O q_e _stá es_r_to aq_i?

Preste atenção ao título deste texto. Leia-o com atenção. Você pode pensar 1) que está escrito “O que está escrito aqui?”, já que os espaços vazios correspondem ao número e às posições das letras que faltam para que a frase tenha sentido. Ou 2) você pode pensar que se trata de uma seqüência de letras e traços sem sentido.

Olhe novamente o título: o que parece mais próximo da realidade? A primeira ou a segunda opção? A realidade está lá em cima: 14 letras, 5 traços e um ponto de interrogação. A única peculiaridade destes símbolos é que eles estão dispostos de modo a induzir a mente a “ver”outra coisa. Do modo como estão dispostos, estes símbolos induzem a mente a completá-los com outros símbolos para que surja uma frase, isto é, uma seqüência organizada de símbolos que fornece um significado que é diferente da simples soma dos símbolos originais. Mas essa complementação é apenas a interferência da mente sobre a realidade concreta.

Alguns podem argumentar que a realidade é feita da soma da realidade concreta e da realidade mental — aquilo que percebemos da realidade concreta. O objeto emite estímulos sensoriais (a luz refletida, a textura da superfície, o cheiro etc.) e o observador as interpreta conforme as capacidades de seus sentidos. De um modo geral essa interpretação não causa problemas — como na seqüência de letras do título –, mas se a interpretação e a realidade concreta são muito dissonantes ou, ainda, se a realidade concreta é construída para induzir uma interpretação específica (como no caso do título), os problemas começam a surgir.

Um exemplo simples de problemas desse tipo é a ilusão de óptica, mas neste caso a ilusão é proposta como jogo ou brincadeira — como no livro “Olho Mágico”, que tinha como pior conseqüência o cansaço da vista. As coisas ficam sérias quando a informação transmitida tem implicações filosóficas, ideológicas ou morais.

O referendo sobre o desarmamento pode ser visto sob o prisma dessa discussão. A pergunta proposta pelo referendo é um exemplo de ilusão — neste caso não óptica, mas semântica. “O comércio de armas e munições deve ser proibido no Brasil?”. A pergunta é clara, mas, assim como os espaços vazios do título deste texto, o “espaço vazio” da pergunta do referendo induz o eleitor numa direção específica.

Em 2003 o Governo Federal aprovou a Lei do Desarmamento. Em seguida iniciou uma campanha maciça nesse sentido, estimulando o cidadão comum a entregar sua arma. Foram cerca de três anos de campanha oficial pelo desarmamento — bancada com dinheiro público. Agora, às vésperas do referendo, o Governo Federal silencia sobre o assunto, tentando convencer o eleitor de sua imparcialidade. A mensagem, contudo, já foi transmitida e absorvida e, depois de três anos de campanha pelo desarmamento, quem quer que responda “não” à pergunta do referendo sentir-se-á o mais cruel dos armamentistas. Para muitos eleitores, ser contra a proibição das armas é o mesmo que ser a favor do uso delas. Neste caso a frase também induz a uma interpretação errônea que 20 ou 30 segundos de raciocínio lógico poderiam desfazer.

A maioria das idéias universalmente aceitas sofre do mesmo problema: são elas induções executadas maliciosamente por trapaceiros intelectuais e distribuídas diariamente pelos periódicos.

Os EUA são nação arrogante e imperialista. George Bush é nazista e assassino. Fidel Castro é o último baluarte do bom-mocismo governamental; Cuba possui uma das medicinas mais avançadas do mundo. Brasil, um país de todos. A direita e o capitalismo são inevitavelmente ruins e opressores. O socialismo e a esquerda são naturalmente bons; esse PT que este aí não é a verdadeira esquerda.

Todas estas afirmações induzem a interpretações específicas — quando não as oferecem diretamente. Todas se baseiam no funcionamento linear da mente. Ela é modelada desde a infância para funcionar desta forma. Acostumamo-nos a decorar tabuadas, a ter a certeza de que 2+2=4 entre tantas outras. Absorvemos e cristalizamos a idéia de que causa e efeito andam sempre juntos e em fila. Mas se a linearidade é uma forma de agilizar o raciocínio, às vezes a pressa pode pregar peças.

Vale lembrar a história dos homens de olhos vendados que tocaram partes diferentes de um elefante. O primeiro tocou a tromba; disse que era uma grande serpente. O segundo tateou a orelha e imaginou a grande folha de uma planta exótica. O terceiro pôs as mãos nas patas e disse que estava diante do grande tronco de uma árvore. O quarto homem, diante da rigidez e a aspereza da pele do elefante, disse que se tratava de uma parede rústica. Os testemunhos correspondiam à realidade, não havia problemas nisso. Havia no entanto dois problemas: primeiro, cada homem poderia ter a percepção do animal completo, para isso bastaria tirar a venda ou tateá-lo mais um pouco; segundo, as percepções de cada homem somadas poderiam fazê-los perceber que se tratava de um elefante.

O mundo tem sido uma fábrica de homens vendados, ou um grande causador de miopia. A visão perfeita não significa enxergar a realidade sempre — dizem que ela não pode ser percebida, mas no máximo sentida. A visão perfeita consiste em buscar sempre novos ângulos ao observar as coisas mais corriqueiras. Não se trata de buscar sempre interpretações complexas daquilo que observamos, mas de perceber que a realidade pode ser mais simples quando a cremos complexa e mais complexa quando a cremos simples.

O que o observador entende como realidade é apenas um fragmento da realidade. Ela é sempre maior do que os sentidos gostariam que fosse. Mais do que substituir a realidade parcial ou imediata (sinestésica e intelectual), é necessário buscar uma representação mais completa da realidade. Não para que se a obtenha — porque é muito provável que essa nova “realidade absoluta” não seja muito diferente das realidades parciais que lhe deram lugar –, mas para que possamos nos afastar do erro. Na verdade a importância da percepção correta está em manter o erro distante. A qualidade e o acerto são coisas que surgem naturalmente quando a visão é perfeita e as impurezas foram eliminadas.

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