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rainy day

Gosto muito de dias frios, mas a combinação entre baixas temperaturas e chuva constante e fina acaba com qualquer um que dependa do sol para encontrar algum calor — entendido aqui de todas as formas possíveis. O corpo fica lento, o humor vacila e a mente os acompanha, sem encontrar forças para conseguir assumir o comando de todo o conjunto. Tem sido útil lembrar a máxima yogi que diz que a respiração é a corda que se usa para descer ao poço da mente.

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Insular is no more. Talvez não seja o fim, pois ainda não sei se meus dias longe da ilha são permanentes ou provisórios, mas não há mais sentido em manter um blog que trata de um lugar onde não estou, sobretudo porque, como eu disse aqui, não se trata de um blog de ficção.

Talvez o Insular volte. O blog continuará lá, assim como todos os posts e artigos. Quem sabe um dia eu volte a escrever sobre Ilhabela.

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Arquitetura is no more — para mim, claro. Tenho intenção de escrever longamente sobre isso noutro momento, inclusive como forma de compreender o que houve. O fato, falando mais brevemente, é que decidi deixar a arquitetura de lado, encerrá-la como parte de um período particular de minha vida, já concluído.

A arquitetura — graduação e mestrado — trouxe pelo menos um efeito colateral positivo, em algum momento no início do segundo ano de faculdade. Esse efeito consistiu em desenvolver a consciência sobre o que meus
professores pensavam, sobre o que me era exigido, sobre o que se esperava de um estudante e de um profissional. Tudo isso ficou muito claro para mim a partir desse momento. Não era nenhum poder extra-sensorial, era apenas a capacidade de saber o que me era exigido e saber o que fazer.

Eu acredito que todos desenvolvam essa consciência em algum momento da vida — geralmente no final da juventude, o que pode coincidir com os anos de faculdade. O problema é que a maioria finge que não possui essa consciência. O sujeito sabe que o rei está nu, mas prefere elogiar o traje do monarca — e assim sua consciência só é usada na manifestação dessa preferência.

Não me vi em condições de denunciar a nudez real, mas em 12 anos como arquiteto também não encontrei condições de me alinhar à massa que elogiava as roupas do rei. Simplesmente saio de cena, confiante de ter feito a escolha certa, aliviado por não ter mais qualquer obrigação de súdito, mas consciente dos riscos a que me exponho — as pessoas toleram muito pouco quem não esteja disposto a alinhar-se com elas.

Pergunte-se e responda sinceramente se o mundo precisa de arquitetos. Eu fiz essa pergunta e decidi estudar a tradição do yoga.

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Educação é um troço muito chato. Falo da educação tal como é discutida em mesas redondas na TV, em programas políticos, em jornais e artigos. O problema é encarar a educação como aquilo que acontece em escolas, diante de um professor.

Logicamente há valor nesse formato de ensino, mas não há evidências de que as aulas de citologia e de termodinâmica que tive no colegial serviram ou servirão para alguma coisa. Pura perda de tempo — esteja à vontade para provar que não é.

Minhas parcas experiências com outras formas de ensino em áreas incomuns do conhecimento demonstram que boa parte da essência e do sucesso do ensino está na relação entre professor e aluno. Pessoas são muito mais importantes para o ensino do que costumamos acreditar. Gasta-se muito tempo e muito dinheiro com livros ruins e métodos capengas e pouco tempo e suor olhando a pessoa que ensina e a pessoa que aprende.

Não sugiro nada além de buscar saber como funciona a rotina de estudos num dojo tradicional (seja ele de zendo, de artes marciais, de uma arte tradicional japonesa) e por que o ensino nesses moldes costuma ser bem-sucedido. “É pequeno”, dirão alguns, aludindo ao fato de que as melhores escolas são aquelas com poucos alunos e que, afinal, artes como o chado não são para qualquer aluno. Mas quem disse que o ensino convencional é para qualquer um? Quem disse que ele deve ser para qualquer um?

Talvez esteja aí o erro crasso dos métodos, ações e políticas modernas: a massificação do estudo, a idéia de que o estudo é uma obrigação universal — tanto para quem deve oferecê-lo como para quem supostamente se beneficia com ele. É realmente ruim que o filho de um alfaiate decida largar os estudos para dedicar-se ao ofício do pai? Não é maravilhoso que uma pessoa decida assumir a responsabilidade pela própria vida dessa forma? O que é mais necessário para um país, pessoas educadas ou pessoas responsáveis?

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Não morri, não fui preso (meu avô sempre perguntava se eu havia sido preso quando ficava muito tempo sem visitá-lo), não estou morando num mosteiro. Apenas mudei de cidade. Estou passando um tempo — semanas, meses, anos ou a vida toda, ainda não sei — longe de minha cidade, praticando e estudando yoga.

