Ilhabela tem oposição séria

Jornal do Arquipélago
Março de 2006

Um dia depois de ter se livrado do processo que tentava cassar-lhe o mandato, o prefeito Manoel Marcos disse em entrevista a um jornal da região que Ilhabela não tem oposição séria. A julgar pelos rumos que a política tem tomado nos últimos anos, não há como discordar do que ele disse. Se eu tivesse a oposição que o prefeito teve, teria dispensado defensores. Em Ilhabela, quando um político de oposição quer convencer os outros de que estuda, de que está por dentro do que é política séria, ele cita Maquiavel, sem perceber que se trata de um dos maiores parodistas da teoria política. Se quisessem mesmo estudar, se quisessem mesmo arrotar cultura para os eleitores, esses sujeitos leriam Aristóteles, Cícero, Platão, Spinoza. Não Maquiavel.

Cheguei a escrever sobre isso em um de meus blogs (ilhabela.blogspot.com) e também em outro jornal da cidade, convencido de que a oposição em Ilhabela resumia-se àquilo que o prefeito havia declarado: uma oposição meia-boca, que tinha como missão apedrejar quem está no topo, ser do contra e amaldiçoar cada ato alheio. Mas eu me enganei. Felizmente. Ilhabela tem oposição séria.

O que é oposição séria? A oposição séria, tal como a entendo, funciona mais ou menos como o ombudsman. O ombudsman é um sujeito muito comum nos grandes jornais impressos. Trata-se daquele sujeito que joga no mesmo time do jornal, mas está lá para ouvir os leitores sobre as mancadas que o jornal deu e — last but not least — fazer uma leitura crítica das edições mais recentes, ora apontando os erros, ora os acertos. O ombudsman, que às vezes é chamado de ouvidor, está presente também em hipermercados, indústrias e órgãos públicos. Ele é o responsável pelo semancol de uma empresa ou instituição.

Num município, essa função normalmente é cumprida pela Câmara Municipal. Se cabe à Prefeitura pôr a mão na massa, à Câmara cabe não apenas fazer leis, mas também fiscalizar a Prefeitura para que as leis sejam devidamente aplicadas. Essa fiscalização acontece de diversas formas. Uma delas é, como se costuma dizer, colocando a boca no trombone, atuando como um ombudsman, sempre observador e crítico. E uma das bases da boa democracia é o duelo cavalheiresco entre prefeito e vereadores, em que os maiores vencedores são os cidadãos. O problema surge quando a Câmara não cumpre esse papel. Mas eu me referia à oposição séria.

Existe oposição séria em Ilhabela, ainda que ela não seja ativa e falante como um ombudsman. Dias atrás, por exemplo, conversei com um grande amigo que, além de ter feito análises brilhantes sobre a condição política e cultural da cidade, ainda me deu uma aula de sabedoria e elegância. A política, disse ele, não está nas sessões de Câmara, muito menos nos buzinaços e nos foguetórios, mas no caráter de quem trabalha por esta cidade. Ter cárater, ele continuou, não é ter um projeto para Ilhabela, mas antes ter valores, que jamais convivem com as exaltações eufóricas ou furiosas tão comuns àqueles que fazem a política local. Dito isto, compreendi o silêncio de meu interlocutor diante das picuinhas ilhabelenses e percebi que ele era um verdadeiro representante da oposição séria que o prefeito acredita não existir. Pensando bem, é melhor que ele continue a acreditar nisso.

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