Sobre o jornalismo

Henry Louis Mencken (1880-1956)
Extraído de “O livro dos insultos de H. L. Mencken”, Companhia das
Letras, seleção, tradução e prefácio de Ruy Castro

Explicação preliminar: Em 1920, Mencken fez picadinho do livro de Upton Sinclair, The Brass Check, em que o autor denunciava o caráter marrom da imprensa americana e defendia o levantamento de 1,3 milhão de dólares para a criação de um semanário devotado “à verdade, a toda a verdade e nada mais que a verdade”. Um conselho de mentes infalíveis seria criado para determinar a verdade. Mencken se diverte imaginando como reagiriam os nomes apontados por Sinclair diante de situações que exigiriam um repórter de verdade — Sinclair chega a sugerir a contratação de um professor da Universidade de Washington para cobrir distúrbios de rua na capital… Em seguida, fingindo apoiar as idéias do autor, Mencken dá a sua visão sardônica e feroz do jornalismo nos Estados Unidos. (N.T)

I

Vamos a Sinclair, o incurável romântico, que acredita por atacado em tudo que não merece crédito. O homem me delicia constantemente. Sua fé na sabedoria dos imbecis, na virtude dos desonestos, no sublime idealismo dos sórdidos — tudo isto é comovente. Não conheço ninguém neste vasto paraíso de credulidade que dê um crédito mais firme e heróico a tudo que é intrinsecamente absurdo. Mas fico por aqui em meu desprezo por ele. Deixando barato a sua falta de humor, sua crônica indignação moral, sua credulidade estranhamente distorcida, sua hipertrofiada confiança em Deus, deve ficar claro para qualquer observador competente que, em The Brass Check, ele conseguiu escrever algo muito interessante, uma crônica picaresca da maior qualidade e tudo que ele aponta como um fato é, na maioria das vezes, inegavelmente verdade. Os jornais irão denunciá-lo como um mentiroso pago em rublos, os leigos suspeitarão de que ele exagerou grosseiramente e, no final, Sinclair poderá amargar alguns desagradáveis
processos.

Mas, se meu testemunho ainda valer alguma coisa sobre as regras americanas (e. g., que a dedução de um detetive do governo vale mais do que o depoimento jurado de uma testemunha ocular; que qualquer homem que leia um panfleto seja suspeito de estar planejando derrubar a Constituição pela força; e que é uma prova de culpa quando um acusado exige um advogado e pede para ser acareado com seus acusadores), então ofereço com prazer este testemunho em sua causa. Tenho trabalhado constantemente como jornalista desde 1899. Já passei por todos os cargos editoriais que os jornais têm a oferecer, de crítico de teatro até diretor de redação. Mais ainda, não tenho rancores a remoer. Sempre me pagaram o que eu valia. Nunca fui despedido nem acusado de ser um idealista e estou, neste momento, nas melhores relações com todos os jornais que já tiveram alguma coisa a ver comigo. O que desejo dizer é simplesmente o seguinte: pelo que sei e acredito, o jornal americano médio, mesmo os supostamente de primeira linha, é não apenas ruim como diz o dr. Sinclair, mas dez vezes pior — dez vezes mais ignorante, dez vezes mais injusto e tirânico, dez vezes mais complacente e pusilânime, e dez vezes mais sinuoso, hipócrita, velhaco, enganador, farisaico, tartufista, raudulento, safado, escorregadio, inescrupoloso, pérfido, indigno e desonesto.

Que pena, que pena! Infelizmente, faltam-me palavras. O jornal americano médio, especialmente o chamado de primeira linha, tem a inteligência de um pastor batista, a coragem de um camundongo, a retidão de um palpavo pró-Proibição, a informação de um porteiro de ginásio, o bom gosto de um criador de flores artificiais e a honra de um advogado de porta de cadeia. Se me pedirem para apontar cinco jornais que estejam claramente acima desta média — se me desafiarem a relacionar cinco jornais que sejam dirigidos de forma tão inteligente, justa, corajosa, decente e honesta como uma fábrica média de pregos, uma empresa de crédito imobiliário ou um negócio de importação de arenques –, levarei dois ou três dias para fazer
a lista. E, quando ele estiver pronta e for lida pelo meirinho no tribunal, haverá um rumor de risadinhas abafadas à menção de quase todos eles. Estas risadinhas virão de jornalistas que devem saber um pouco mais do que eu sobre o assunto.

II

O que aflige primeiramente os jornais dos Estados Unidos — e aflige também o esquema regenerador do dr. Sinclair — é o fato de que o gigantesco desenvolvimento comercial destes jornais os obriga a atingir massas cada vez maiores de homens indiferenciados, e o de que a verdade é uma mercadoria que estas massas não podem ser induzidas a comprar. As causas disto estão enraizadas na psicologia do Homo boobus, ou homem inferior — ou seja, do cidadão normal, típico e predominante de uma sociedade democrática. Este homem, apesar de uma aparência superficial de inteligência, é, na realidade, incapaz de qualquer coisas que possa ser descrita como raciocínio. As idéias que lhe entopem a cabeça são formuladas por um processo de mera emoção. Como todos os outros mamíferos superiores, ele tem sentimentos muito intensos, mas, também como eles, falta-lhe capacidade de julgamento. O que o agrada mais no departamento de idéias — e, daí, o que ele tende a aceitar mais como verdadeiro — é apenas o que satisfaz os seus anseios principais. Por exemplo, anseios por segurança física, tranqüilidade mental e subsistência farta e regular. Em outras palavras, o que ele exige das idéias é o mesmo que exige das instituições — ou seja, que o deixem livre da dúvida, do perigo e daquilo que Nietzche chamou de os acasos do labirinto. Acima de tudo livre do MEDO, aquela emoção básica de todas as criaturas inferiores em todos os tempos e lugares. Por isto este homem é geralmente religioso, porque a espécie de religião que conhece é apenas um vasto esquema para aliviá-lo da luta vã e penosa contra os mistérios do universo. E por isto ele é
também um democrata, porque a democracia é um esquema para protegê-lo contra a exploração dos seus superiores em força e sagacidade. E é também por isto que, na miscelânea de suas reações às idéias, ele abraça invariavelmente aquelas que lhe parecem mais simples, mais familiares, mais confortáveis — que se ajustam mais prontamente às suas emoções fundamentais e lhe exigem menos agilidade, resolução ou engenhosidade intelectuais. Em suma, ele é uma besta.

