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	<title>Christian Rocha</title>
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	<description>quase todo dia uma nova quimera</description>
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		<title>Para quem sofre</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Jan 2012 00:58:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sede? Beba água. Todos os meus sofrimentos sérios terminaram no dia em que passei um longo tempo deitado olhando o teto, digerindo aquilo que eu considerava ser a maior angústia pela qual passei. Naquela época eu tentava encontrar um lugar neste mundo, tornar-me independente e ser bem-sucedido. A história de fracassos e o futuro sem [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2723&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://christianrocha.files.wordpress.com/2012/01/copo-de-agua.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2724" title="Copo de agua" src="http://christianrocha.files.wordpress.com/2012/01/copo-de-agua.jpg?w=490" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:center;"><em>Sede? Beba água.</em></p>
<p style="text-align:left;"><em></em><br />
Todos os meus sofrimentos sérios terminaram no dia em que passei um longo tempo deitado olhando o teto, digerindo aquilo que eu considerava ser a maior angústia pela qual passei.</p>
<p>Naquela época eu tentava encontrar um lugar neste mundo, tornar-me independente e ser bem-sucedido. A história de fracassos e o futuro sem perspectivas pareciam me deixar como única opção um presente absolutamente miserável.</p>
<p>Então algo surgiu. Vamos chamar isto de <em>percepções</em>. <strong>Como estas percepções surgiram é mais importante do que as percepções propriamente ditas.</strong></p>
<p><span id="more-2723"></span>Essas percepções surgiram quando me dei conta da realidade daquele momento. Era absurdamente simples. A história de fracassos é, como o nome diz, uma história. A perspectiva de um futuro é, novamente como o nome diz, uma perspectiva. Como todos sabemos, história e perspectiva são criações mentais, não realidades palpáveis. <strong>Esta foi a primeira percepção.</strong></p>
<p><strong>A segunda percepção</strong> surgiu quando coloquei estas duas criações mentais (história e perspectiva) nos seus devidos lugares. Se são criações mentais, não há motivos para tratá-las como se fossem a realidade palpável e objetiva. Então, tudo que fiz foi deixá-las fora de meu círculo de percepções imediatas.</p>
<p><strong>A terceira percepção</strong> foi sem dúvida a mais importante, mas, claro, sem as duas anteriores eu não a teria obtido. Eu simplesmente observei o que sobrava quando as criações mentais eram colocadas nos lugares certos. O que sobrava?</p>
<p>1) Um corpo com saúde (se você não está preso a uma cama e/ou a aparelhos e não depende de remédios para se manter vivo, você definitivamente tem saúde);<br />
2) Uma mente dotada de clareza e inteligência (se você lê este texto e está conseguindo entendê-lo, você tem estes dois atributos);<br />
3) Segurança e um teto para morar (a não ser que você esteja navegando debaixo da ponte, o que é muitíssimo improvável, é claro que você dispõe de um teto);<br />
4) Três refeições diárias (às vezes quatro, cinco&#8230;);<br />
5) Higiene e roupas em quantidade necessária (você certamente não anda nu e tem condições de tomar banho pelo menos uma vez por dia).</p>
<p>A quarta percepção, embora fosse um tipo de criação mental, referia-se ao fato de que a perda desses cinco itens (ou de um deles) exigiria tempo e algum trabalho. Em outras palavras, eu sabia que era altamente improvável que estes cinco bens pudessem se desfazer no dia seguinte.</p>
<p>Esse conjunto de percepções foi decisivo para que eu pudesse me instalar na realidade.</p>
<p><strong>É claro que isso não foi o fim de todo sofrimento.</strong> Coisas ruins acontecem com razoável freqüência na vida de todo mundo, na minha também. Um ônibus que atrasa, problemas no trabalho, uma comida que não cai bem, desentendimentos ocasionais, chuva fora de hora sem um guarda-chuva à mão. Todas estas coisas continuam acontecendo.</p>
<p><strong>O que mudou, então?</strong> Mudou minha visão de todas essas coisas. O que me colocou no chão de um quarto e me fez choramingar não foi a realidade. A realidade me mostrava alguém com saúde e disposição para fazer e pensar coisas, que tinha onde morar, o que comer e vestir.</p>
<p>Continuei me deparando com ônibus atrasados, com problemas no trabalho, com desentendimentos e chuvas fora de hora, mas o sofrimento que essas coisas proporcionavam tornou-se diferente. Era como se eu não precisasse mais fazer nada para os resolver, como se o fato mesmo de eu tentar resolvê-los fosse um fator de problematização, como se todos os problemas tivessem um ritmo próprio que inevitavelmente os levaria à extinção sem que eu precisasse interferir.</p>
<p>Perceber tudo isso fez com que minhas ações e meus pensamentos mudassem substancialmente. E quando estas coisas mudam, a vida muda &#8212; geralmente para melhor.</p>
<p>***</p>
<p>Observem que eu não estou dizendo que o sofrimento não existe. Estou dizendo apenas que</p>
<p>1) O sofrimento deve ser colocado no lugar certo.<br />
2) A realidade palpável não deve ser colocada no mesmo plano do sofrimento.<br />
3) A visão deve priorizar aquilo que está diante dos olhos.</p>
<p>Em resumo, o que quero dizer é que o sofrimento é sofrimento e a realidade palpável é realidade palpável. Óbvio, não? Para muitas pessoas não é.</p>
<p>Suponhamos que você corte a mão ao descascar um tomate. Há pelo menos duas opções imediatas. A primeira é começar a gritar de dor. A segunda opção é tratar do ferimento. É obviamente impossível manter a gritaria e ao mesmo tempo tratar o ferimento. O que é mais necessário? O que você faz?</p>
<p>Perceba que nesse exemplo você só terá condições de partir para a segunda opção se reconhecer o que realmente está acontecendo. Com isso você perceberá a inutilidade da gritaria histérica e a necessidade de tratar o ferimento o mais rápido possível.</p>
<p><strong>A maioria de nós age não apenas como se a gritaria fosse a opção realmente importante e necessária, mas também como se essa fosse a única opção</strong>. Mas é evidente que esta opção não é importante, nem necessária, muito menos a única.</p>
