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Você, morador de Ilhabela que raramente sai do arquipélago ou que, quando sai, raramente vai além de São Sebastião ou Caraguatatuba, deveria assumir o compromisso cívico de deixar a cidade uma ou duas vezes por ano com o objetivo estrito de visitar uma grande cidade, olhá-la com atenção e, pelo contraste, tentar entender o lugar em que vive, vislumbrar virtudes, problemas e perspectivas.
Para mim, as duas cidades que servem de referência para este exercício são Santos e São Paulo. Não vou perder meu tempo falando de São Paulo — os problemas da capital paulista são bem conhecidos, assim como suas poucas virtudes que ainda resistem ao caos de edifícios e automóveis. Costumo dizer que «caos» já não serve mais para definir São Paulo; esta cidade chegou a um nível em que o termo não dá conta do que acontece por lá.
A cidade de Santos merece um olhar mais atento. Read the rest of this entry »

Imagem meramente ilustrativa
Fim.
Depois de três anos no mestrado da FAU-USP, a dissertação foi entregue, avaliada, apresentada e discutida com três professores. Falta apenas pegar o certificado ou diploma — não sei como chamam isso na pós-graduação.
Quem tiver muito, mas muito interesse em saber mais sobre minha dissertação ou até baixá-la e lê-la na íntegra, vá até o Insular. Como muitos notarão, eu a disponibilizei por lá porque toda a pesquisa é sobre a cidade de Ilhabela.

O Canal Aberto publicou recentemente a impressionante constatação do secretário nacional de segurança pública: «A segurança pública brasileira é um desastre». Mais de 40 mil mortes a cada ano não deixam dúvidas disso; os exemplos cada vez mais hediondos são abundantes. No que diz respeito ao desprezo à vida, o Brasil é referência.
Além do atentado rotineiro à vida, crime e violência trazem sérias conseqüências indiretas para a sociedade. Em 2006 a cidade de São Paulo parou por um dia, vítima do clima de medo instalado por boatos e por atentados diretos à Polícia Militar. No Rio de Janeiro, todos os dias uma parte da cidade tem suas atividades interrompidas por tiroteios; comércio, escolas e hospitais são fechados pela ação direta de criminosos. Além disso, o clima de constante guerra civil e o medo associado a essa situação criam campo fértil para outros tipos de violência, uns mais brandos, outros mais severos. A violência urbana esfacela a sociedade e o esfacelamento da sociedade estimula ainda mais a violência urbana.

Câmara Municipal de Jiripoca do Norte em dia de sessão.
Uns dirão que político não vai à praia porque não tem tempo, o que é verdade. O trabalho político costuma ser bem exigente e raramente deixa algum tempo para o lazer. Além disso, alguns eleitores considerariam uma tarde na praia um luxo descabido, um desperdício do tempo precioso do homem público — tempo este que custa caro aos cofres públicos. Eu não penso assim; em muitos casos, uma tarde na praia pode ser uma excelente oportunidade de confrontar-se com certas realidades que ultrapassam os limites de um gabinete.
Uma coisa é ouvir as queixas dos moradores do (fictício) Jardim Sassafrás num gabinete ou nos corredores de uma repartição pública. Outra coisa bem diferente é ir até lá e sentir a catinga do esgoto a céu aberto ou arrebentar o próprio carro em um dos buracos que transformaram as ruas do bairro em trincheiras da Primeira Guerra. Uma coisa é reunir-se com técnicos para discutir soluções para o trânsito. Outra coisa é dar o exemplo, ir ao trabalho de bicicleta todos os dias, com chuva ou sol, e encarar uma ciclovia claudicante, cachorros que se alimentam de canelas, hordas de moleques irresponsáveis apostando corrida e ameaças homicidas de caminhões enferrujados.

Uma das memórias mais vivas que trago da infância era a de meu avô indo de moto de sua casa até o trabalho. Na garupa eu observava, surpreso, o fato dele cumprimentar muitas pessoas em seu caminho. Às vezes um aceno simples, às vezes um sonoro «bom dia» ou um toque na buzina. Em todos os casos o contato se estabelecia e, mesmo breve, era suficiente para registrar o reconhecimento da pessoa que passava. Mesmo sendo um simples comerciante, meu avô era pessoa pública e, na maioria dos casos, as pessoas pelas quais ele passava e a quem acenava e cumprimentava também eram.