Uma das conseqüências do estudo de uma disciplina espiritual é o distanciamento da rotina anterior, supostamente não-espiritual. Isto explica minha ausência. E também explica meu crescente desinteresse por todas as coisas que não tenham relação com a disciplina em que me coloquei. Não se trata de empáfia, como ocorre com freqüência com os iniciados, mas de comedimento, moderação ou, como se costuma dizer, de freio na língua. Trata-se de não abrir a boca sobre assuntos desconhecidos, porque o estudo mostra nosso desconhecimento e os riscos de apostar na própria erudição. Você vê adiante a longa trilha que tem a percorrer e sabe que falar é perda de tempo, é desvio, é estupidez. E por isso se cala e volta-se para sua disciplina.

Por isso a ausência e o silêncio.

Entretanto, como é sensato não deixar este site desvanecer, eis alguns tópicos que têm me acompanhado estes últimos dias.

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Yoga

Aquilo que usualmente se chama yoga é na verdade um ramo do yoga: o hatha yoga, que em grande parte limita-se à prática de asanas (lê-se «áçanas») e à preparação do corpo para a meditação. Uma das descobertas mais interessantes nestes meus primeiros dias como estudante de yoga está relacionada à insuficiência da prática física — ou à sua natureza transcendental. Contorcer-se é bom, mas não é o bastante. A prática de asanas melhora a saúde, reforça os músculos, previne problemas articulares, torna a postura mais bonita e equilibrada, beneficia a respiração, a circulação e a condição física geral do indivíduo. Mas lapidar o espírito é outra coisa. O praticante pode tornar-se um paspalho narcisista ao perceber os primeiros resultados da prática dos asanas e permanecer assim indefinidamente.

Outro problema, não menos sério, é que o praticante também pode tornar-se um paspalho narcisista ao perceber os primeiros resultados do yoga sobre o espírito. A ascese genuína não dá espaço para efeitos colaterais desse tipo; saber identificá-la e distingui-la é parte do treinamento do yogi.

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Leituras

    O modo como a cultura torna os seus filhos sociáveis é lhes ensinando a confiar primeiramente nos julgamentos que estão fora deles mesmos. Para socializar uma criança você precisa inspirar nela somente três princípios: aceitar a informação vinda de fora, buscar as recompensas exteriores e ignorar a voz interior, caso ela conflite com o que vem de uma autoridade externa. Essa é a maneira de treinar uma criança para que ela seja membro de uma sociedade. Por isso, quando a mãe diz «faça isso», você faz, mesmo que sinta em seu coração que não é o certo. Se você se sair bem agindo dessa forma, será bem-sucedido na sociedade; caso contrário, será um proscrito.

    Quando dizemos «confie na sua intuição», quando passamos a encorajar isso, estamos revertendo o processo. Quando despertamos, começamos a agir de dentro para fora, e não de fora para dentro — e essa é a transformação que realmente buscamos. Ela conduz a um comportamento baseado não no auto-interesse esclarecido, mas nos mecanismos de um coração desperto.

Trecho de Caminhos para Deus — Ensinamentos do Bhagavad Gita, de Ram Dass.

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Opera 10

O melhor navegador da atualidade ainda está em fase beta, mas traz inovações que podem tirá-lo do injusto ostracismo em que se encontra (não à toa, o Opera é injustamente conhecido como «o melhor navegador que ninguém usa»). Além da tradicional velocidade e grande quantidade de recursos, a atual versão do Opera traz o serviço Opera Unite, um novo conceito de compartilhamento de dados.

Com o Opera Unite o PC se torna um servidor com a capacidade de compartilhar arquivos, imagens, músicas. Sem novidades, você dirá, porque diversos programas fazem isso — como os programas de torrent e de compartilhamento P2P. A diferença é estes programas fazem todas essas coisas separadamente. O Opera Unite reúne todas as funções de compartilhamento de arquivos (e várias outras funções) no navegador, tornando-as mais fáceis e rápidas de utilizar, sem necessidade de uploads, sem necessidade de add-ons ou plugins.

Saiba mais aqui.

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O triunfo do indivíduo

Acho que encontrei resposta para uma dúvida antiga e freqüente (freqüente, sim, eu estou me lichando para a súcia ortográfica): num mundo cada vez mais desorganizado e sobrecarregado com informações contraditórias ou falsas, como encontrar equilíbrio, paz de espírito e, mais importante, como encontrar a Verdade?

A resposta está no indivíduo. Sua consciência é naturalmente capaz de testemunhar a realidade e interpretá-la e distinguir o real do irreal, a verdade da mentira, a ordem do caos. O filósofo Olavo de Carvalho expressa essa idéia de forma brilhante na frase que apresenta seu site: «Somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer.»

Perco-me com freqüência no excesso de notícias, de escritos, de idéias, de discussões. Encontro-me quando deixo estas coisas de lado e busco o indivíduo (ou os indivíduos) por trás de tudo — minha própria consciência e a consciência de quem transmite a informação. Ocorre então uma identificação semelhante àquela cumplicidade que ocorre entre autor e leitor (nos bons livros). Vejo a pessoa que se manifesta, que escreve, que diz algo, que realiza estas ou aquelas ações. E a confusão se desfaz: a pessoa manifesta claramente tudo aquilo que supostamente permanece invisível ou intocável, ela completa as lacunas eventualmente esquecidas.

