You are currently browsing the tag archive for the 'eleições-2008' tag.
Apesar da massa comum que disputa as eleições a cada dois anos — gente como eu ou você, ou um pouco menos —, é comum também a idéia de que o sistema político é complexo, insondável e incompreensível. Até hoje eu não sei de quê são feitas as leis, de onde elas vêm, do que se alimentam, e raramente encontro quem possa me explicar todas essas coisas. Eu vejo o noticiário político e imediatamente me vêm à cabeça todas as profecias sobre o surgimento do Anticristo, que, afinal, não é uma pessoa, mas um sistema, uma massa ou um labirinto. O nome desse labirinto é política. Candidaturas são a expressão do desejo de encontrar a saída desse labirinto e depois cobrar ingressos para que outras pessoas possam refazer o caminho dentro dele. O voto é uma espécie de aposta que se faz na capacidade daquele sujeito encontrar a saída do labirinto, mesmo quando ele está visivelmente mais perdido do que todos nós.

Tempestade à frente? Só o futuro dirá. (link da imagem)
Se as eleições revelam até onde as pessoas estão dispostas a ir para realçar as diferenças, as semanas que as sucedem trazem-nas de volta à realidade: este arquipélago é um só. Isto significa que não há diferenças importantes, mesmo que os partidos e seus líderes digam o contrário.
Em época de eleição, bom mesmo é conversar. E raro também. A maioria das pessoas prefere expressar-se com paus, pedras e mastros de bandeiras numa época dessas.
*
Eis uma conversa hipotética. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência — ou nem tanto:
– E que tal votar no [Candidato 1]?
— Nem a pau! Você não lembra que ele fez [burrada 1, burrada 2, crime 1, crime 2 etc. etc. etc.]?
— Pô, é mesmo… E o [Candidato 2]?
— Menos ainda. Sabe quem tá com esse sujeito? Você já imaginou as pessoas que vão mandar nele caso ele seja eleito? Pra quem você acha que ele vai trabalhar se for eleito?
— E o [Candidato 3]?
— Cara, esse sujeito estacionou o carro em lugar proibido em janeiro de 1982. Eu não votaria nele em hipótese nenhuma.
— Caramba, não sobra ninguém? Alguém vai ter que ser eleito, não?
— Você, eu não sei, mas eu vou anular meu voto.
— Me parece mais sensato fazer um esforço e tentar pesar todos esses defeitos e ver qual pesa menos, não?
— Ah, sei lá. Eu não quero participar disso.
— Se você tem alguma consciência de todas essas coisas e é capaz de discerni-las e pesá-las numa balança moral, sua participação é muito mais importante do que você pensa. Porque tem muito eleitor aí que não é capaz de fazer isso. Além disso, a ausência das pessoas inteligentes beneficia os piores candidatos.
— O que você sugere? Que eu vote no [Candidato 1]?
— Em quem você vai votar é problema seu. Eu só acho importante tentar encontrar o “menos ruim” e votar nele, mesmo que você ache que todos são ruins, mesmo que você esteja decepcionado com estas eleições. Além disso, tudo depende de como você vai pesar as qualidades e os defeitos dos candidatos. Se há diferenças entre os candidatos, acho importante enxergar essas diferenças e votar naquele que tem mais qualidades, ou menos defeitos. Ou naquele cujos defeitos não interferem na vida pública e não o tornam incompetente para trabalhar pela cidade.
*
Para alguns, isto pode contradizer o que eu disse aqui, mas perceba que nos dois casos (aqui e lá) o que vale é fazer do voto um exercício de consciência — e pouco importa se ninguém mais o encara desta forma. A maior responsabilidade das pessoas inteligentes e responsáveis é propagar a idéia de que tudo — principalmente os gestos sociais, como votar ou sair à rua — deve ser feito com responsabilidade e consciência.

Chamando para a festa da democracia. (link da imagem)
Eu emburreço em ano eleitoral. Na verdade eu emburreço um pouco todos os anos, sinto-me cada vez mais idiota, incompetente e inútil. Vejamos: ando numa praia e vejo um sujeito passeando com seu delicado pitbull; peço a ele para deixar o cão em casa e obtenho como resposta uma palavra tão delicada quanto o animal de coleira; informo as autoridades competentes sobre o fato e obtenho como resposta um silêncio constrangedor; informo a mim mesmo sobre a inutilidade dos meus pedidos e obtenho como resposta do subconsciente o imperativo “desista, não é tão sério assim”. Processo semelhante ocorre quando vejo praias sujas, o trânsito cada vez mais maluco e infestado de imbecis, a indiferença conveniente de muitos veranistas e a boçalidade que predomina nos debates do lado de cá do Canal de São Sebastião. As etapas e os processos são os mesmos e todos me dizem que não existe problema sério ou importante demais que mereça os vincos da minha testa. Afinal, se tantas pessoas ignoram o que é errado, talvez o erro não seja assim tão sério.
Ano eleitoral é um caso à parte. Read the rest of this entry »
*

Isto sim é que é carro de som bão.
Tento descobrir a lógica oculta sob carros de som, muros pintados e panfletos que emporcalham as ruas. O esforço é vão, porque essa lógica é semelhante àquela outra, não menos misteriosa, que leva algumas pessoas a estourar fogos de artifícios quando um navio se vai, a abrir o porta-malas de um carro para que todos ouçam o som que vem dali e a acelerar forte uma moto barata de escapamento aberto em plena madrugada. É a lógica da melancia no pescoço, que diz que a melhor forma de conseguir algo que se deseja é fazer barulho, chamar a atenção, mostrar-se mesmo que de formas ridículas.
Se essa lógica se mostra impenetrável em meses normais — porque eu acho que nunca vou entender motociclistas e fogueteiros —, no período eleitoral ela ganha alguns flancos a partir dos quais seria possível (eis minha esperança) compreendê-la, expugná-la e bani-la deste arquipélago.

Ouço ao longe um sujeito discursar numa convenção partidária em minha cidade. Ele fala que é necessário dar uma guinada de 360 graus na condução dos interesses públicos (ele usa outra expressão, que eu fiz o favor de esquecer) e raramente consegue concordar sujeito com o verbo. É candidato a vereador.
Mesmo que eu suponha que ele está fingindo ignorância — porque os semelhantes se atraem e é necessário conquistar pelo menos os votos das pessoas que participavam da convenção —, lembro que a fala é sempre uma extensão daquilo que há dentro do indivíduo. Se ele fala errado por ignorância, estamos diante de um candidato ignorante. Se ele fala errado por fingimento, estamos diante de um candidato fingido. Nos dois casos nós… bem, você já sabe.
As coisas ficam um pouco mais sérias quando percebo que quase todos os candidatos falam errado e que ninguém percebeu o problema da “guinada de 360 graus”, o que me leva a crer que o que ouvi não era exceção, mas regra.
Socorro.
.
Imagem obtida aqui.

Nunca apostei demais na política e nos políticos, mesmo no auge da adolescência. Tive amigos que panfletaram durante a campanha pelas eleições diretas. Alguns fizeram campanha para Collor. Outros, ainda mais visionários, apostaram em Lula. O rumo que o país tomou através da política, o próprio tempo e a atenção dispensada às peculiaridades da política local tornaram-me cético. Hoje eu acredito naquilo que um político diz na exata proporção em que ele é capaz de se manifestar e viver como pessoa em vez de se manifestar e viver como político — as diferenças são evidentes.





dizem por aqui