Breve manual para críticos

Você, sujeito educado e esclarecido, costuma basear suas críticas em argumentos racionais, tem a tendência de construir suas idéias com base no estudo, na investigação e no sincero desejo de que a verdade prevaleça, independentemente do lado em que você estiver. Críticos sérios são assim. São chatos, porque estudam e quase sempre têm razão, e porque se encarregaram da triste tarefa de criticar as ruindades que às vezes só eles percebem.

Por isso, com impressionante freqüência as pessoas criticadas voltam-se contra os críticos, não contra as críticas. Para a maioria dos criticados é muito difícil derrubar uma crítica. Às vezes porque elas são inabaláveis, às vezes porque os críticos vêem coisas que os criticados não vêem. Em ambos os casos, o criticado preferirá combater o crítico em vez de combater a crítica — é mais fácil silenciar um crítico, seja pela força de um processo judicial ou pela força física, do que lidar com suas palavras.

Combater um crítico é fácil. Críticos são pessoas solitárias. Os criticados quase sempre vivem protegidos por uma classe, escondidos sob o nome de uma instituição, rodeados de pessoas semelhantes a ele, prontas a tomar-lhe as dores e sair em sua ajuda. Uma crítica descuidada pode tornar o criticado uma espécie de mártir para toda uma classe de pessoas, que rapidamente apedrejarão — moral ou fisicamente — o crítico. Existe, entre essas pessoas, um sentimento de unidade que é ativado tão logo uma delas receba qualquer crítica.

A não ser que o crítico decida mudar seu manifesto, não há qualquer chance de fazer o criticado receber a crítica, reconhecê-la e lidar com ela, o que invariavelmente traz benefícios para os dois lados. No fundo, todo crítico sério busca o aperfeiçoamento da realidade, nada além disso. É sua missão emitir opiniões a respeito do trabalho de diversas pessoas, empresas, instituições e obras para que estas se tornem melhores. Num mundo ideal não existem críticos — como não existem advogados e médicos, por exemplo. Tente imaginar um médico que não diz a doença que seu paciente tem ou um advogado que simplesmente cruza os braços porque acredita que seu cliente está do lado da lei.

Uma falha comum aos críticos sérios é a incapacidade de lidar com pessoas notadamente ignorantes. Uma crítica bem fundamentada, construtiva, lógica e sincera é uma bênção. Como toda bênção, é necessário ter algum preparo para recebê-la, uma boa dose de fé naquilo que o crítico está dizendo e permitir-se dialogar com ele, conhecer suas razões, ter certeza daquilo que o sujeito está tentando dizer.

Acontece que quem recebe uma crítica raramente age dessa forma. As reações mais comuns diante de uma crítica negativa são: irritação (a falta de controle ao sentir o ego ferido), negação (a recusa da crítica) e agressão (tirar o crítico de circulação). Num mundo ideal (ah, o mundo ideal…), as primeira reações do criticado seriam a observação e o estudo; em seguida, a elaboração de idéias e a expressão de réplicas — tudo com base em raciocínio e argumentos lógicos.

Para evitar essa seqüência de reações, que invariavelmente jogam o crítico no limbo, é necessário mudar a forma de se expressar. Tenho observado que poucas pessoas têm a coragem de dizer, diretamente, que determinada coisa é muito ruim. Na verdade, as maiores falhas dos bons críticos são o excesso de erudição e a superestimação dos criticados. Muitas vezes os criticados não valem uma moeda, tampouco o rosário de filosofia que os críticos lhe dedicam. Assim, uma crítica eficaz pode ser escrita “é uma merda”, que condiz com a capacidade de compreensão da maioria das pessoas que merecem uma crítica.

Alguns torcerão o nariz para o palavrão, dirão que se trata de uma vulgaridade desnecessária. Eu respondo que um palavrão pode ser um bom prefácio a uma conversação mais elaborada.

Imagine-se lançando um livro. Dois críticos vêm até você. O primeiro diz, em tom amistoso e sem qualquer traço de rancor ou sarcasmo: “Seu livro é uma merda”. O segundo diz: “Há um autor inglês do início do século XX que me lembra seu modo de escrever, ele não era exatamente genial, mas ecoava algumas idéias de Voltaire…”. No primeiro caso, sinto vontade de perguntar “por que?”. No segundo caso, sinto vontade de dormir.

O exercício da informalidade — que pode ser expressa num palavrão — ajuda a aproximar o crítico do criticado. Qualquer pessoa entenderá a frase “isso é uma merda”; somente um troglodita digno de apodrecer numa jaula reagirá com violência a uma frase dessas, desde que dita com surpreendente cortesia e sinceridade. Uma frase curta e direta é um bom início para uma conversa; ela pode ser o primeiro passo para uma conversa civilizada ou um apelo ao último traço de sensatez que jaz na alma do criticado.

A crítica ideal é algo para duas pessoas, não para uma legião de leitores e espectadores famintos por duelos. A crítica ideal torna as pessoas melhores: o crítico aperfeiçoará seu modo de se expressar; o criticado verá coisas que ele não viu antes e aperfeiçoará seu trabalho e sua obra.

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