Não são idéias, não são notícias, não são discussões — são indivíduos. Boa parte dos problemas deste mundo está na facilidade de ignorar as pessoas e tomá-las por aquilo que nunca serão — qualquer coisa, menos gente.

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smoking

– As coisas andam lentas por aqui porque eu estou numa fase mais visual. Não costumo misturar imagens com pensamentos — é como misturar fermentado com destilado –, mas talvez eu me arrisque em breve e tente transmitir aqui parte do que me veio à mente quando saí de bicicleta para fotografar.

– Minha avó fez 80 anos neste 8 de abril. Ariana, monossilábica e digna da vida longa que tem. Ela já não faz mais os bolos que adoçavam os domingos meus e de meus primos, mas segue como símbolo de muitas outras coisas boas. Que Deus a abençoe.

Páscoa é renascimento. Há data mais feliz e auspiciosa do que esta? Que todos celebrem com suas famílias e sejam igualmente abençoados com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo.

– Poucas coisas são tão importantes quanto o bom coração. É virtude rara não ver o mal ao observar as ações de outrem. Você vê um motorista dirigindo perigosamente e sabe que pode imaginar que ele tem uma boa razão para ter pressa — e deseja, com sinceridade, que ele chegue salvo e em plenas condições de se refazer da perturbação em que se encontrava. Imaginar e desejar o mal é fácil; reconhecer o bem onde quer que haja chances dele existir, por menores que sejam, é difícil e necessário. Não há receita; há prática constante. Ter bom coração filosófica, intelectual e espiritualmente falando assemelha-se a tê-lo em termos fisiológicos — cuidado, atenção, exercício e nutrição.

A revista Claudia mergulhou definitivamente no lodaçal do aborto. Entre os sofismas aos quais a extensa matéria apela está a idéia de que a legalização do aborto é sinal de progresso e de que ser contra é sinal de medievalismo — assim, simplesmente, na cara dura mesmo; há até infográficos. Defender a vida não é algo que dependa do tempo, do lugar, da cultura; não há momento inadequado para defender a vida, não há cultura em que a morte de um ser humano inocente seja moralmente defensável e desejada. Só no mundinho satânico dos abortistas é possível lutar com todas as forças pelo direito de acabar com vidas inocentes e regozijar-se com isso. É a crueldade em seu estado mais puro. Aliás, quem quiser descer o porrete na revista Claudia, use este link.

– Só eu tenho nojo do racismo do presidente? Num país decente todo racismo é repudiado. Num país indecente, depende do matiz. Alguém pede explicações, mas não processa.

Deputados paulistas aprovaram lei antifumo que proíbe até os fumódromos. O cerco aos fumantes deixou as coisas assim: o único espaço fechado em que você pode fumar é a sua casa (permite-se o fumo em tabacarias, mas onde há uma? a mais próxima da minha casa fica a uns 250km daqui). Eu não gosto de cigarros, mas gosto menos ainda de quem queira interferir na liberdade de estabelecimentos comerciais — eles que se entendam com seus clientes e os deputados que procurem algo mais importante para fazer. O crime e o trânsito matam muito mais e cadê esse pessoal pago com dinheiro público fazendo algo?

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fluxograma-da-qualidade1
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A imagem acima é um genial fluxograma para resolver problemas. Quando os meios ortodoxos não funcionarem e quando o Chapolin não aparecer, talvez isso possa ajudá-lo. (obrigado à Tamara, meu amor, sempre atenta ao meu interesse por coisas das quais só eu morro de rir)

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Compre já o sensacional Kit Left-Revolution.

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Uma campanha discreta que vale a pena: militância wireless.

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Aprenda a cair (e levantar) com o Aikido. Um vídeo mais, digamos, heterodoxo, você encontra aqui.

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“Toda compreensão de fatos políticos, sociais, culturais, psicológicos e econômicos tem como pressuposto o enquadramento imaginativo da situação. Só sobre essa base é possível o trabalho crítico da inteligência. O raciocínio mais exato do mundo, exercido sobre uma base imaginativa estreita, deformada ou doente, só pode levar a erros terrivelmente persuasivos.” — o restante deste texto você lê aqui.

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Eu realmente tenho tido pouco tempo e disposição para atualizações. Tenho coisas anotadas no caderno, mas elas ficarão de molho um pouco mais, enquanto sigo com o mestrado.

Considerem este post um passatempo e um lembrete de que há algumas centenas de posts à disposição neste Gropius neste site.

Quer ler um livro? Quer mudar o papel de parede de seu PC? Quer filosofia? Quer atualidade? Quer transpirar um pouco e alongar o corpo? Arte? Música? Downloads? Tem de tudo aqui, basta procurar. Sejam bem-vindos.

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cebolinha passatempo

Ligação é a palavra portuguesa (lusa) para link. Você escolhe.

