Vida profissional

Certos tipos de profissionais ganhariam muito mais destaque e renda se se abstivessem de exercer suas profissões da forma tradicional. Eu, por exemplo, embora formado em arquitetura, vejo que, por razões que não vem ao caso expor, sou muito mais útil à Arquitetura se eu me mantiver longe dela. Digo isso não por uma incompetência inata para algo a que me dediquei por cinco anos universitários, mas por reconhecer nela — Arquitetura — e em mim mais diferenças do que semelhanças. À distância essas diferenças serão úteis, por exemplo, ao exercício do ensino e da pesquisa, mas são nocivas, é fácil perceber, ao projeto e à construção de obras.

Esse tipo de auto-exame profissional deveria ser realizado por todas as pessoas, mesmo trabalhadores braçais ou simples auxiliares em atividades burocráticas. Resta saber se estas pessoas terão essa capacidade de reflexão, já que ela raramente é encontrada naqueles em que o auto-exame é parte inerente do exercício profissional.

Tenho algumas reservas às iniciativas de se regular o exercício de determinadas profissões. Na Holanda, por exemplo, o exercício da arquitetura não é privilégio apenas de sujeitos graduados, mas de qualquer cidadão que demonstre ser digno dele ao cumprir todas as exigências legais para o projeto e execução de uma obra. Lá, o autodidata tem a chance de ser algo mais do que um diletante e não é hostilizado por profissionais graduados.

Apesar deste exemplo e de minhas reservas, as exigências de graduação e formação mínima poderiam beneficiar certas áreas hoje tradicionalmente ocupadas por autodidatas, para as quais não existe escola nem diploma. Refiro-me à política, às artes e às atividades intelectuais. Nestas áreas a exigência de auto-exame é proporcional à naturalidade com que seus profissionais se eximem dela. Diante disso é que penso — confesso que não sei através de que meios — ser necessário exigir de políticos, artistas e intelectuais um mínimo de formação, um mínimo de respeito e amor por aquilo que lhes é superior.

Ao artista cabe o respeito e o amor pela arte e pelos mestres que a tornaram possível. Todo artistas sério sabe que há um legado a ser mantido. Mesmo o mais abstrato dos escultores sabe que deve muito a um Fídias, a um Michelangelo; ele tenta ser hoje aquilo que estes mestres são para a escultura há alguns séculos. Todo artista sério tem o desejo despretensioso de entrar para a história, mesmo que postumamente.

(Seria interessante solicitar que os diretores de teledramaturgia tivessem por suas novelas o mesmo apreço e fineza que Shakespeare tinha por suas peças. Mas deixo esse exercício de imaginação para outra hora.)

Ao político cabe o respeito e o amor pela política. Aqui as coisas ficam mais difíceis, pois trata-se de área marcada não pelo romantismo e pelo glamour — como nas artes –, mas pela pecha de sem-vergonhice, de corrupção e crime obscuro contra a sociedade. O político decidido a nutrir-se com as lições de Aristóteles e de Bacon esbarra não apenas em seu próprio obscurantismo, como no caso dos artistas, mas também em seus próprios colegas e na sociedade. Esta por uma questão de preconceito, tem a expectativa de que o político seja corrupto e ao mesmo tempo deseja que ele seja um benfeitor. Políticos são um obstáculo uns aos outros porquanto exigem de seus colegas o mesmo tipo de diplomacia cínica que se tornou regra em alguns setores do legislativo e do executivo.

Ao intelectual cabe o respeito e o amor pelo conhecimento, pela busca da verdade, pela filosofia (todo filósofo é um intelectual, mas nem todo intelectual é um filósofo). O exercício da razão não é algo que se aprende na universidade, mas no exame íntimo daquilo que foi assimilado nela e fora dela. É nesse exame que se baseia a atividade do intelectual sério, embora a maioria prostre-se diante das palavras, idéias e debates da moda. Não percebem estas pessoas que Sócrates, Platão e Aristóteles se agitam em suas tumbas cada vez que a razão é utilizada para defender ideologias genocidas, para reparar injustiças sociais, enfim, com o propósito inocente e benfazejo de melhorar o mundo. Pois a obrigação primeira de um intelectual é compreender o mundo, não transformá-lo.

Ao artista, ao político e ao intelectual que constituem uma ofensa às suas respectivas áreas do conhecimento, cabe um exercício de humildade.

Primeiro, reconhecer aqueles que vieram antes dele — idéia que ecoa o significado da palavra japonesa para mestre: sensei, aquele que nasceu antes –, reconhecer que a roda foi inventada há muito tempo. Só isso já coloca o profissional em seu devido lugar.

Segundo, reconhecer o que é bom e o que é ruim, o que deve ser continuado e o que deve ser jogado no lixo, isto é, reconhecer o legado que se pretende seguir. Nas artes, isso significa conhecer, admirar e respeitar as obras (não apenas nas palavras, mas principalmente nos atos) de Bach, Beethoven e Mozart, Michelangelo, Da Vinci, Fídias e Boticelli, Homero, Shakespeare e Cervantes, Vitrúvio e Brunelleschi. Na política e na filosofia, poderíamos mencionar Aristóteles, Bacon, Espinosa e Confúcio.

Terceiro, reconhecer entre seus contemporâneos aqueles que de fato honram suas respectivas áreas e por que. Com esse reconhecimento torna-se mais fácil perceber o que são as artes, a política e a filosofia, já que existe nestes casos a chance de estar diante de obras atuais, isto é, de manifestações artísticas, políticas e filosóficas. Posso mencionar artistas como Egberto Gismonti, André Geraissati e Bruno Tolentino; filósofos como Olavo de Carvalho, Mário Ferreira dos Santos e Miguel Reale; e políticos como Roberto Campos.

Estes três itens podem ser reunidos num só, cujas dúvidas que pode suscitar são esclarecidas pelo uso das letras maiúsculas: as Artes sempre serão maiores que qualquer artista; a Política maior que qualquer político; a Filosofia maior que qualquer filósofo, pensador ou intelectual.

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