<p>O problema mais comum é, portanto, a facilidade que a maioria de nós tem para colocar um falso problema no topo de uma lista de prioridades. Isto não significa apenas confundir prioridades e, como no exemplo acima, achar que gritar é mais importante do que fazer um curativo. Isto significa também tornar-se cego para quem você realmente é. Ora, você não é o relacionamento que se desfez, o emprego que perdeu, a nostalgia, a saudade, a carência afetiva, o <em>mimimi </em>sem fim, a baixa auto-estima, a tristeza que você está sentindo neste momento.</p>
<p><strong>Quem você é afinal?</strong> A resposta é óbvia, mas eu não a posso dizer. Se eu fizer isso há a chance de você, mais uma vez, achar que a resposta está fora de você, do mesmo modo que você faz com namorados, carreiras interrompidas, amizades desfeitas, desentendimentos no trabalho ou na família, picuinhas, fofocas e sonhos de consumo frustrados e não realizados. Se você quiser que a sua vida seja isso tudo, é claro que ela será.</p>
<p>***</p>
<p>Nota:</p>
<p>1) Dificilmente você encontrará estas idéias em livros de auto-ajuda, sejam eles modernos ou de origem «tradicional». Por uma razão simples: são idéias deste tipo que fazem com que o indivíduo abandone qualquer ajuda externa, como a que encontramos livros de auto-ajuda. Mas é claro que às vezes os livros ajudam, assim como algumas disciplinas e tradições. Por exemplo:</p>
<p>&#8211; <a href="http://christianrocha.files.wordpress.com/2012/01/930606ua5.gif">Bill Watterson sugere um título: «Cale a boca e pare de choramingar: como fazer algo com sua vida além de pensar em si mesmo».</a> Impagável.</p>
<p>&#8211; <a href="http://advaitayoga.files.wordpress.com/2010/02/eckhart-tolle-o-poder-do-agora.pdf">«O Poder do Agora», livro de Eckhart Tolle</a>, que é um pequeno tratado contemporâneo de Advaita Vedanta disfarçado de best-seller.</p>
<p>&#8211; <a href="http://www.yogailhabela.org/">O hatha yoga tradicional</a>, um dos melhores métodos para autoconhecimento. Minha experiência com o hatha yoga serviu de inspiração para compor este texto.</p>
<br />Filed under: <a href='http://christianrocha.wordpress.com/category/adagio/'>adagio</a> Tagged: <a href='http://christianrocha.wordpress.com/tag/auto-ajuda/'>auto-ajuda</a>, <a href='http://christianrocha.wordpress.com/tag/autoconhecimento/'>autoconhecimento</a>, <a href='http://christianrocha.wordpress.com/tag/eckhart-tolle/'>eckhart tolle</a>, <a href='http://christianrocha.wordpress.com/tag/fim-do-sofrimento/'>fim do sofrimento</a>, <a href='http://christianrocha.wordpress.com/tag/sofrimento/'>sofrimento</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/christianrocha.wordpress.com/2723/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/christianrocha.wordpress.com/2723/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/christianrocha.wordpress.com/2723/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/christianrocha.wordpress.com/2723/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/christianrocha.wordpress.com/2723/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/christianrocha.wordpress.com/2723/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/christianrocha.wordpress.com/2723/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/christianrocha.wordpress.com/2723/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/christianrocha.wordpress.com/2723/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/christianrocha.wordpress.com/2723/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/christianrocha.wordpress.com/2723/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/christianrocha.wordpress.com/2723/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/christianrocha.wordpress.com/2723/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/christianrocha.wordpress.com/2723/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2723&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Realidade for dummies II</title>
		<link>http://christianrocha.wordpress.com/2012/01/14/realidade-for-dummies-ii/</link>
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		<pubDate>Sat, 14 Jan 2012 15:50:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
				<category><![CDATA[aflições]]></category>
		<category><![CDATA[filosofice]]></category>
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		<category><![CDATA[ignorância]]></category>

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		<description><![CDATA[Encontro problemas toda vez que tento discutir um tema com alguém, sobretudo quando a discussão não é iniciada pessoalmente, mas filtrada pelas distâncias da Internet. O principal problema que encontro é a total ausência de noção de como uma discussão deve funcionar. Refiro-me àquela dose mínima de racionalidade para que a discussão não apenas funcione [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2712&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://christianrocha.files.wordpress.com/2012/01/illusion1.jpg"><img src="http://christianrocha.files.wordpress.com/2012/01/illusion1.jpg?w=264&#038;h=300" alt="" title="illusion" width="264" height="300" class="aligncenter size-medium wp-image-2718" /></a></p>
<p>Encontro problemas toda vez que tento discutir um tema com alguém, sobretudo quando a discussão não é iniciada pessoalmente, mas filtrada pelas distâncias da Internet. </p>
<p>O principal problema que encontro é a total ausência de noção de como uma discussão deve funcionar. Refiro-me àquela dose mínima de racionalidade para que a discussão não apenas funcione e renda frutos para as pessoas envolvidas na discussão, mas também para que a discussão mereça este nome. Quando, por exemplo, você expõe um fato ou um argumento e a outra pessoa responde acusando você de grosseria ou arrogância, realmente não se trata de uma discussão, trata-se de um encontro casual entre duas entidades que não pertencem à mesma espécie.</p>