Este post é só de links, porque tenho algumas coisas urgentes para concluir e a areia continua descendo impassível pela ampulheta. Problema meu.

Calvin, Haroldo e a tábua de Ouija. Não podia ser diferente…

Levni Yilmaz ensina a terminar um relacionamento (YouTube). Animação tosca, mas verdadeira.

Os melhores momentos de Sensei Shioda (ever), mostrando por que é tão divertido treinar Aikido (YouTube).

PQP Bach e o fim da alta fidelidade, em artigo de Robert Levine. E você ainda acha que seu iPod é grande coisa?

Sylvester Stallone num filme de Woody Allen?

Como transformar um país num livre mercado em 30 dias, por Llew Rockwell. Eu tropeçaria de alegria se visse o Brasil adotando um (unzinho que fosse) destes 30 itens. E se você é daqueles que pensou «Livre mercado?!? Fala sério…», você merece algo como Cuba, Coréia do Norte ou Venezuela. Pense em emigrar.

Artigo de Albert Jay Nock, escrito em 1936, sobre o profeta Isaías e a questão das massas (o povo, o populacho, a gentalha, a turba). Um trecho: «Se você é um educador, digamos que no comando de uma faculdade, quer acumular o máximo de alunos possível, e faz os cortes necessários nos requisitos mínimos. Se um escritor, deseja conseguir muitos leitores; se um editor, muitos compradores; se um filósofo, muitos discípulos; se um reformador, muitos convertidos; se um músico, muitos ouvintes; e assim por diante. Mas como podemos observar por todos os lados, na realização destes vários desejos, a mensagem profética é tão pesadamente adulterada com trivialidades em todos os níveis, que seu efeito sobre as massas é simplesmente fortalecê-las em seus pecados.» (meus agradecimentos à leitora Rosângela pela dica valiosa)

Original da imagem aqui.

tropa de elite

Primeiramente, meus agradecimentos a quem acompanha este site mesmo quando eu próprio não estou aqui.

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Vi Tropa de Elite. No cinema. Não era o filme ideal para celebrar mais um aniversário de namoro, mas felizmente minha mulher também gostou do que viu.

A tese central do filme, como já disseram por aí (o link me escapa), é a idéia de que quem consome drogas financia o tráfico — e toda a porcariada que vem de série.

Eu destacaria uma outra tese, não menos importante, que me ocorre quando lembro de Cidade de Deus (a comparação deve proceder por uma série de razões, cinematográficas ou não): o estado em que se encontram o Rio de Janeiro em particular e o Brasil em geral tem solução. Se em Cidade de Deus as causas eram distantes e complexas demais e o presente era mera repetição, em Tropa de Elite não há complexidade, tampouco distância: as coisas acontecem aqui e agora e não há dúvidas ou ambigüidades. O que se quis dizer com “choque de realidade” — clichê que não ajuda em nada — é que o filme não se enche de dedos ao fazer referência ao que de fato acontece (v. jornais, v. a rua lá fora).

E por isso, sinceramente, espero que Tropa de Elite seja um começo.

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Atendendo à corrente proposta pela Anna e pelo Diogo:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
For Esmé – with Love and Squalor. Havia meses que estava na mesa, coberto por notinhas do tipo post-it. Ainda não o li inteiramente. Leio devagar pacas em inglês e ainda não lido bem com o remorso de adiar as leituras do mestrado.

2ª) Abrir na página 161;
Feito.

3ª) Procurar a 5ª frase completa;
Quase lá.

4ª) Postar essa frase em seu blog;
Eis: “Ridgefield and Miss Kramer did many things to me, but they didn’t come at all close to amusing me.”

5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
Certamente não é a melhor frase do livro.

6ª) Repassar para outros 5 blogs.
Eu ainda não saquei o ponto (encontrei duas ou três explicações que parecem fazer algum sentido), mas passo a bola para o Saboya, a Maya, o Glauber, o Raphael e o Gilvan.

- É possível que este site fique chato daqui para frente. Eu decidi me dedicar ao Cristianismo. Não sei quando nem como, apenas sei que isso acontecerá. Voltei de minha viagem com uma edição de bolso do Novo Testamento e com Confissões, de Santo Agostinho, e por enquanto estudo estes dois livros. Muitas pessoas consideram o o Cristianismo chato porque você não pode ser cristão e ligar seriamente para a qualidade da pasta, para o que um petista diz ou para a última rodada do brasileirão. Em outras palavras, é possível que as coisas aqui fiquem chatas não porque esses assuntos menores desaparacerão, mas porque talvez eu não consiga mentir ao tentar dar a eles uma atenção que eles não merecem.

