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Esquerdistas acertam ao criticar os excessos de certos representantes do capital — que eles chamam de burgueses —, mas há algo nessa crítica que não é típico das esquerdas: a moral.
Não há nada errado em querer faturar alto, principalmente em épocas em que o dinheiro é escasso e as possibilidades de ganhá-lo são numerosas. Temporada de verão é uma dessas épocas cheias de perspectivas de alto faturamento, principalmente para quem vive do turismo (isto é, 99% da população de Ilhabela). Depois do Carnaval, como todos sabem, virá mais uma temporada de faturamentos mirrados e moscas. Obviamente, a condição para que se possam aproveitar as temporadas de verão é a existência de um mercado livre, onde monopólios, cartéis e concorrências desleais não existem ou pelo menos são evitados.

Na faculdade uma das lições mais interessantes e instigantes que tive foi aquela que falava da importância de elaborar um conceito para o projeto. Você não podia apenas desenhar uma casa. Ela poderia ser linda, interessante, diferente, mas precisava ter um conceito. Não que fosse sempre necessário justificar as opções de projeto, mas, se o professor perguntasse o porquê delas, as piores respostas seriam “não sei” e “porque eu quis”.
Ter uma justificativa razoável revelava que o estudante compreendera o exercício de projeto que lhe foi proposto e possuía um conceito norteando as escolhas e a forma como as diferentes partes do projeto podiam se conectar e se harmonizar num conjunto que, afinal, seria bem sucedido.
Lembro que alguns alunos na ocasião traduziram “conceito” como “coerência” ou “coesão”. O conjunto é coeso quando suas partes se comunicam, isto é, falam o mesmo idioma. Esse idioma comum é precisamente o conceito.
Em época de eleição, bom mesmo é conversar. E raro também. A maioria das pessoas prefere expressar-se com paus, pedras e mastros de bandeiras numa época dessas.
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Eis uma conversa hipotética. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência — ou nem tanto:
– E que tal votar no [Candidato 1]?
— Nem a pau! Você não lembra que ele fez [burrada 1, burrada 2, crime 1, crime 2 etc. etc. etc.]?
— Pô, é mesmo… E o [Candidato 2]?
— Menos ainda. Sabe quem tá com esse sujeito? Você já imaginou as pessoas que vão mandar nele caso ele seja eleito? Pra quem você acha que ele vai trabalhar se for eleito?
— E o [Candidato 3]?
— Cara, esse sujeito estacionou o carro em lugar proibido em janeiro de 1982. Eu não votaria nele em hipótese nenhuma.
— Caramba, não sobra ninguém? Alguém vai ter que ser eleito, não?
— Você, eu não sei, mas eu vou anular meu voto.
— Me parece mais sensato fazer um esforço e tentar pesar todos esses defeitos e ver qual pesa menos, não?
— Ah, sei lá. Eu não quero participar disso.
— Se você tem alguma consciência de todas essas coisas e é capaz de discerni-las e pesá-las numa balança moral, sua participação é muito mais importante do que você pensa. Porque tem muito eleitor aí que não é capaz de fazer isso. Além disso, a ausência das pessoas inteligentes beneficia os piores candidatos.
— O que você sugere? Que eu vote no [Candidato 1]?
— Em quem você vai votar é problema seu. Eu só acho importante tentar encontrar o “menos ruim” e votar nele, mesmo que você ache que todos são ruins, mesmo que você esteja decepcionado com estas eleições. Além disso, tudo depende de como você vai pesar as qualidades e os defeitos dos candidatos. Se há diferenças entre os candidatos, acho importante enxergar essas diferenças e votar naquele que tem mais qualidades, ou menos defeitos. Ou naquele cujos defeitos não interferem na vida pública e não o tornam incompetente para trabalhar pela cidade.
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Para alguns, isto pode contradizer o que eu disse aqui, mas perceba que nos dois casos (aqui e lá) o que vale é fazer do voto um exercício de consciência — e pouco importa se ninguém mais o encara desta forma. A maior responsabilidade das pessoas inteligentes e responsáveis é propagar a idéia de que tudo — principalmente os gestos sociais, como votar ou sair à rua — deve ser feito com responsabilidade e consciência.

Fala-se de elite econômica, elite intelectual, elite política, elite social (aquela ligada ao status). Não se fala de elite moral, um grupo exemplar, conjunto de pessoas que devem ser seguidas em qualquer circunstância, não porque têm dinheiro, boa posição social ou títulos eminentes, mas porque agirão corretamente em qualquer situação.
Eu acredito que essas pessoas existem, mesmo num país miseravelmente imoral como o nosso. Elas não são especialistas em nada, não dão entrevistas, vivem reclusas, estudam por conta própria e levam vidas simples, não são pobres nem ricas. Apenas vivem suas vidas e tentam dar o exemplo.
Se existe algum futuro para este país, ele está nas mãos dessas pessoas. É fundamental encontrá-las e ouvir o que elas têm a dizer. E, naturalmente, se você acha que faz parte dessa elite moral, você não tem condições de participar dela nem como aluno.