<p>Você mesmo, caro leitor, movido pela leitura de minha última frase acima, poderá pensar que um comentário desse tipo constitui grosseria pura e simples. Para que não pense assim, lembre-se dos atributos que costumam ser usados para definir o que é um ser humano: <span id="more-2712"></span>um ser humano é um indivíduo dotado de razão e capaz de conhecer a realidade. Isto inclui saber perceber as diferenças que há entre dois seres/entes/objetos diferentes &#8212; por exemplo, um tomate e um cachorro &#8212; no momento mesmo em que observa esses dois seres. Certamente distinguir grunhidos, opiniões, argumentos e descrições de fatos não é algo tão rápido e simples como distinguir tomates e cachorros, mas é condição necessária para que um ser humano se considere apto a se comunicar com outros seres humanos. Por exemplo, a diferença entre «ai!» e «ajude-me, estou com uma dor forte no peito!» pode ser a diferença entre viver e morrer.</p>
<p>***</p>
<p><b>A primeira condição para discutir um tema é ter interesse nele.</b> Óbvio. Na maioria das vezes uma pessoa inicia uma discussão não porque tem genuíno interesse no tema, mas apenas porque queria expressar-se e chamar para si a atenção dos ouvintes/leitores/espectadores. </p>
<p>Sabemos que a maneira mais fácil de atrair a atenção das pessoas ao redor é expressar-se com eloqüência, preferencialmente de forma opinativa/controversa. Para esse fim, bater panelas ou pendurar uma melancia no pescoço funciona melhor do que um bom argumento. Às vezes é difícil detectar, à primeira observação, se a pessoa expressou-se porque realmente tem interesse no tema exposto ou porque simplesmente queria chamar a atenção para si. Se o segundo caso se confirma, o máximo que essa pessoa merece é compaixão &#8212; nunca descrições consistentes sobre a realidade do tema sugerido, muito menos argumentos. Em outras palavras, <b>não se deve discutir com quem preza mais o barulho e o calor do conflito do que o tema em si</b>. O tempo é valioso.</p>
<p><b>A segunda condição para discutir um tema é respeitá-lo.</b> Respeitar um determinado tema significa permitir que ele seja o que é, não aquilo que você gostaria que ele fosse. Dois exemplos: </p>
<p>1) Militantes pró-gays esforçam-se para demonstrar que existe um holocausto gay em andamento; uma breve verificação das estatísticas é suficiente para demonstrar exatamente o oposto. Mais detalhes (e também números) podem ser encontrados <a href="http://www.olavodecarvalho.org/semana/070705jb.html">aqui</a> e <a href="http://www.olavodecarvalho.org/semana/080612jb.html">aqui</a>.</p>
<p>2) Cada vez que um policial é flagrado cometendo algum excesso, muitas pessoas alardeiam o retorno da ditadura, o que, é claro, subentende que aqueles eram tempos obscuros e indesejáveis. Porém, verificando estatísticas criminais de hoje e de 30 ou 40 anos atrás,  é fácil saber que o Brasil da ditadura era bem menos assassino do que o Brasil de hoje. Logo, o Brasil da ditadura era muito menos obscuro e indesejável do que aquelas pessoas alardeiam.</p>
<p>O esforço para demonstar algo que simplesmente não existe é sintoma de desprezo pela realidade. Quem despreza a realidade, sobretudo quando ela é colocada diante de seus olhos, já não merece compaixão, merece mesmo uma camisa de força. É claro que é possível discutir um tema como quem discute fragmentos de um conto de fadas com a Rainha de Copas, mas também é humanamente necessário evitar discussões desse nível e com pessoas desse tipo.</p>
<p><b>A terceira condição para discutir um tema é conhecê-lo.</b> Conhecimento é conseqüência do respeito. É natural que queiramos saber mais sobre um tema que respeitamos. Note, aliás, como, nos dois parágrafos acima, a ignorância não é o que se pretende combater com a discussão, mas precisamente o que se quer afirmar, como se ignorância e conhecimento fossem espécies do mesmo gênero. Ignorância é o estado em que o conhecimento está ausente.</p>
<p>***</p>
<p>Fecha-se assim a primeira tríade: interesse &#8211;&gt; respeito &#8211;&gt; conhecimento. É esta tríade que torna o indivíduo um debatedor digno de ser ouvido ou lido. </p>
<p>O interesse e o respeito permitem que o indivíduo se sente à mesa, mas só o conhecimento efetivamente o autoriza para o debate. A ausência de conhecimento só é um problema se o indivíduo faz questão de ser ouvido e ao mesmo tempo ignora o direito que as pessoas ao redor têm de ignorar o que ele pretende dizer.</p>
<p>***</p>
<p>Tenho consciência de que vivo num mundo que despreza esses três atributos. Ignora-se a importância deles assim como se ignoram as pessoas que os possuem. </p>
<p>Todo estudante genuíno é um marginal. </p>
<br />Filed under: <a href='http://christianrocha.wordpress.com/category/aflicoes/'>aflições</a>, <a href='http://christianrocha.wordpress.com/category/filosofice/'>filosofice</a> Tagged: <a href='http://christianrocha.wordpress.com/tag/conhecimento/'>conhecimento</a>, <a href='http://christianrocha.wordpress.com/tag/discussoes/'>discussões</a>, <a href='http://christianrocha.wordpress.com/tag/ignorancia/'>ignorância</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/christianrocha.wordpress.com/2712/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/christianrocha.wordpress.com/2712/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/christianrocha.wordpress.com/2712/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/christianrocha.wordpress.com/2712/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/christianrocha.wordpress.com/2712/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/christianrocha.wordpress.com/2712/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/christianrocha.wordpress.com/2712/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/christianrocha.wordpress.com/2712/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/christianrocha.wordpress.com/2712/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/christianrocha.wordpress.com/2712/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/christianrocha.wordpress.com/2712/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/christianrocha.wordpress.com/2712/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/christianrocha.wordpress.com/2712/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/christianrocha.wordpress.com/2712/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2712&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Desabafos</title>
		<link>http://christianrocha.wordpress.com/2011/10/18/desabafos/</link>
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		<pubDate>Tue, 18 Oct 2011 14:11:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
				<category><![CDATA[adagio]]></category>
		<category><![CDATA[desabafo]]></category>
		<category><![CDATA[emo]]></category>
