Feiúra institucionalizada

Jornal da Ilha
março de 2006

Já faz alguns meses que tenho preferido passar à noite pela avenida Princesa Isabel. É uma forma de não ver direito o novo Fórum de Ilhabela, que, embora ainda não tenha sido inaugurado, já disse a que veio com suas insuportavelmente grandes paredes brancas. Se a intenção dos responsáveis pelo projeto era fazer uma alegoria à Caixa de Pandora, eles conseguiram. A diferença é que a Caixa de Pandora trazia as maldições em seu interior. O novo Fórum amaldiçoa a cidade sem precisar levar ninguém lá dentro. De um só golpe o prédio conseguiu alinhar-se à tendência moderna de construir caixotes geometricamente perfeitos e ao vício paulista de urbanizar as margens dos rios.

É claro que a arquitetura não tem tantos poderes; falar em maldição pode ser um exagero. Uma única obra é muito menos influente do que uma canetada de um político importante — aliás, as obras mais importantes só começam com canetadas. Mas a ausência de planejamento urbano e o descaso arquitetônico são como brincadeiras maldosas para o frágil equilíbrio ambiental desta cidade. Difícil não ver relação entre a poluição das praias, a ocupação desordenada e a presença de um caixote oficial às margens de um rio importante para Ilhabela — hoje bastante poluído. Se um Fórum, símbolo cívico importante, comete tamanha gafe ambiental, o que esperar de uma construção comum, que pretende apenas ser um teto de uma simples família? Que inspiração o Fórum representará para arquitetos e construtores que nos próximos anos construirão em Ilhabela e que assim a construirão? Qual a mensagem que o grande caixote branco transmite? Que espécie de relação entre homem e natureza o novo Fórum propõe?

Estas perguntas podem não ter qualquer importância se considerarmos os outros problemas que afetam a cidade. Mas quando o poder público erra, os cidadãos são levados a crer que o erro é uma regra — não este ou aquele erro, mas todos. O raciocínio é simples: se tal político é ladrão, não há nenhum problema eu dar uma sonegadinha aqui, não é? Se o judiciário construiu um monstrengo, por que eu não posso derrubar umas duas ou três árvores centenárias para construir minha casa de quatro cômodos? E assim chafurda a humanidade.

Talvez eu esteja sendo injusto porque o novo Fórum ainda não foi inaugurado. Ainda dá tempo de esconder o prédio com ipês, jacarandás, jequitibás e outras árvores nativas, sem falar na opção de cobrir suas insuportavelmente grandes paredes brancas com hera sim –aquela trepadeira muito usada em muros. A sugestão foi dada de forma muito singela com a pichação que um manifestante anônimo resolveu deixar numa das muralhas do novo Fórum. Ela já foi apagada, é claro, mas felizmente tive tempo de registrá-la para reproduzi-la nesta coluna. Fica o registro e a idéia para quem quiser aproveitá-la.

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Perguntar não ofende: quanto a Prefeitura cobra pelo alvará das barraquinhas que vendem CDs e DVDs piratas na Vila, todas as manhãs de sábado?

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Vende-se barraco com dois cômodos em bairro tradicional de Ilhabela. Excelentes acomodações para até seis famílias. Sólidas paredes de tijolo baiano mal assentado e madeirite, telhado de brasilit com poucos furos, área de serviço coletiva a céu aberto composta de um tanque de concreto e uma fossa negra. Valioso imóvel em área de reserva; só deslizou duas vezes até hoje. Vista para o mar de piscinas do bairro chique logo ao lado. Fácil acesso às principais rotas de fuga. Preços especiais para quem comprovar ausência de vínculos empregatícios com Ilhabela ou dispuser de um tresoitão como entrada. Exclusividade da Imobiliária Zé Ninguém.

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