- Aliás, eu começo a entender os críticos da Bíblia — o que está longe de justificar-lhes alguma coisa; esta iniciativa tem que vir deles. O problema, todo ele, é que essas pessoas lêem a Bíblia e imaginam a complexa estrutura da Igreja diante delas: igrejas, padres e pastores, bispos, hóstias, batinas, cânticos e corais, hierarquias, missas, sermões etc. Estas coisas se baseiam na Bíblia, não o contrário. Além disso, as lições ali contidas são simples e, embora possam ser encaradas como algo gigantesco demais para uma simples ovelha, são coisas que o Pai diz para o filho. E assim elas devem ser recebidas: como dizem os zen-budistas, de “xícara vazia”. Pense nos grupos, nas seitas e nos templos se você sentir uma necessidade muito grande de se sociabilizar. Até lá, estude. Depois disso, continue estudando. Se você é um ateu incurável, ao menos siga o conselho de Pascal: conheça aquilo que pretende criticar ou negar.

- Nesta semana que fiquei distante de casa, vi — juro que vi — pixado num muro do Butantã: “Fuck USA”. Oh, yes. Noutras palavras: “eu uso o idioma daquele país, reproduzo o tipo de rebeldia típico de grupos nova-iorquinos, uso tintas e grafias em formatos inventados por norte-americanos e eu provavelmente uso os tênis daquela marca norte-americana, mas, enfim, fuck USA“. Porca miséria.

- Estive no cinema duas vezes, com minha namorada. Na primeira vimos A vida secreta das palavras, um dos filmes mais tristes e sutis dos últimos tempos. Depois vimos Lady Vingança, que é cruel e sanguinolento. Os dois merecem ser vistos. Mas não no mesmo dia, como eu e minha namorada fizemos. Filme bom é para saborear.

- Meu irmão me presenteou com a obra completa de J.S. Bach. São ao todo cinco DVDs com arquivos em MP3. Ele conseguiu os arquivos num desses programas P2P (tipo Kazaa, eMule etc.). Olavo de Carvalho disse uma vez que toda a música popular brasileira não chega aos pés de um compasso de qualquer obra de Bach. E é claro que ele não estava exagerando.

- Vi numa revista uma retrospectiva de Oscar Niemeyer. O arquiteto completa o centenário este ano — ainda vivo e ativo, isto é, falando bobagens e fazendo a mesma arquitetura que fazia antes de Brasília. A julgar pela idade, pela panfletagem pró-comunismo (suficientemente imbecil para fazer totalmente grátis um projeto de um monumento ao chavismo) e pela persistência nas esculturas inventadas seis décadas atrás, conclui-se que Niemeyer parou no tempo. Eis a receita para a longevidade: aferrar-se a um tempo e só sair dele quando nada nem ninguém lhe der mais qualquer tipo de atenção. Como fóssil vivo, o arquiteto comunista cumpre bem seu papel. Se ele fosse apenas arquiteto, apenas comunista ou apenas ancião, já teria virado pó. E depois dizem que ser conservador não é bom: Niemeyer prova que até quem conserva porcarias acaba sendo bem-sucedido.

- A literatura é uma prova de que a esquizofrenia pode ser rentável e divertida. Talvez não seja esta a justificativa para todos os livros, mas é a causa original de todos os escritores. Somos uns esquizofrênicos. Eu anotei mais algumas coisas a respeito disso; mais adiante talvez eu me estenda a respeito disso. Ou não. Vai saber.

Mais do mesmo — para achar Marcio Thomaz Bastos a última coca-cola do deserto, basta ver quem é o novo ministro da Justiça. Daí eu lembro daquela frase “Nada é tão ruim que não possa piorar”.

Filmes — estive no cinema para ver Borat. A companhia era maravilhosa. O filme era muito fraco. Fez rir em alguns momentos e chegou a divertir, mas perdeu para reprises de Spiderman e de Nikita (a de Besson) que vi na TV dias depois. Não que eu esperasse que fosse diferente, mas o que se espera de um filme inédito é que seu ineditismo seja uma vantagem sobre qualquer reprise. Não foi este o caso.

Internet Explorer x Opera — ontem, acessando meu site num computador antigo (thanks, bro), percebi que ele fica com uma aparência estranha no Internet Explorer 6. Como sei que muitas pessoas ainda usam este navegador, sugiro a atualização para o Internet Explorer 7 ou, melhor ainda, troquem-no pelo Opera — de longe o mais rápido, mais completo e mais seguro navegador que existe.

Moribundo — fiquei de cama durante aproximadamente 36 horas no começo desta semana. É bastante curioso observar o mundo desde a horizontal obrigatória do repouso absoluto. Tudo muda quando você não tem forças sequer para manter-se em pé. Ainda que algumas leituras sejam prazerosas nessas condições, a cabeça não funciona adequadamente. Você pode até querer registrar a leitura, elaborar algum pensamento interessante a respeito disso, mas a impressão que vem é a de que uma energia preciosa (vital, naquela circunstância) será desperdiçada. E esta, entre tantas outras, é a lição que fica: pensar cansa. Não é algo ruim, tampouco deve ser evitado, mas é algo que cansa, que efetivamente consome energias, inclusive físicas.