		<category><![CDATA[sentimentalismo]]></category>

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		<description><![CDATA[«Desabafe». Cresci ouvindo essa recomendação tola. Perdi um tempo precioso acreditando que o que eu sentia devia ser colocado numa mesa, à vista de todos, aberto para discussão. Caí na armadilha do sentimentalismo. Cheguei a achar que depressão era algo bom (embora irônica e felizmente nunca tenha sido atacado por ela) e que atrair a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2701&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://christianrocha.files.wordpress.com/2011/10/hardy.jpg"><img src="http://christianrocha.files.wordpress.com/2011/10/hardy.jpg?w=490" alt="" title="Hardy"   class="aligncenter size-full wp-image-2703" /></a></p>
<p>«Desabafe». Cresci ouvindo essa recomendação tola. Perdi um tempo precioso acreditando que o que eu sentia devia ser colocado numa mesa, à vista de todos, aberto para discussão. Caí na armadilha do sentimentalismo. Cheguei a achar que depressão era algo bom (embora irônica e felizmente nunca tenha sido atacado por ela) e que atrair a compaixão alheia com essa exposição seria vantajoso. E no entanto não produzi uma única poesia nesse período. Na verdade não produzi nada que pudesse atestar que a recomendação fosse realmente boa. Porque não era.</p>
<p>Continuei sendo solipsista e misantropo. Embora irreais em grande medida, tais atitudes me ajudaram a perceber que quem realmente se sente bem com o desabafo é a pessoa que está perto, não quem desabafou. A sensação de alívio de quem desabafa não se compara com a sensação vitoriosa de quem acabou de ouvir um desabafo.</p>
<p><span id="more-2701"></span>No mais das vezes, desabafo é falsa confiança e falsa confissão. Quem realmente quer confessar algo, confessa-a para si mesmo. Quem realmente quer confiar em alguém, sabe que a confiança integral só é possível em si mesmo e em Deus.</p>
<p> A confissão para si mesmo não permite recortes narrativos. A confissão para outrem, sim. Você não quer parecer um patife total. Mesmo que você cause essa impressão, no fundo espera que sobressaia a maravilha contida em «minha vida é um livro aberto», atributo que compõe quase todos os desabafos.</p>
<p>A confiança em outrem é uma espécie de miopia, porquanto quem realmente pode fazer algo por você (Deus e você mesmo) foi colocado num plano inferior ao do «ombro amigo», cuja vida emocional pode ser muito pior do que a sua, mas você não sabe porque seu desabafo o deixou um pouco surdo também.</p>
<p>Quem chega a sentir a necessidade de desabafar e recebe conselhos neste sentido precisa apenas de duas coisas: calar a boca e escutar as vozes que realmente dirão algo. O que quer que venha de fora tem pouca utilidade. Embora mais discretas do que amigos conselheiros, embora sussurrem às vezes em vez de berrar, emoções também estão «fora». </p>
<p>Desabafar muda a casca, não muda o miolo: é como trocar de máscara e de fantasia nos dias de Carnaval, sem perceber que a festa já terminou e que o que você está vivendo na verdade nada tem a ver com usar máscaras e fantasias. A vida avança, o tempo passa e você continua choramingando porque lantejoulas caíram da sua manga, porque a maquiagem borrou e porque você não quer ver quem você é.</p>
<p>O desabafo é uma espécie de bulimia: você vomita porque não suporta o que está dentro, mas volta a comer em seguida. O fato de você não conseguir limpar o vômito sozinho e de não conseguir mais comida sozinho não são suficientes para demonstrar o hiato que há entre o impulso autoafirmativo do vômito e a situação deplorável de total dependência, sujeira e fome que se lhe sucede. É evidente que isto não é solução de forma alguma.</p>
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		<title>Sempiternidade</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 14:48:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A idade vem, a tolerância se esvai. Começo a entender meus avós. Realmente não há o que tolerar. Se uma pessoa repete erros durante 10 anos e neste período os avisos foram abundantes, o que resta é rezar pela alma dessa pessoa e pedir que a Lux Æterna a faça ver o que os avisos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2695&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p>A idade vem, a tolerância se esvai. Começo a entender meus avós. Realmente não há o que tolerar. </p>
<p>Se uma pessoa repete erros durante 10 anos e neste período os avisos foram abundantes, o que resta é rezar pela alma dessa pessoa e pedir que a <em>Lux Æterna</em> a faça ver o que os avisos humanos não lhe tornaram visível.</p>
<p>*</p>
<p>Vejo filas de carros novos e só consigo pensar numa coisa: impermanência. A linguagem da TV, as letras miúdas dos comerciais e o design irresistível pretendem contrariar um fato recorrente há muitas décadas: o «lançamento do ano» tornar-se-á o «elefante branco do ano» tão logo surja o próximo «lançamento do ano». </p>
<p>Vendem-se e compram-se carros como se eles fossem diamantes, o que não altera em nada dois fatos bastante simples: 1) o destino de todos eles é virar sucata e 2) qualquer montadora sabe disto.</p>
<p>E o mais irônico é ver o discurso das montadoras invadir áreas da vida humana cujos objetos raramente se desmancham. E eis que vemos imóveis, canetas tinteiro e relacionamentos vendidos com o mesmo discurso vanguardista. Não há território livre da babaquice.</p>
<p>*</p>
<p>Axioma 1: ninguém quer morrer. Axioma 2: todos vamos morrer. No vão que existe entre estes dois axiomas peleja a maioria das pessoas. </p>
<p>Tal situação, no entanto, não basta para que se dê à questão da permanência a mais mínima atenção. Muitas deixarão cinzas e dívidas, no máximo. Algumas deixarão um apartamento ou uma casa de campo. Poucas deixarão uma biblioteca pessoal, uma obra magistral, um legado irresistível &#8212; um talismã, que seja.</p>
<p>.</p>
<p><font size="1"><a href="http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1088271&amp;page=2">link da imagem</a></font></p>
