e da sede. Não existem indivíduos mais dispostos a receber água e comida do que o faminto e o sedento.
A ignorância, no entanto, não torna o indivíduo mais permeável à sabedoria; ela nem ao menos o leva a querer saber aquilo que ele não sabe. De um modo geral as pessoas se satisfazem com o pouco que sabem e o muito que ignoram; algumas chegam ao cúmulo de sentir orgulho dessa estreiteza. Em outras palavras: as pessoas que mais precisam de sabedoria, de inteligência e de conhecimento são aquelas que mais facilmente dispensam estas coisas. Estas pessoas não sabem que não sabem, não sabem que precisam saber e acreditam que já sabem tudo.
Vêm daí duas perguntas:
— Por que as pessoas são assim?
— É possível compartilhar conhecimento sem ser vítima do orgulho que as pessoas têm da própria ignorância?
(É claro que sei que parte dessas ponderações inclui a presunção de que o conhecimento é necessário para outrem, o que é algo bem parecido com ir à TV e dizer que você precisa de um novo secador de cabelos. Seja como for, eu aceito ser chamado de presunçoso desde que o leitor se disponha a demonstrar que o conhecimento pode não ser um bem necessário)

O que é bom e o que não é bom — será que é tão difícil distinguir essas coisas, tão difícil que o indivíduo sente-se à vontade para declarar confusão em defesa própria?
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A perspectiva da própria insignificância, da morte e da extinção absoluta — todas as coisas que reduzem a condição humana àquilo que ela é ou àquilo que é seu destino podem ser superadas com ações que melhorem o mundo substancialmente, que tornem pessoas, ambientes, processos e coisas melhores.
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A presunção da qualidade não dispensa o indivíduo do exame constante da universalidade dessa presunção. Obviamente, esse exame começa dentro de si, não lá fora, no quintal alheio.
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Stricto sensu, a inexistência da maioria das pessoas poderia tornar o mundo melhor — ambientalistas, principalmente, têm argumentos bem elaborados a respeito disso e a noção de utilidade não abençoa todos igualmente. Mas não existe mundo em sentido estrito — aliás, existe algo em sentido estrito? Idéias revolucionárias erram com freqüência, e erram não apenas nas conclusões, mas nos pressupostos e sobretudo na facilidade com que tomam o mundo de uma forma rasa, como se os frutos da razão antecedessem a realidade.
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O mundo só pode ser encarado seriamente da forma como ele é — em sentido amplo, subjetivo, pessoal. Entendê-lo exige intimidade e isso não é possível a quem alimenta nojos e idéias como quem trata de gatinhos recém-nascidos.
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Em teoria, nada existe, nada basta, nada é suficientemente bom. Você pode ficar o resto da vida discutindo, se quiser, mesmo que esteja sozinho, e isso não lhe dará nenhuma garantia de que ao final você estará dois centímetros mais próximo da Verdade do que estava quando se tornou ranheta.
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A buddhist walks up to a hot dog stand and says to the guy: “Make me one with everything”.
A anedota prossegue, mas só faz sentido em inglês mesmo:
The guy makes the hot dog, and gives it to the buddhist. The buddhist pays with a twenty. The guy turns away, starts to leave.
Buddhist: “Where’s my change?”
Hot dog guy: “Change must come within.”

As coisas são mais simples do que parecem ser.
Releia.
As coisas são mais simples do que parecem ser.
A frase é propositalmente ambígua. “As coisas” pode significar pessoas, emoções, idéias, objetos; pode até significar tudo isso ao mesmo tempo. “Simples” pode referir-se àquela mesma simplicidade do copo d’água quando se tem sede ou pode referir-se à simplicidade de um minueto, que só é simples comparado com o que veio depois, na biografia de um grande compositor. “Parecem” pode referir-se à aparência propriamente dita — texturas, cores, peso etc. — ou ao seu reflexo na retina e na mente, já que ver é interpretar e, portanto, você jamais saberá a diferença entre uma coisa e a outra, a despeito da simplicidade do objeto.
Dito de outra forma, palavras são armadilhas e é tarefa do leitor não tomá-las a sério a ponto de obrigar o escritor a desdobrar-se em explicações sobre elas. Se explicações forem necessárias, toda a graça se perde. Explicar uma idéia é sempre pior do que explicar uma piada. Explicada a piada, perde-se apenas a risada. Explicada a idéia, ela própria se perde porque a explicação toma definitivamente seu lugar.
E assim as coisas deixam de ser simples. E assim você já não sabe mais se eu estava falando de simplicidade ou da arte de manipular palavras.