Salinger — chego à metade de The Catcher in the Rye podendo dizer que este foi o primeiro livro em inglês que li inteiro e com interesse até o fim. (decerto é uma vergonha admitir isso; ter uma cultura limitada a textos publicados em português brasileiro é um desvio mortal em dias de hoje — leia-se “nos últimos 20 anos”). É um bom livro. A escrita é fluida e imbricada, fácil e psicológica ao mesmo tempo. A história pode não interessar a tantas pessoas — não ao ponto de justificar a fama que o livro adquiriu desde seu lançamento, em 1951 –, mas quem tiver interesse, pode baixar o e-book aqui.

Obrigações — eu não poderia ter ficado tantos dias longe de casa sem ter revisto uma lição que considero fundamental: a facilidade com que cada um de nós crê que o universo gira ao seu redor. Não é um egoísmo simples. É um egoísmo somado a doses consideráveis de arrogância e de preguiça. O problema não é espernear exigindo das pessoas aquela atenção que naturalmente nunca virá. O problema é que isso conduz a uma falha mais grave: esquecer das próprias obrigações e das próprias responsabilidades. O sujeito não se limita a cobrar de outrem algo cujo direito não lhe pertence, ele precisa ir além e virar o mundo de cabeça para baixo usando a suposta falta alheia como desculpa para cometer faltas muito mais graves e elementares. Mais ou menos como se o fato de o padre mastigar de boca aberta desse ao coroinha o direito de arrombar a caixinha da igreja e gastar tudo em tóchico a ser consumido durante a missa.

global warming

Desaquecimento mental — A quem interessa o pânico em torno do aquecimento global? Tente responder esta pergunta antes de ler Que fim do mundo é esse?, de Guilherme Fiuza, e Aquecimento global: uma impostura científica, do climatologista francês Marcel Leroux (esta, indicação do sempre atento Anselmo Heidrich). Graças ao tema, na Noruega Al Gore é Madre Teresa.

Big Brother — primeiro foi a hegemonia entre os buscadores. Depois a febre do Orkut e o GMail, que até Abril deve chegar aos 3GB. Na seqüência vieram o Google Maps e Google Earth, Picasa, Google Calendar, Google Analytics, a compra do YouTube e os Ads by Google, que estão em toda parte. Depois, basta misturar tudo isso. Tem gente que esperneia por causa da concorrência desleal de Bill Gates. Eu faço um jóinha para o Windows Vista (e, por razões óbvias, me mantenho longe dele) e penso que se existe de fato algo como uma vida virtual, ela não está no Second Life, mas na Google. Se monopólios são ruins, piores são aqueles que chegam de mansinho, não custam nada e deixam o cliente entorpecido de tão satisfeito. A propósito, o You Tube foi integrado ontem ao Orkut, sem avisos, sem alarde.

Natalie Dessay — por falar em YouTube, se você gosta de ópera, veja a soprano francesa em ação na ária Pâle et Blonde, de “Hamlet”, de Ambroise Thomas. Se você não gosta de ópera, vai começar a gostar ao ouvir o drama e o desespero de Ophélie na voz de Mme. Dessay. De chorar.

PT duas vezes — Chinaglia foi eleito presidente da Câmara dos Deputados e tornou-se com isso o segundo vice-presidente. Não há como escapar do PT — como se isso fizesse alguma diferença.

Eficiência — folheei recentemente um desses livros para empresários (supondo que empresários tenham tempo e disposição para ler algo não-acadêmico que os ensine como gerenciar uma empresa). Falava sobre idéias, como produzi-las no ambiente empresarial e como estimular os funcionários a tê-las. Depois folheei um outro, também sobre empreendedorismo. Havia um outro, divertido, sobre entrevistas para obtenção de um emprego. A tônica, em todos eles, é uma só: eficiência. Eu não admiro esse tipo de literatura, mas ela serve para lembrar de alguns valores inerentes ao capitalismo. O objetivo, é claro, é lucrar, encher as burras de dinheiro. Mas discretamente, misturado ao texto, a palavra eficiência sempre aparece. Eficiência significa que todos ficaram satisfeitos, o que, segundo esses livros, não vale apenas para automóveis e abridores de lata, mas para qualquer coisa que se possa ser objeto de troca, como serviços e informação. Bom. Agora analise o termo à luz dos serviços públicos brasileiros.

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P.S.: Eu abro o G1 e leio a seguinte manchete: Planeta ficará 4 graus mais quente até 2100, o que confirma que Nostradamus ressuscitou e está trabalhando na ONU.

you're a dog
Eu sempre fui muito presunçoso, mas não, este guia não é fruto deste meu desvio de caráter. Apenas compilei, porcamente, as coisas boas que costumo encontrar nos blogs que leio. Claro que há outras formas de construir um bom blog, mas se você não tem a verve de um Soares Silva ou não é politizado e atualizado como o Reinaldo Azevedo, talvez este pequeno, minúsculo, ridículo guia tenha alguma utilidade.