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		<title>Realidade for dummies</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Aug 2011 21:33:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como muitos devem saber, inclusive porque a informação aparece nos rodapés de alguns artigos meus, sou professor de yoga e de aikido. Para a maioria das pessoas estas duas disciplinas têm uma aura de serenidade e gentileza e são reconhecidos como caminhos de paz, harmonia e autoconhecimento. Muitos devem saber também que, embora eu ensine [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2676&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://christianrocha.files.wordpress.com/2011/08/pic-reality-worst-game-ever1-1.jpg"><img src="http://christianrocha.files.wordpress.com/2011/08/pic-reality-worst-game-ever1-1.jpg?w=490" alt="" title="pic-reality-worst-game-ever1-1"   class="aligncenter size-full wp-image-2682" /></a></p>
<p>Como muitos devem saber, inclusive porque a informação aparece nos rodapés de alguns artigos meus, sou professor de yoga e de aikido. Para a maioria das pessoas estas duas disciplinas têm uma aura de serenidade e gentileza e são reconhecidos como caminhos de paz, harmonia e autoconhecimento. </p>
<p>Muitos devem saber também que, embora eu ensine tais coisas e pareça ser um sujeito «calminho», escrevo com relativa freqüência sobre política e atualidades, áreas de interesse em que tenho lá minhas preferências. Isto já foi motivo de espanto para pessoas que acreditam que estes temas são incompatíveis com as disciplinas que ensino. </p>
<p>Eu realmente não vejo qualquer incompatibilidade nisso. Não creio que a dedicação às questões «deste mundo» invalide o esforço dedicado às questões «do outro mundo» (aliás, dou cada vez menos valor a esta divisão, mas prosseguirei com ela neste texto por razões didáticas). Do mesmo modo, a dedicação a um caminho espiritual como o aikido ou o yoga não torna ninguém incapaz de compreender e resolver as questões deste mundo. Ao contrário, um traço relativamente comum à maioria das pessoas que atingem um certo grau nestas disciplinas é o aumento da compreensão que elas têm da realidade, o que no mais das vezes as torna mais habilitadas a lidar com as questões mais práticas do dia-a-dia. No mínimo, aprender a usar o próprio corpo e exercitar a auto-observação são coisas indiscutivelmente boas e úteis.</p>
<p>É claro que nem sempre os mestres de yoga e de aikido não são especialistas em administrar as próprias vidas e não é raro nos depararmos com alguns que têm dificuldades para cumprir as obrigações «deste mundo» &#8212; sem falar que eu não sou um mestre, é claro. O mesmo ocorre com sábios, santos e mestres de outras tradições. A vantagem destas pessoas é que elas conhecem a Verdade. </p>
<p>Todos aqui concordam que conhecer a Verdade é algo bom, não? Se concordam, concordam também que é bom colocar-se na direção dela. Se isto estiver claro e bem estabelecido, prossigamos.</p>
<p>O que foi dito até aqui permite dividir as pessoas em cinco tipos:</p>
<p><span id="more-2676"></span>
<ul>
1) As que não conhecem a Verdade e não têm noção de sua existência.</p>
<p>2) As que não conhecem a Verdade, têm noção de sua existência, mas não acreditam realmente nela e, conseqüentemente, julgam-se incapazes de conhecê-la. A crença na existência da Verdade é, neste caso, como acreditar em dragões: admite-se a sua existência como seres mitológicos, fictícios, não como entes reais. A maioria das pessoas cujas vidas espirituais estão estritamente vinculadas às rotinas e dogmas das religiões de massa é deste tipo. Note, por exemplo, como estas pessoas depositam suas consciências nas mãos dos líderes dessas religiões. Elas não se crêem capazes de conhecer a Verdade fora da religião de que fazem parte.</p>
<p>3) As que não conhecem a Verdade, têm noção de sua existência, acreditam nela, mas nada fazem em relação a ela. A maioria das pessoas que se dizem «gnósticas» ou «espirituais, mas sem vínculos com uma religião», e mesmo certas categorias de ateus enquadram-se neste tipo.</p>
<p>4) As que não conhecem a Verdade, têm noção de sua existência, acreditam nela e a buscam. </p>
<p>5) As que conhecem a Verdade.</ul>
<p>No que diz respeito à exposição ao erro, os dois primeiros tipos encontram-se na pior condição: pessoas destes tipos estão expostas aos próprios erros e aos erros alheios. Estes dois tipos diferem apenas nas ações, não nas essências.</p>
<p>O tipo 3 tem vantagens em relação aos dois primeiros, mas com freqüência falha ao adotar uma atitude que oscila entre o misticismo (rasteiro por definição) e a arrogância. Pessoas deste tipo não realizaram nada para o bem da própria compreensão da Verdade. Encantam-se igualmente com mantras bonitos e com textos de Leonardo Boff, de Osho e do Dalai Lama. Encantam-se também com «sensações» em «reuniões espirituais», embora raramente consigam compreender estas sensações; perguntadas sobre isto, respondem apenas que «o importante é sentir». No yoga, as pessoas deste tipo são aquelas que repetem genérica e incansavelmente que «yoga é união», sem saber a que a frase se refere. No aikido, são as pessoas que repetem o slogan «aikido, o caminho da harmonia», mas não notam a contradição óbvia quando recebem uma torção forte no pulso. São deste tipo também os católicos que lêem Kardec, os budistas de fim de semana, os «meditadores de CD», os defensores da Natureza (com inicial maiúscula mesmo) e todos aqueles que acreditam que reunir um grupo de pessoas amáveis em torno de uma celebração qualquer é o suficiente para tudo nesta vida e na próxima.</p>
<p>Externamente o tipo 4 pode ser muito semelhante ao 3, a não ser pela menor disposição de se reunir &#8212; o que pode ser encarado como arrogância ou misantropia pelos indivíduos do tipo 3. No entanto, a diferença importante está na atitude interna em relação à Verdade. Os indivíduos do tipo 4 realmente querem enxergar a Verdade e se esforçam para isso porque sabem que é possível e muito fácil tornar-se cego para ela. São dotados de disciplina (<i>abhyasa</i> no yoga, <i>shugyo</i> no aikido), que é algo que transcende (mas inclui) a mera repetição de técnicas e rituais.</p>
<p>Sobre o tipo 5 nada direi, por razões óbvias.</p>
<p>(O leitor deve ter sentido falta de um sexto tipo: o das pessoas que <i>acham</i> que conhecem a Verdade. Sobre isto também nada direi, pois não se trata do que as pessoas de cada grupo pensam sobre si mesmas, isto é, sobre sua relação com a Verdade, mas da relação mesma &#8212; a condição real da pessoa em relação à Verdade, não a opinião que essa pessoa tem sobre essa condição. Em princípio, os três primeiros tipos tendem a crer que conhecem a Verdade, até mesmo quando não a percebem ou quando não crêem nela. O quarto tipo reconhece que não a conhece, embora às vezes possa cometer o erro de crer que o mero direcionamento para a Verdade é suficiente.)</p>