Agora, neste exato momento, você tem pelo menos duas opções diante de si. Você pode continuar lendo este texto ou pode levantar-se para fazer qualquer outra coisa. Enquanto eu o escrevia, eu poderia ter levantado da cadeira para esganar a primeira pessoa que passasse na calçada — mas preferi concluir o raciocínio que sobreveio à mente (é possível que você ache que a primeira opção fosse mais frutífera, mas isso é outra história). Eu poderia ter rasgado o caderno em que anotei estas linhas ou poderia ter feito aviões de papel com suas folhas. Poderia ter saído correndo ou poderia ter deitado no chão para meditar profundamente sobre os eufemismos de que o mundo é feito.
Estes binômios podem ser resumidos da seguinte forma: subir ou descer; melhorar ou piorar; tornar-se uma pessoa de verdade ou reduzir-se àquela miséria que torna as lacraias mais dignas do que nós.
As duas opções são difíceis; as duas opções exigem coragem e energia; as duas têm custos e benefícios (por mais que vejamos a ruindade como opção fácil). O que realmente difere uma opção da outra é o que vem depois delas, que pode ser resumido com a seguinte pergunta: para onde você pode ir a partir do lugar em que você se encontra? Sinceridade ajuda nestas horas. Trata-se de uma pergunta que ninguém vai lhe fazer — a não ser você mesmo. Você não tem por que mentir.
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Sobre isto, Olavo de Carvalho diz, numa transcrição de um trecho de um de seus podcasts recentes:
“Conte para você mesmo a sua própria história honestamente. Este é o exame de consciência cristã, Você tem que fazer isto todos os dias, se você não faz. Pois, se você quer viver e crescer sem se revisar o tempo todo, você está se candidatando a uma neurose, pois você perdeu o fio da sinceridade, pois muitas coisas perto de nós nos impelem a mentir, a trapacear, a representar papéis às vezes por uma necessidade, para se mostrar o que não é. Daí vai se impregnando falsidade, um pouquinho aqui, um pouquinho ali, daí a pouco você não sabe mais quem é você. Por isso todo dia você tem que examinar e ver o que você fez e por que fez, e você tem que recuperar no meio dos vários papéis que você desempenhou a sua própria voz, para com a sua própria voz você poder falar com Deus.
“Segundo Santo Agostinho, a verdadeira sinceridade só é possível se você souber que você está perante um observador onisciente a quem você não pode enganar, porque se for apenas sinceridade para um, você acaba mentindo, pois você não pode falar a verdade para todos, afinal você usa uma linguagem diferente para falar com cada um. Logo, a gente não diz a verdade completa para nenhum deles, a gente só pode dizer a verdade completa em nosso próprio coração e para o próprio Deus. Afinal, Ele sabe a verdade. E este exercício deve ser diário.
“O que a Bíblia quer dizer com ‘caminhar diante de Deus’ é a pessoa estar o tempo todo dando para si mesmo o feedback do que ele fez, diante de um observador onisciente ao qual ele não pode enganar. Esta disciplina tem que ser algo de ferro, a gente não pode ceder nisto aí, é isto que mantém a sanidade humana. Não adianta você mentir para si mesmo, se você mente três vezes para si mesmo, seu Q.I. de 250 cai para 12,5. A inteligência é fruto da verdade.”
Fonte original da imagem, aqui.
Não pense na liberdade como um valor ou um objetivo, mas como uma qualidade, um estado ou um meio. Você é livre ou não é. Talvez a prisão mais cruel seja a persistência em pensar que não se é livre.
Quem faz da liberdade sua bandeira só se sentirá suficientemente livre quando puder dizer o que quer e recusar-se a ouvir o que não quer — ou quando puder fazer coisas ainda piores.

Discussão relevante às vésperas do Dia das Mães.
Uma idéia muito comum entre os defensores do aborto é aquele argumento pretensamente libertário que diz que a mulher deve ter o direito de decidir o destino do feto.
Suponhamos que esta idéia não seja estapafúrdia em si e não represente uma completa deformação da própria noção de direito. Em outras palavras, vamos dar um crédito a uma idéia que não merece crédito algum. Prossigamos.
Recebo, por e-mail, a seguinte mensagem:
A ÚNICA pessoa que pode condenar o aborto é a mulher que está grávida. Porque ela é a ÚNICA que pode levar adiante, ou não, a sua gestação. Ninguém deve ter poder de obrigá-la a abortar, ou não… Querer impor a esta mulher qualquer opinião diferente da sua é típico de Estados totalitários e de pessoas intolerantes!
Não, não é a ÚNICA. O aborto não é realizado pela mãe sozinha. Se o aborto pudesse ser realizado sem ajuda de outras pessoas, como o suicídio, não haveria por que discutir proibições e permissões. É justamente a dimensão social do aborto — o fato mesmo da necessidade de ajuda nesta tarefa abominável — que o torna imoral e censurável.
Se uma mulher quer realmente matar seu filho, ninguém poderá impedi-la, é claro. O cúmulo da assholeness é querer ajuda do Estado e aprovação da sociedade para isso.