1) Seja pessoal. Isto não significa ter estilo. Ter estilo é a conseqüência de ser pessoal, de ser honesto ao escrever. Os bons blogs têm estilo, sem a afetação daqueles que querem ter estilo. Colocar o estilo antes da personalidade é para os gênios ou para os medíocres. Exceção poderia ser feita aos blogs que apenas reproduzem textos de outros autores (como o Citador, muito bom por sinal), mas mesmo neste caso continua valendo a idéia de que a personalidade (de outrem, ok) precede o estilo.

2) Seja breve. Hoje não existe informática sem multitarefa. Ninguém em pleno gozo de suas faculdades mentais senta-se ao computador para fazer apenas uma coisa de cada vez. Condensar a mensagem não é apenas prova de habilidade para escrever, é também uma gentileza com o leitor, que certamente não irá ler apenas o seu blog cada vez que ligar o PC. E hoje a maioria dos servidores de blogs dispõe daquela opção "clique aqui para continuar a ler este post" se você é daqueles que produzem um épico a cada atualização.

3) Atualize. Atualizar o blog todos os dias é tarefa desumana. Mas deixá-lo às moscas por mais de 30 dias é o primeiro passo para que até a sua família esqueça que ele existe. Mesmo com bons leitores de feeds (como o do Opera; se você não sabe o que é feed, saiba aqui), dá vontade de banir aqueles que mergulham em longo inverno depois de cada atualização.

4) Seja responsável. Além da honestidade (item 1), a responsabilidade pressupõe reflexão e a consideração de que alguém vai ler o que você escreveu e — sim — acreditará no que foi postado. Você pode ser como eu, uma nulidade. Mas alguém irá acreditar no que você diz. Uma, duas ou três pessoas, não faz diferença. Não pega bem, nestas circunstâncias, postar como quem joga milho aos pombos. Há leitores que engolem qualquer coisa, mas é salutar crer no contrário, apostar na inteligência alheia e respeitá-la.

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Um guia mais sério e mais completo pode ser baixado neste saite: Handbook for bloggers and cyber-dissidents. A frase que apresenta o guia cai como uma luva para o Brasil: "Bloggers are often the only real journalists in countries where the mainstream media is censored or under pressure."

Loose, de Nelly Furtado, é chatinho. Em alguns momentos eu me sentia diante do Need for Speed Most Wanted, game para PS2. Noutros, achei que Madonna oitentista havia ressuscitado. Nada com o frescor e a facilidade apraz?vel de “I’m like a bird”. Mas talvez não faça sentido usar esses adjetivos para música popular. Ou talvez fa?a.

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A Coréia do Norte tem a bomba — e mais 48 pa?ses. Enéas, o célere, dizia que era importante o Brasil ter a bomba para ser respeitado, conforme já ensinava John von Neumann e sua Teoria do Jogo, em 1928.

Quando criança eu já refletia — via Maurício de Sousa — sobre a questão fundamental: medo ou respeito?

Conflito de civilizações my ass.

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Eu entendo o Sumo Apedeuta. Entenda você também.

Chegou lá porque o povo quis. Foi colocado num lugar autorizado a preencher por quatro anos. É a autoridade máxima do país. Ele pode falar o que quiser. Responde as perguntas que quiser. Ignora as que incomodam. E ninguém se abala com suas respostas non-sense porque ele é o presidente-operário (pfft), porque ele sempre mente e nenhuma de suas respostas será levada a sério e/ou porque, afinal, entrevistadores não têm tempo suficiente para extrair de chefes de estado declarações que ameaçarão seus mandatos.

“Mas e o mensalão?”.

“Estou convencido de que todo brasileiro poder? fazer tr?s refei??es ao dia. De cabe?a erguida.”

“De onde veio o dinheiro do dossiê?”

“Companheiro, você sabe o que os seus filhos fazem na sua ausência? Nós vamos fazer uma revolução social no Brasil. Vamos gerar 45 milhões de empregos nos próximos dois anos.”

Etcetera ad nauseam.

Nojo.

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Dama na Água. Por que alguém que faz A Vila e Sexto Sentido faz Dama na água — é como Pelé encerrando a carreira no Cosmos. De doer.

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O argumento mais falacioso e abominável a favor do aborto é aquele que diz que a mãe deve ter a liberdade de escolher o destino de sua cria. Oras, se a mulher escolheria o aborto simplesmente porque não quer a criança, já deu provas de que é uma irresponsável ao engravidar sem querer ter um filho. Sendo irresponsável para engravidar, não tem o direito de interromper a gravidez em nome da própria liberdade de escolha.

A vontade humana não é soberana. Ela é influenciada por diversos fatores. A capacidade de julgar é imperfeita. Engravida-se para brincar de casinha. Mata-se também por brincadeira. E se tal critério fosse elevado é condição de regra, teríamos o caos puro, simples e mortífero.

Há algo acima da vontade humana. Se não houvesse, seria justo eu matar uma pessoa simplesmente porque assim o quis. Mas é claro que quem defende o aborto com esses argumentos não está acostumado a olhar para si próprio com o fim de avaliar as próprias teses.