<p>Interessa-me sobremaneira o tipo 3. Em razão do esvaziamento de algumas igrejas e do crescimento de um tipo de espiritualidade desvinculada de qualquer tradição, é este o tipo de pessoa que tende a predominar hoje em dia. Mesmo entre pessoas dotadas de alguma dose de espiritualidade genuína e que de fato têm alguma ascendência religiosa é comum uma atitude bastante despojada e crédula, atributos comuns nas pessoas do tipo 3. É a elas que dirijo os parágrafos seguintes.</p>
<p>***</p>
<p>A defesa da Natureza é um dos únicos pontos de contato entre as pessoas do tipo 3 e «as coisas deste mundo» (temas como política e atualidades). É óbvio que estas pessoas pagam suas contas, limpam a casa, compram comida no mercado, mas, com exceção destes momentos, parecem não viver na realidade, sobretudo quando certos temas tornam-se mais e mais abstratos. Estas pessoas também votam e às vezes se manifestam pró ou contra determinadas causas ou idéias, sem notar duas coisas bastante importantes:</p>
<ul>1) Assim como não compreendem o que é «uma sensação numa reunião espiritual», também não têm noção de onde vêm suas idéias e da direção em que estas as colocam.</p>
<p>2) O desconhecimento da origem e do destino das próprias idéias é causa e conseqüência do desconhecimento de si mesmas.</ul>
<p>Os dois itens acima seriam razões suficientes para essas pessoas calarem as respectivas bocas sobre qualquer assunto e se limitarem às próprias vidas e obrigações. Não obstante ocorre o contrário: a ignorância absoluta sobre temas atuais parece ser suficiente para validar suas opiniões sobre eles.</p>
<p>Um exemplo simples é a reação de algumas pessoas à proibição crescente das sacolas plásticas em mercados. Muitas pessoas aplaudiram a iniciativa porque acreditaram que se tratava de algo «bom para a Natureza». Estas mesmas pessoas ignoram que 1) o lixo doméstico continuará sendo acomodado em sacos plásticos e 2) estes sacos continuarão sendo pagos por quem os usa, como sempre foi. É evidente que elas também ignoram o que é «bom para a Natureza».</p>
<p>A mesma análise pode ser feita sobre o Códido Florestal e a Usina de Belo Monte, que foram temas de enxurradas recentes de e-mails, posts, «tweets» etc. Não havia nestas manifestações o menor sinal de que as pessoas (sobretudo as que eram contra o novo Código Florestal e contra a usina) tivessem acompanhado estes temas desde o início. Portanto, vendiam um peixe que não era delas e, portanto, mereciam ser ignoradas, na melhor das hipóteses. Felizmente o direito à opinião não exclui o direito de ignorar essa opinião.</p>
<p>Além de votar e de se acreditarem no direito de expelir opiniões, estas pessoas também pagam impostos altos e também se incomodam com os problemas que afetam toda a sociedade, mas continuam não sabendo muito bem como tudo isso funciona. E mesmo assim, no que diz respeito às próprias idéias, convicções e crenças, levam suas vidas como se todas as coisas fossem mágicas e misteriosas e como se as próprias coisas mágicas não fizessem parte da realidade. Na melhor das hipóteses, estas pessoas são massa de manobra nas mãos de quem entende um pouquinho como tudo isso funciona.</p>
<p>Como mencionei acima, atribuo este estado de coisas ao absoluto desconhecimento que as pessoas têm sobre si mesmas e sobre aquilo que as compõe. Por exemplo, </p>
<ul>i) «Defender a Natureza» não é algo que se deva fazer sem compreender o que é a «Natureza» que se pretende defender; </p>
<p>ii) Repassar um texto de Leonardo Boff não dispensa o indivíduo de saber que Boff é um comunista e, portanto, anticristão, repudiado inclusive pela Igreja em nome de cuja doutrina ele se pronuncia às vezes &#8212; mesmo que você adore seus conteúdos e abomine a Igreja Católica, não poderá negar que a falta de coerência é um problema; </p>
<p>iii) A mera repetição psitacídea de um mantra não trará iluminação e, mesmo que eventualmente sobrevenha uma sensação que o faça pensar nesta hipótese, a sensação será sempre uma sensação que, em vez de anular, antes reforça a importância de investigá-la.</ul>
<p>É claro que o mistério existe e nem tudo pode ser conhecido. É claro também que os ritos sociais e os ritos espirituais raramente se misturam. O problema, bastante sério aliás, é acreditar que não existe nenhuma conexão entre eles quando, na realidade, você mesmo é essa conexão encarnada. Mesmo que a cegueira seja sedutora ou mesmo inevitável, pelo menos preserve a capacidade de se enxergar e de compreender os próprios pensamentos, desejos, emoções, sensações e idéias.</p>
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		<title>Anti-cidadania</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Jul 2011 12:00:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Desde 2008 o IBOPE tem realizado, a pedido da ONG Nossa Ilha Mais Bela, pesquisas sobre a «percepção cidadã em Ilhabela». O objetivo destas pesquisas tem sido verificar a opinião de moradores, turistas e veranistas sobre diversos aspectos da cidade. Entre os resultados obtidos, o mais interessante é aquele que não se mostra através dos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2672&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p>Desde 2008 o IBOPE tem realizado, a pedido da ONG Nossa Ilha Mais Bela, pesquisas sobre a «percepção cidadã em Ilhabela». O objetivo destas pesquisas tem sido verificar a opinião de moradores, turistas e veranistas sobre diversos aspectos da cidade. Entre os resultados obtidos, o mais interessante é aquele que não se mostra através dos números e que, ao invés, só pode ser encontrado através de uma leitura mais atenta dos gráficos e números.</p>
<p>Muitas das perguntas incluídas nas pesquisas referem-se aos problemas que mais afetam a cidade, à visão que as pessoas têm desses problemas e às prováveis soluções. A síntese, reveladora por si, demonstra que 1) as pessoas não se vêem como responsáveis pelos problemas que as atingem ou como causadoras destes problemas e 2) atribuem ao poder público as possíveis soluções.</p>