Na faculdade, um de meus professores dizia que o Rio de Janeiro era uma cidade muito feia instalada num lugar muito bonito — era e continua sendo. Desconfiei que isso pudesse valer para outras cidades. A partir daí comecei a submeter todas as cidades que eu visitava à frase de meu professor. Este exercício não é simples; você deve olhar um lugar e tentar imaginar como ele seria sem as construções, sem as casas e ruas, até mesmo sem as pessoas. Quando é possível ver esse lugar de um ponto afastado, o exercício fica fácil. Por exemplo, se você observar a cidade de Santos a partir de um de seus morros ou da orla da praia, poderá visualizar a ampla curva da baía e imaginar o manguezal que existia antes que se erguesse aquele mar de prédios. É também este o caso de São Paulo quando vista do pico do Jaraguá ou do edifício Itália. Você visualizará os rios e córregos, os espigões e as curvas da topografia acidentada, alguns morros e, naturalmente, todas as alterações realizadas para que a cidade fosse construída.

Entre os problemas que têm afetado Ilhabela nas últimas três décadas, qual o pior? Criminalidade? Saneamento básico? Crescimento desordenado? O aumento da população? Trânsito? Nenhum destes problemas compara-se com um problema ainda mais antigo e sério. Trata-se daquilo que há de comum em todos os problemas e que está na raiz deles: ignorância. Vejamos.

Encha um copo com água, vá até o quintal de sua casa e derrame o conteúdo no chão. Observe o que acontece com a água. Dependendo do piso, parte da água é absorvida por ele, outra parte escorre e se acumula na parte mais baixa, se houver um desnível significativo; outra parte simplesmente permanece no chão e se evapora em pouco tempo. Se você fizer a mesma experiência com um balde cheio de água, a quantidade de líquido possivelmente será suficiente para escorrer para fora de seu quintal, chegando à rua. Se você fizer a mesma experiência com toda a água usada em sua casa diariamente ou com todo o volume de uma piscina, notará que o líquido escorrerá abundantemente para além de sua rua. Todo líquido naturalmente procurará as partes mais baixas de uma superfície.
A experiência proposta não causa problema algum se feita com água limpa — à parte o desperdício, que não deve se tornar um hábito. Read the rest of this entry »

Esquerdistas acertam ao criticar os excessos de certos representantes do capital — que eles chamam de burgueses —, mas há algo nessa crítica que não é típico das esquerdas: a moral.
Não há nada errado em querer faturar alto, principalmente em épocas em que o dinheiro é escasso e as possibilidades de ganhá-lo são numerosas. Temporada de verão é uma dessas épocas cheias de perspectivas de alto faturamento, principalmente para quem vive do turismo (isto é, 99% da população de Ilhabela). Depois do Carnaval, como todos sabem, virá mais uma temporada de faturamentos mirrados e moscas. Obviamente, a condição para que se possam aproveitar as temporadas de verão é a existência de um mercado livre, onde monopólios, cartéis e concorrências desleais não existem ou pelo menos são evitados.

Se essa imagem pudesse ser cheirada…
A verdade é que esta cidade não produz nada. As pessoas vêm para cá, divertem-se, consomem, produzem lixo e esgoto e vão embora — ou permanecem, para continuar fazendo essas coisas pelo tempo que seu apreço por este lugar perdurar. Tudo se resume a isso. Quase todas as pessoas que aqui vivem dedicam-se a tornar esse processo cada vez mais fácil: quanto mais pessoas vierem, maior será o faturamento, maior será a prosperidade superficial que nada devolve de positivo para o arquipélago. A verdade é que este lugar estaria melhor sem nós, sem o turismo, sem ruas rasgando-lhe o tecido, sem construções que demandam desmatamento, sem o esgoto que polui o solo e as águas, sem ocupações ordenadas ou desordenadas, sem a pressão sobre os limites de áreas preservadas e frágeis.

Nem a super-balsa agüentou o tranco desta vez.
Longe de mim amaldiçoar quem vem para Ilhabela para descansar ou se divertir — todo turista educado é sempre bem-vindo —, mas há pelo menos um lado bom em eventos como o que ocorreu logo após o Réveillon deste ano, quando a suspensão do serviço de balsas causou longas esperas para chegar ao continente.
Como todos sabemos, o problema na travessia surgiu em decorrência de um fenômeno natural. Foi uma coincidência infeliz: ventos fortes obrigaram o serviço de balsas a parar justamente numa das épocas de maior movimento, resultando em filas inacreditáveis e esperas de mais de oito horas. Read the rest of this entry »
Chega o fim do ano e inevitavelmente as pessoas fazem planos e balanços, que incluem uma análise dos meses que passaram, das ações e realizações. Realismo é sempre bem-vindo; não é possível querer já no próximo ano tornar-se o presidente de uma grande corporação se ao longo deste ano você nem sequer concluiu os estudos. As pretensões podem ser grandes, mas tudo tem seu próprio tempo. Entre concluir os estudos e tornar-se presidente de uma grande corporação existem etapas que precisam ser cumpridas necessariamente. O que diferencia o zé ninguém do sujeito bem-sucedido é essa noção de ordem dos fatores, de crescimento progressivo, de dependência daquilo que se realizou antes.




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