Na faculdade uma das lições mais interessantes e instigantes que tive foi aquela que falava da importância de elaborar um conceito para o projeto. Você não podia apenas desenhar uma casa. Ela poderia ser linda, interessante, diferente, mas precisava ter um conceito. Não que fosse sempre necessário justificar as opções de projeto, mas, se o professor perguntasse o porquê delas, as piores respostas seriam “não sei” e “porque eu quis”.
Ter uma justificativa razoável revelava que o estudante compreendera o exercício de projeto que lhe foi proposto e possuía um conceito norteando as escolhas e a forma como as diferentes partes do projeto podiam se conectar e se harmonizar num conjunto que, afinal, seria bem sucedido.
Lembro que alguns alunos na ocasião traduziram “conceito” como “coerência” ou “coesão”. O conjunto é coeso quando suas partes se comunicam, isto é, falam o mesmo idioma. Esse idioma comum é precisamente o conceito.

Cresci acostumado à idéia de que o passado era melhor. Eu ouvia com freqüência meus avós dizendo «No meu tempo…» e em seguida eles desancavam o presente e rendiam loas a um tempo acostumado a TVs monocromáticas, carros enormes que poucas pessoas podiam ter, bolos feitos em casa e boa vizinhança. Tudo isso era agradável, é claro. Vou além: tudo isso era melhor, melhor do que as coisas são hoje. Não importa que hoje tenhamos gadgets, internet e melhores indicadores sociais. Tudo era melhor antes.

Valorizamos pouco as coisas que fazemos todos os dias, mas é graças a elas que chegamos até aqui, vivos e com alguma saúde. São simples e triviais, mas é de simplicidade e trivialidade que a vida é feita. Lavar a louça, colocar o lixo para fora, acordar e tomar café pela manhã, dormir à noite, trabalhar, ler, ouvir músicas.
Tomadas individualmente, torna-se difícil encontrar transcendência nessas atividades. Tomadas em conjunto, elas revelam o cumprimento de uma função maior, que ultrapassa a necessidade de ter louça limpa, ganhar dinheiro ou a diversão simples. Essa função é a própria existência. Não vivemos por razões maiores do que a própria vida e, se existe uma missão, ela consiste em mantermo-nos vivos da melhor forma possível, pelo maior tempo possível.

O problema de ser egoísta é que todo o esforço de altruísmo confunde-se com o desejo de parecer bacaninha para as outras pessoas. Ajudá-las com sinceridade não é tão interessante quanto colher os frutos e os aplausos de uma ajuda bem sucedida. E quando a ajuda não funciona, o egoísmo dá lugar a um tipo de camuflagem que preservará algo da imagem de altruísta e de pessoa bacaninha.
E mesmo aqui, falando de coisas desse tipo, não consigo distinguir se faço isso por autocrítica honesta ou pelo desejo de parecer um mestre de lucidez e autoconsciência, ao ponto de poder ver a própria picaretagem, assumi-la e impor-se as devidas penas sem a ajuda de um espelho ou de um juiz.
É tudo egoísmo, afinal.
Se me perguntassem o que é a vida, eu não pensaria em síntese melhor do que as imagens abaixo.

A vida é uma promoção de mentira em que o sujeito acha que está ganhando algo, mas na realidade está pagando por tudo, até por aquilo que crê ser de graça. Você abastece o carro com combustível cuja procedência você desconhece e paga R$6,99 para ganhar um brinde vencido (a foto foi tirada semana retrasada) que custa R$6,99.
Ou

A vida é uma camiseta com ideogramas invertidos. O sujeito que a compra a considera bonita e se admira com as letras chinesas. Mal sabe ele que as letras estão invertidas e não me surpreenderia se ele descobrisse que os dois ideogramas centrais significam “fui enganado” ou “chute-me”. A vida é assim: você carrega no seu corpo uma mensagem que depõe contra você mesmo.
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À minha amada, que teve a presença de registrar essas duas pérolas, muito obrigado e meus beijos de sempre.

Uma das coisas que eu mais gostaria de entender é por que o espírito se curva e se altera sem que nada de fato tenha acontecido. Quando digo “de fato” refiro-me a coisas que podem ser apreendidas com os sentidos, como quando chove e você sente a água no corpo, quando você vê dinheiro em sua carteira ou recebe elogios sinceros ou transpira intensamente depois de correr uma distância que você jamais correra.



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