<p><span id="more-2672"></span>É evidente que esse estado de coisas não é exclusivo do grande porte de uma nação inteira — invariavelmente decorrente do populismo e do paternalismo do Governo Federal —, ele se constrói e se revela também na escala dos municípios, por pequenos que sejam. Neles, como em Ilhabela, é fácil notar aqueles traços característicos da cultura brasileira, sobretudo quando os debates resvalam em assuntos públicos:</p>
<p>1) A culpa pelos problemas que afetam uma cidade é sempre do poder público. Portanto, as soluções também são de sua responsabilidade exclusiva.</p>
<p>2) Ainda que o poder público seja visto como o alfa e o ômega da vida dos cidadãos, a pastosa maioria limita-se a resmungar diante dos noticiários e a amaldiçoar o político A ou o político B. Não se percebe, é claro, a ausência de conexões lógicas entre a constatação do peso do poder público sobre nossas vidas e a reação diante deste fato, isto é, o ato de resmungar.</p>
<p>3) A rançosa minoria, embora bem-intencionada, entrega a própria cabeça em bandejas de prata chamadas comissões, sessões de Câmara, audiências públicas e outras reuniões cívicas, sem, é claro, demonstrar o mais mínimo domínio dos temas discutidos, tampouco aquele interesse mínimo que conduz o indivíduo aos livros e que os afasta das polêmicas fáceis e rasteiras. Dedica-se mais tempo às patotas do que ao estudo e à reflexão.</p>
<p>4) Todos, sem exceção, brigam por direitos, privilégios e benefícios sem perceber que todas estas coisas implicam a contrapartida do dever, o que redunda num atoleiro de leis, políticos, decretos, portarias, repartições, licitações, portarias, fiscais, secretarias, verbas e impostos, impostos e mais impostos.</p>
<p>Às pessoas que possuem estes traços não ocorre que o reconhecimento de si mesmo como parte de um emaranhado de acontecimentos públicos e como repetidor de idéias correntes constitui a própria definição de anti-cidadania. A cidadania começa quando o indivíduo torna-se capaz de ver-se como alguém dotado de um mínimo de autonomia e de responsabilidade pelos próprios atos. Só depois disso é possível compreender os acontecimentos públicos e as idéias correntes, bem como o papel que o próprio indivíduo tem nisso tudo. Não há melhor definição de anti-cidadania do que a imagem do sujeito que se queixa do mau cheiro de um lugar sem perceber seus próprios dejetos espalhados no chão. O bom cidadão é aquele que, antes de falar, antes de agarrar-se ao queixume padrão, cumpre sua parte e que, consciente do custo de cada «direito», esforça-se para depender cada vez menos deles. O bom cidadão raramente precisa de prefeitura ou de governo.</p>
<p>.</p>
<p>Publicado originalmente no <a href="http://www.tvilha.com.br/">site da TV Ilha</a> em 4 de julho de 2011.</p>
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		<title>Sêneca, Da glória</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Jul 2011 21:18:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://christianrocha.files.wordpress.com/2011/07/seneca.jpg"><img src="http://christianrocha.files.wordpress.com/2011/07/seneca.jpg?w=203&#038;h=300" alt="" title="Seneca" width="203" height="300" class="aligncenter size-medium wp-image-2665" /></a></p>
<ul>
<em>A glória é a sombra da virtude e a acompanhará sempre, mesmo que ela não queira. Mas como a sombra ora precede, ora segue os corpos, assim a gloria por vezes se mostra visível diante de nós, por outras vem por trás de nós; e é tanto maior quanto mais tarde chega, uma vez desaparecida a inveja. Por quanto tempo Demócrito foi tomado por louco! Com quantas penas afligiu-se Sócrates! Por quanto tempo os concidadãos ignoraram Catão! Rechaçaram-no e não o compreenderam senão depois que o haviam perdido. Se Rutílio não tivesse sofrido a condenação injusta, sua honestidade e sua virtude teriam permanecido escondidas: estas brilharam no ultraje. Não teria sido grato à sua sorte, abraçando o exílio? Falo daqueles que se tornaram famosos graças ao destino, enquanto eram perseguidos por ele; mas quantos não tiveram o reconhecimento de seus méritos apenas depois de mortos? Quantos não são os que a fama retirou de um longo esquecimento? </p>
<p>Nenhuma virtude permanece escondida por muito tempo, nem lhe provoca nenhum dano ter sido escondida: chegará o dia em que será revelada, saindo do olvido para o qual havia sido banida pela inveja dos contemporâneos. Aquele que pensa nos homens da sua geração não viverá para os pósteros. Seguir-se-ão milhares e milhares de anos, milhares e milhares de homens: é para estes que se deve olhar. Ainda que a inveja imponha a todos os teus contemporâneos o silêncio sobre ti, virão os pósteros para julgar-te com o espírito sereno, sem aversão nem simpatia. Se da fama provém algum prêmio para a virtude, nem mesmo este estará perdido. Não nos tocará &#8212; é verdade &#8212; aquilo que os pósteros dirão de nós; todavia, não cessarão de honrar-nos, mesmo que não possamos ouvi-los. A cada um de nós a virtude dará sua recompensa, seja em vida, seja depois da morte, contanto que a sigamos com sinceridade, sem nos servirmos dela como ornamento exterior, mas permanecendo sempre os mesmos, quer porque sabemos que somos observados, quer sendo surpreendidos. A simulação não nos favorece. Um rosto embelezado só faz efeito para poucos. A verdade é sempre a mesma em todas as partes. As falsas aparências não possuem nenhuma consistência: através do véu sutil da mentira, aos olhos de um observador atento, transparece a verdade. </em></ul>
<p>Sêneca, <em>Cartas a Lucílio</em>, IX, 79, 13.</p>
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		<title>Verdade e moral</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Jun 2011 17:39:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Confesso, já me abstive de analisar os conteúdos alheios porque o sujeito que os expunha participava de um clube que eu abominava. Àquela altura, se um Hitler me dissesse que 2+2=4 eu consideraria avaliar seriamente se 2+2=5. Exemplos como esse são sintomas de duas características bastante humanas: 1) Para a maioria de nós, verdade e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2656&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p>Confesso, já me abstive de analisar os conteúdos alheios porque o sujeito que os expunha participava de um clube que eu abominava. Àquela altura, se um Hitler me dissesse que 2+2=4 eu consideraria avaliar seriamente se 2+2=5.</p>
<p>Exemplos como esse são sintomas de duas características bastante humanas: </p>