Existe uma diferença entre liberdade e moralidade. A liberdade genuína existe apenas quando ela respeita alguns preceitos — o bom gosto, a justiça e a probidade, por exemplo. Pode-se ter dinheiro demais, mas não se pode defender a moralidade do excesso. A liberdade para o excesso deve ser defendida tanto quanto o fato de sua imoralidade intrínseca. Para esta, o repúdio. Para aquela, a ação e a responsabilidade — e não queira ser engraçadinho ao ponto de mencionar responsabilidade social; eu me refiro a uma virtude, não a um panfleto.
Talvez este seja um ponto em que se pode também separar liberdade e libertinagem. Extraia a responsabilidade da liberdade. Eis a libertinagem, que não reconhece qualquer autoridade moral — nem a do indivíduo sobre si mesmo, muito menos a dos mestres ou das tradições sobre o indivíduo.
O que se tem hoje é a liberdade sem responsabilidade. Com o pretexto de não ceder a governos corruptos e à hegemonia da estupidez coerciva, defende-se a liberdade irrestrita — onde “irrestrita” é a palavra importante. Mas o sábio, este é livre justamente porque cede a quem ele deve sua sabedoria e por isso sabe ceder, sabe entregar sua liberdade e não se preocupa com isso sem antes preocupar-se com os preceitos que o tornaram sábio, a começar pela humildade. E assim não comete excessos. E assim é sempre moral e livre.
Os Analectos — É o nome da principal obra de Confúcio. Ainda estou no começo da leitura, mas percebi uma coisa: é difícil não se sentir fraco diante das palavras do Mestre. A moral é para os fortes. Eu nunca me senti tão fraco. Não há meio-termo nas páginas de Os Analectos. Ou você é um indivíduo moral e age conforme essa moralidade, estuda, segue uma disciplina, assume responsabilidades morais e as compreende ou você não faz nada disso e é imoral, simplesmente imoral. Não há gradações. A existência de gradações significaria conceder a quem não merece concessões, e o indivíduo imoral não busca a perfeição, a virtude e a sabedoria, ele só quer concessões — e, dependendo das circunstâncias, votos.
Aqui, uma coletânea de frases de Confúcio, todas extraídas de Os Analectos.
Eleições 2006 — eu me arrependo de ter convencido algumas pessoas a não votar nulo. Primeiro porque eu mesmo me arrependi de não ter anulado meu voto; me senti estúpido por ter votado em candidatos específicos porque eu disse a mim mesmo que não acreditava na democracia brasileira, e continuo não acreditando. Segundo porque a única forma decente de democracia é aquela que reflete exatamente aquilo que o eleitor pensa. Terceiro porque a democracia brasileira não ajuda em nada o eleitor a pensar. Em outras palavras, eu traí minha consciência ao votar. Sei que se muitos pensarem dessa forma Lula será reeleito, e há também aquele papo de que não se deve colocar o ego acima de uma causa maior (livrar o país do Sumo Apedeuta). Mas dói mais trair a própria consciência do que ter mais quatro anos de bandalheira. Ademais, é sobretudo pela vacuidade mental que a política é o que é e é sempre muito bom que os eleitores sejam chamados a exercitar suas respectivas consciências a cada eleição — aqueles que a têm. Caberia aqui uma discussão sobre o que é mais importante e possível: o exercício consciente do voto ou a condução dos inconscientes na direção do mal menor.
O sentido da vida — «O que realmente importa não é o que nós esperamos da vida mas o que a vida espera de nós. Nós precisamos parar de questionar qual o sentido da vida mas, ao contrário, pensar em nós mesmos como sendo questionados pela vida — diariamente e a cada hora. Nosso questionamento deve consistir não em fala e meditação, mas no correto agir e na correta conduta. O sentido final da vida é tomar a responsabilidade de encontrar a resposta correta aos problemas e cumprir as tarefas que são constantemente dadas para cada indivíduo.» (via Budo). Impossível não ver relações entre esta frase de Viktor Frankl e as idéias transmitidas por Confúcio em Os Analectos.
Cinefilia — ao contrário do que meu descontentamento fez parecer, é muito bom passar diante do cinema e constatar que não há nada de interessante para ver. É claro que esta é uma avaliação muito subjetiva. Eu não quis ver Dália Negra, não quis ver O diabo veste Prada, não quis ver Serpentes a bordo, quis menos ainda ver Deu a louca na Chapeuzinho; eu simplesmente não quis porque não li coisas boas sobre esses filmes, não me comovi com os cartazes e os traillers, não estava disposto a encarar salas lotadas (feriados…) para ver filmes de qualidade duvidosa ao lado de gente que acredita que uma sessão de cinema é a melhor ocasião para chutar poltronas, falar alto e tentar controlar crianças indomáveis. Foi assim, longe do cinema, que tive horas agradáveis de conversa, café e leitura; que pude ver as gentes em seu habitat natural; que me dediquei à minha disciplina diária de exercício e meditação; e que, afinal, escolhi filmes numa locadora e os vi no conforto e no silêncio do lar, ao lado de minha esposa e meus irmãos.




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