Amor: como e por quê

Eu digo que o amor não deve ser usado como desculpa para a irracionalidade e logo surgem os zeladores dos sentimentos me acusando de ser racional demais. Mas eu só proponho clareza, discernimento, o uso constante da inteligência e do senso de justiça. Uns dirão que essas coisas tornam impossível amar; eu respondo que o amor verdadeiro é uma forma superior de conhecimento e de justiça.

Refiro-me aqui, é claro, ao amor romântico, o amor que une duas pessoas e que, às vezes, as leva ao matrimônio. Neste caso, talvez mais do que em outros, não há chances de sucesso sem conhecimento.

Sim, há o amor à primeira vista, mas ele jamais é bem-sucedido sem evoluir daquela comichão inicial — paixão — à consciência que os relacionamentos estáveis e bons pressupõem. Quando se fala em amor à primeira vista dispensa-se automaticamente o que vem depois. É o que vem depois que determina se aquilo era amor à primeira vista ou engano à primeira vista. Essa clareza só vem com conhecimento.

Quando falo em conhecimento, lembro logo da ciência, de métodos científicos, de empirismo (o conhecimento como fruto da experiência) e racionalismo (o conhecimento como fruto do exercício da razão). Amar uma pessoa implica cada uma dessas coisas: método, experiência, raciocínio. Não é algo tão quadrado quanto parece, já que uma das formas de amor chama-se filos — o mesmo prefixo de filosofia, o amor ao conhecimento. O que ocorre entre o filósofo e seu objeto de devoção — o conhecimento — é semelhante ao que ocorre entre o amante e sua amada: ele a quer perto, quer conhecê-la, compreendê-la, ser parte de sua vida.

Sim, você dirá, filos implica pesquisa, conhecimento, compreensão, mas o amor verdadeiro é agape, o amor dos santos, o amor universal. O Amor. Mas, responderei, o amor a que me refiro não é o amor santo, não é o Amor. Aqui, uma distinção importante: o amor romântico é imperfeito por definição. Sua primeira imperfeição está na restrição que ele impõe à maioria das pessoas. O amor romântico exige fidelidade e exclusividade, valores que invariavelmente redundam em sentimento de posse, ciúme e frustração. O amor romântico traz em si e pela sua própria definição, os germes de sua ruína. Claro que isso não significa muito, porque as pessoas continuam a se unir e a se separar independentemente da tendência que o amor romântico tem para o fracasso ou para o sucesso.

Na verdade o amor romântico, embora não seja apenas filos — o que poderia fazer dele uma ciência –, está muito longe de ser agape. Algumas pessoas associam-no a uma terceira forma de amor: eros, o amor que ocorre entre duas pessoas. Isolada numa definição, no entanto, eros, isto é, o amor romântico perde aquele que considero seu sentido fundamental.

O amor romântico é filos, no sentido antes mencionado: o amor — qualquer tipo de amor, mesmo os mais simplórios — pressupõem interesse, atenção, observação, de forma muito semelhante à dos cientistas e seus objetos de estudo. Sob um prisma muito específico, ama-se o parceiro como se ama um carro, uma roupa ou um gato.

O amor romântico também é eros, pois une duas pessoas com claras intenções românticas e sexuais. Existe um interesse mútuo de estar junto, de se conhecer e investigar personalidades e corpos. Quando esse interesse concentra-se em uma pessoa, forma-se uma relação bilateral que é a própria definição de eros.

E agape?

Como forma superior de amor — isto é, como Amor — agape não exclui as formas anteriores, mas as reúne em si, completando-as com outras virtudes. O Amor é uma forma de ascese. Pode-se dizer que é através de eros que filos torna-se agape. Em outras palavras: uma pessoa descobre o amor através do mundo material, apega-se a ele pelo gosto (originalmente, por exemplo, o amor do bebê por sua mãe é um sentimento muito atrelado à capacidade dela fornecer-lhe alimento e proteção); em seguida ela desenvolve esse amor percebendo sua imaterialidade e sua amplidão, experimenta momentos de elevação com a pessoa amada e inclusive pode encontrar semelhanças entre o amor divino e o amor que sente por sua amada; finalmente, se a percepção da amplitude for devidamente desenvolvida, o amor diviniza-se.

Poucas pessoas chegam a essa realização através do amor. A maioria estaciona em eros — daí a preponderância do binômio união/sexo – separação/conflito –; muitos não avançam além de filos, reificando seus parceiros. Não surpreende que o amor seja encarado como um jogo: humanamente, ele é assim. Mas o Amor não é algo para pessoas comuns. Se você é uma pessoa comum, continue com jogos, empresas, entidades e namoricos: o casamento moderno é assim, um insulto ao Amor. O Amor — o verdadeiro amor — é tão maravilhoso quanto as pessoas que se decidem pela união com consciência plena e profunda do que esse sentimento (essa virtude) significa.

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2 comentários sobre “Amor: como e por quê

  1. O amor é tão flexível quanto no sentimento como na própria palavra. Ora como substantivo, ora como verbo e também como advérbio. Esta flexibilidade traduz a nossa inconstância na emoção, confundindo o grau de sentimento se está na razão ou no coração. A sensação de bem estar ao lado de uma pessoa é um amor agradável, deleite, não importando a intensidade do pulsar desta emoção, se estamos no grau filo, eros ou talvez a caminho do agape. Somente o tempo decifrará conforme o momento incitado.

    * Parabéns, gostei muito dos seus textos.

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