<p>1) Para a maioria de nós, verdade e moral se equivalem: fazer o bem significa estar do lado da verdade e o exercício da verdade é necessariamente bom. </p>
<p>2) Como conseqüência disso, a maioria de nós não concebe que pessoas inerentemente más possam às vezes estar do lado da verdade e acertar ao descrever a realidade. Isto nos leva a dispensar os conteúdos antes de avaliá-los, o que é um passo firme para faltar com a verdade e sustentar um estado de coisas que permite que o mal atue com liberdade cada vez maior.</p>
<p>Um exemplo comum entre filósofos sobre a relação entre verdade e moral é aquele que nos coloca como dono de uma casa onde se escondem judeus em plena Alemanha nazista. Um soldado nos pergunta se estamos escondendo judeus. Dizer a verdade, é claro, significa condenar aqueles judeus à morte.</p>
<p>Dizer a verdade não é o mesmo que reconhecê-la. A expressão da verdade estabelece uma relação entre duas pessoas &#8212; emissor e receptor. O reconhecimento da verdade é ato solitário por sua própria definição.</p>
<p>A verdade não se altera, alteram-se seus usos. A moral começa onde o silêncio e a contemplação terminam.</p>
<p>.</p>
<p><font size="1"><a href="http://www.thewaytohappiness.org/thewaytohappiness/precepts/seek-to-live-with-the-truth.html">link da imagem</a></font></p>
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		<title>Do silêncio</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Jun 2011 17:54:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Talvez um dos dramas interiores mais peculiares pelos quais uma pessoa pode passar seja o de perceber certas verdades e não conseguir explicá-las às outras pessoas. Embora as palavras às vezes possam amenizar o problema, isto tem pouco a ver com a oratória ou a habilidade literária (ou a falta destas coisas), porque há também [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=christianrocha.wordpress.com&amp;blog=5884153&amp;post=2649&amp;subd=christianrocha&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://christianrocha.files.wordpress.com/2011/06/pilatos_jesus.jpg"><img src="http://christianrocha.files.wordpress.com/2011/06/pilatos_jesus.jpg?w=490" alt="" title="pilatos_jesus"   class="aligncenter size-full wp-image-2650" /></a></p>
<p>Talvez um dos dramas interiores mais peculiares pelos quais uma pessoa pode passar seja o de perceber certas verdades e não conseguir explicá-las às outras pessoas. Embora as palavras às vezes possam amenizar o problema, isto tem pouco a ver com a oratória ou a habilidade literária (ou a falta destas coisas), porque há também momentos (não raros) em que as palavras agravam o problema e mais confundem do que esclarecem.</p>
<p>Há um frase célebre de Wittgenstein que diz «onde não se pode falar, aí é preciso calar». Seria um conselho supimpa se o diálogo interior não fizesse parte da natureza mesma da mente: tão logo a percepção da realidade se conclui, a mente começa a se desdobrar num jogo dialético interminável, em busca de frases, fórmulas, julgamentos, slogans. Querer falar, mesmo quando não se pode, é algo genuinamente humano.</p>
<p>Onde não se pode falar, oras, buscam-se palavras adequadas (<a href="http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/problema_verdade.html">conforme ensina Olavo de Carvalho</a>). </p>
<p>Místicos, mesmo os que não conhecem Wittgenstein, dirão que o silêncio a que o filósofo austríaco se refere é <i>contemplativo</i>. Ok. Mas eis que em algum momento você precisará olhar nos olhos de outra pessoa e dizer coisas sérias &#8212; suponhamos, coisas que não aconteceram, mas que você sentiu e que, portanto, não são menos verdadeiras apenas porque não se manifestaram como sons de sininhos ou como uma fome devastadora ou como uma topada num móvel num quarto escuro. </p>
<p>*</p>
<p>Quando Pôncio Pilatos perguntou a Jesus «quid est veritas?», o Nazareno silenciou. A verdade estava ali, encarnada, inteira e plena diante de Pilatos, que, ao invés de reconhecê-la, me vem com um «posso ver o cardápio?».</p>
<p>Eu também peço o cardápio. A maioria das pessoas pede. Mas no fundo todos queremos ver a verdade encarnada diante de nós, mesmo que isso signifique ajoelhar, silenciar e chorar.</p>
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		<title>O ornitorrinco</title>
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		<pubDate>Sat, 21 May 2011 01:11:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian</dc:creator>
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<p><em>A inabilidade da metafísica convencional, a de sujeitos e objetos, em clarificar os valores é um exemplo do que Fedro chamou de um «ornitorrinco». Os primeiros zoólogos classificaram como mamíferos aqueles que amamentam seus filhos e como répteis aqueles que põem ovos. Eis que foi descoberto na Austrália um ornitorrinco, com bico de pato, que botava ovos como perfeito réptil e, depois de chocá-los, amamentava os ornitorrincozinhos como um  perfeito mamífero.</p>
<p>A descoberta provocou uma sensação e tanto. Que enigma! &#8212; exclamou-se. Que mistério! Que maravilha da Natureza! Quando os primeiros exemplares empalhados chegaram à Inglaterra, provenientes da Austrália, no final do século XVIII, foram considerados falsificações feitas colando-se pedaços de diversos animais. Ainda hoje encontramos ocasionalmente artigos em revistas sobre a Natureza indagando: «Por que existe esse paradoxo na Natureza?».</p>
<p>A resposta é: não existe. <strong>O ornitorrinco não faz absolutamente nada de paradoxal. Ele não tem qualquer problema. Os ornitorrincos vinham botando ovos e amamentando seus filhotes há milhões de anos, antes que chegasse um zoólogo e declarasse isso ilegal.</strong> O verdadeiro mistério, o verdadeiro enigma, é como podem esses observadores científicos maduros, objetivos e treinados responsabilizar por seu erro crasso um pobre e inocente ornitorrinco.</p>
<p>Os zoólogos, para encobrir seu problema, tiveram que fazer um remendo. Inventaram uma ordem nova, a dos monotremados, para incluir o ornitorrinco e a équidna, e pronto. Isso é o mesmo que uma nação consistindo de duas pessoas.</em></p>
<p>Trecho do livro «Lila», de <strong>Robert M. Pirsig</strong>, mais conhecido pelo livro «Zen e a arte da manutenção das motocicletas».</p>
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