Eu já nem sei por que levo essas discussões adiante. É muita paralaxe cognitiva.

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Os Analectos, II.3: “Guie-o por meio de editos, mantenha-o na linha com punições, e o povo se manterá longe de problemas, mas não será capaz de sentir vergonha. Guie-o pela virtude, mantenha-o na linha com os ritos, e o povo, além de ser capaz de sentir vergonha, reformará a si mesmo.”

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Mushiatsui é palavra japonesa sem tradução no português — que eu saiba; se alguém souber, comments open. O mais próximo ? quente-úmido, exatamente como está agora, aqui.

Aprendi, é claro, a não me queixar sobre o tempo. Se chove, bom para a lavoura — e assim eu como frutas frescas. Se não chove, bom para o turismo — e assim eu me convenço de que preciso me mandar daqui.

Ademais, transpirar é algo bom. Faz você sentir que fez algo útil e desejar um banho e um descanso. Um dos problemas do nosso tempo é o fato de as pessoas se cansarem mais na alma do que no corpo. Então elas querem descansar diante de TVs e deixam o banho para mais tarde. E não transpiram. Não há vida sem suor. Claro que os ônibus lotados não convidam a essa reflexão. Mas para quem não vive em cidades grandes — e eu pertenço a essa zelite — há sempre a excelente opção de dispensá-los.

confuciusOs Analectos — É o nome da principal obra de Confúcio. Ainda estou no começo da leitura, mas percebi uma coisa: é difícil não se sentir fraco diante das palavras do Mestre. A moral é para os fortes. Eu nunca me senti tão fraco. Não há meio-termo nas páginas de Os Analectos. Ou você é um indivíduo moral e age conforme essa moralidade, estuda, segue uma disciplina, assume responsabilidades morais e as compreende ou você não faz nada disso e é imoral, simplesmente imoral. Não há gradações. A existência de gradações significaria conceder a quem não merece concessões, e o indivíduo imoral não busca a perfeição, a virtude e a sabedoria, ele só quer concessões — e, dependendo das circunstâncias, votos.

Aqui, uma coletânea de frases de Confúcio, todas extraídas de Os Analectos.

Eleições 2006 — eu me arrependo de ter convencido algumas pessoas a não votar nulo. Primeiro porque eu mesmo me arrependi de não ter anulado meu voto; me senti estúpido por ter votado em candidatos específicos porque eu disse a mim mesmo que não acreditava na democracia brasileira, e continuo não acreditando. Segundo porque a única forma decente de democracia é aquela que reflete exatamente aquilo que o eleitor pensa. Terceiro porque a democracia brasileira não ajuda em nada o eleitor a pensar. Em outras palavras, eu traí minha consciência ao votar. Sei que se muitos pensarem dessa forma Lula será reeleito, e há também aquele papo de que não se deve colocar o ego acima de uma causa maior (livrar o país do Sumo Apedeuta). Mas dói mais trair a própria consciência do que ter mais quatro anos de bandalheira. Ademais, é sobretudo pela vacuidade mental que a política é o que é e é sempre muito bom que os eleitores sejam chamados a exercitar suas respectivas consciências a cada eleição — aqueles que a têm. Caberia aqui uma discussão sobre o que é mais importante e possível: o exercício consciente do voto ou a condução dos inconscientes na direção do mal menor.

O sentido da vida«O que realmente importa não é o que nós esperamos da vida mas o que a vida espera de nós. Nós precisamos parar de questionar qual o sentido da vida mas, ao contrário, pensar em nós mesmos como sendo questionados pela vida — diariamente e a cada hora. Nosso questionamento deve consistir não em fala e meditação, mas no correto agir e na correta conduta. O sentido final da vida é tomar a responsabilidade de encontrar a resposta correta aos problemas e cumprir as tarefas que são constantemente dadas para cada indivíduo.» (via Budo). Impossível não ver relações entre esta frase de Viktor Frankl e as idéias transmitidas por Confúcio em Os Analectos.

Cinefilia — ao contrário do que meu descontentamento fez parecer, é muito bom passar diante do cinema e constatar que não há nada de interessante para ver. É claro que esta é uma avaliação muito subjetiva. Eu não quis ver Dália Negra, não quis ver O diabo veste Prada, não quis ver Serpentes a bordo, quis menos ainda ver Deu a louca na Chapeuzinho; eu simplesmente não quis porque não li coisas boas sobre esses filmes, não me comovi com os cartazes e os traillers, não estava disposto a encarar salas lotadas (feriados…) para ver filmes de qualidade duvidosa ao lado de gente que acredita que uma sessão de cinema é a melhor ocasião para chutar poltronas, falar alto e tentar controlar crianças indomáveis. Foi assim, longe do cinema, que tive horas agradáveis de conversa, café e leitura; que pude ver as gentes em seu habitat natural; que me dediquei à minha disciplina diária de exercício e meditação; e que, afinal, escolhi filmes numa locadora e os vi no conforto e no silêncio do lar, ao lado de minha esposa e meus irmãos.

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