A função social dos mendigos

Christian Rocha
3 de Janeiro de 2003

Dia após dia lá está ele, sob sol forte ou chuva fina, numa silenciosa espera pela bondade alheia. Sempre na mesma esquina da av. Paulista, o anônimo de braços atrofiados passa o dia sentado num pedaço de papelão colhendo cédulas amassadas e punhados de moedas dos transeuntes engravatados que, mesmo transpirando sob várias camadas de roupa, ainda são capazes de olhar além de seu círculo restrito de amizades bem-sucedidas.

Olhei com atenção as feições do mendigo, com mais atenção que minha hipocrisia normalmente permite olhar. Não vi nada que não veria em outros homens, seja um estudante, um executivo, um motorista, um vendedor. Vi a mesma harmonia entre angústia e esperança que toma conta de 99% das almas deste planeta. No entanto, ele está lá, sentado numa calçada, enquanto a maioria das pessoas caminha incessantemente do nada para o nada. Provavelmente está lá agora, uma sexta-feira de verão, calor de 35º, à espera não apenas das moedas, mas também da sombra dos edifícios da Paulista.

O que o torna diferente? Sua aparência estóica? Sua paciência búdica? Há nesse homem um valor desconhecido, ou pouco reconhecido.

Quanto vale a paz de espírito? Quanto um cidadão perturbado por dilemas morais pagaria para ter um travesseiro silencioso e uma noite de sono tranqüilo? Dez reais? Cinqüenta reais? Quanto vale a sensação de dever cumprido, de ter feito uma boa ação?

Nenhuma dessas perguntas não teria o menor sentido se não vivêssemos numa sociedade tão profundamente mergulhada na hipocrisia. Somente cidadãos hipócritas poderiam pensar na filantropia em benefício próprio: dou-lhe esmola, recebo paz em troca; sou bonzinho, ganho em troca a certeza de não ser amaldiçoado pelos excluídos e a liberdade de conduzir minha vida como bem entender. Diante disso, qual seria a função social dos mendigos? Imaginá-los como profissionais, assim como arquitetos, locutores e açougueiros, pode sugerir respostas a essa pergunta.

Assim como outras atividades, a mendicância oferece ganhos e implica trocas. Mendigos são profissionais da miséria, da esperança e da fé. Seu trabalho resume-se a estar lá, num lugar onde circulam muitas pessoas, a resistir às intempéries e a pedir, esperar pacientemente pelo fiapo de bondade que ainda existe por aí. Há nisso três funções sociais. A primeira função é simbólica: encarnando a miséria humana, trazendo para perto dos bem-sucedidos a parcela de miséria que faz parte do mundo contemporâneo, os mendigos mantém viva a imagem de um mundo imperfeito, desejoso de mudanças, à espera de soluções imediatas, rápidas e perfeitas.

A segunda função social dos mendigos é estimular a bondade dos indivíduos; nesse sentido são profissionais mais eficazes do que padres ou voluntários de ONGs. Esse estímulo, como se disse, pode sair pela culatra, ao permitir ao cidadão aquela paz entorpecente que liberta e dê asas ao consumismo. Mas também pode curar, ou indicar a cura para parte dos males deste mundo ao mostrar uma verdade simples: tudo está ao alcance dos nossos dedos, tudo pode ser resolvido — em maior ou menor grau — na escala do indivíduo. O primeiro passo para a solução da miséria está em dobrar os joelhos, em descer, em experimentar e assistir (no sentido de ver e ajudar) de perto aquele que lhe pede ajuda, pois um pedido de ajuda define uma hierarquia. O segundo passo é mental: saber que uma vez dada a ajuda, ela já não é mais sua, e pouco importa qual o destino que ela tomou — um exercício de desapego e bondade simples.

A terceira função social dos mendigos é impedir o exílio dos miseráveis. Sobretudo nos centros das grandes cidades, soam como aberrações as leis que tentam banir os mendigos das calçadas, num exercício estético de tirania urbanista. O direito à circulação, o acesso às ruas, o contato, a mistura, por mais incômodos ou perigosos que possam ser para algumas pessoas, deve ser preservado, dada sua consagração histórica. A cidade, antes de tudo, é um palco, um lugar de encontro e interação. Ainda que o lado cruel da desigualdade prevaleça sobre seu lado interessante e criativo, todos somos atores muito antes de nos limitarmos a papéis pré-definidos. A livre circulação pelas ruas da cidade é um direito sagrado e a presença de mendigos, além de mostrar as falhas da sociedade, mostra que esse direito está sendo respeitado.

Por mais que se tente limitar a miséria a guetos e conjuntos habitacionais e restringir seu acesso a shopping centers e outros locais “de público seleto”, ela sempre encontra meios de sobreviver, de se misturar, de se incluir e de contornar a exclusão. Às vezes ela pode ser violenta, como nas grandes cidades. Às vezes ela pode ser civilizada, como nas cidades menores. A nós cabe deixar a hipocrisia de lado e lembrar de Cristo — que não teria sido Cristo sem caridade — e de Buda — que não teria sido Buda se não tivesse se livrado da vida de príncipe.

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