O problema com que se depara um jornal moderno, pressionado pela necessidade de se manter como um negócio lucrativo, é o de conquistar o interesse deste homem inferior — e, por interesse, não me refiro naturalmente à sua mera atenção passiva, mas à sua ativa cooperação emocional. Se um jornal não consegue inflamar seus sentimentos é melhor desistir de vez, porque estes sentimentos são a parte essencial do leitor e é deles que este draga as suas obscuras lealdades e aversões. Bem, e como atiçar os seus sentimentos? No fundo, é bastante simples. Primeiro, amedronte-o — e depois tranqüilize-o. Faça-o assustar-se com um bicho-tutu e corra para salvá-lo, usando um cassetete de jornal para matar o monstro. Ou seja, primeiro, engane-o — e depois engane-o de novo. Esta, em substância, é toda a teoria e prática de arte do jornalismo nos Estados Unidos. Se nossas gazetas levam a sério algum negócio, é o negócio de tirar da focinheira e exibir novos e terríveis horrores, atrocidades, calamidades iminentes, tiranias, vilanias, barbaridades, perigos mortais, armadilhas, violências, catástrofes — e, então, magnificamente superá-los e resolvê-los. Esta primeira parte é muito fácil. Não se sabe de nenhum caso em que a massa tenha deixado de acreditar num novo papão. Assim que o horrendo bicho tira os véus, ela começa a se agitar e gemer: seu reservatório de medos primários está sempre pronto a transbordar.

A segunda parte não é muito mais difícil. O que se exige do remédio é que ele seja simples, mais ou menos familiar, fácil de compreender — que não representa uma provação para o centro cerebral superior — e que evite conduzir a tímida e delicada inteligência da multidão para aqueles estranhos e dolorosos caminhos da especulação. Todo o jornalismo sadio nos Estados Unidos (sadio no sentido de que floresce espontaneamente, sem precisar de auxílio externo) baseia-se firmemente em inventar e destruir papões. Assim como a política. E assim como a religião. O que reside sobre essa impostura fundamental é uma artificialidade, um brinquedo de homens com mais esperança do que bom senso. O jornalismo inteligente e honesto, assim como a política inteligente e honesta, e até mesmo a religião inteligente e honesta — são coisas que não têm lugar numa sociedade democrática. São, quando existem, curiosidades exóticas, orquídeas pálidas e viscosas, bestas em cativeiro. Tirem-lhes o vapor, a garrafa de leite, a seringa e, puf!, elas somem.

III

Assim, parece-me uma injustiça, além de presunçoso e moralista, jogar a culpa pelo baixo nível de nossa imprensa sobre a malandragem de seus proprietários e editores. O trabalho de fazer jornal é perverso, assim como são perversos quase todos os que se deixam atrair por ele, mas a perversidade primária não neles, e sim nos seus fregueses. Neste departamento tagarela-se à vontade contra sujeitos como William Randolph Hearst. Não conheço este Hearst, nunca o vi ao vivo e nunca trabalhei para nenhum dos seus jornais ou revistas, mas, quando o vejo ser caridosamente denunciado por outros jornalistas, dá-me vontade de rir. Os homens que mais o atacam não são seus superiores como moralistas; são, simplesmente, seus inferiores como jornalistas — e sabem disto, mesmo que não gostem. No apogeu de uma recente cruzada contra Hearst, fizeram um esforço deliberado para esmagá-lo usando a arma que o próprio Hearst tornou clássica. Ou seja, deliberadamente mentiram sobre ele. A teoria por trás desta estratégia era bem clara. Esperam embaraçá-lo duplamente: primeiro, tirando partido da axiomática vontade do público de acreditar no capeta; segundo, forçando-o ardilosamente para a difícil posição de ter de dizer a verdade para se defender. Só esta última jogada teria sido suficiente para enterrar um jornalista menos habilidoso. Mas Hearst era melhor do que seus inimigos — aliás, melhor do que todos eles juntos. Ao invés de perder tempo com uma defesa que o teria deixado arrasado (e mais ainda quanto fosse digna e honesta), ele simplesmente devotou todo o seu talento a inventar capetas mais horríveis do que qualquer um que a oposição estivesse pespegando à sua imagem. Em pouco tempo, a turba voltou-se para o melhor espetáculo que ele oferecia, enquanto a oposição enfiou o rabo entre as pernas e se desfez. Hearst saiu da batalha vitorioso sobre um dos melhores fantasmas que se pode inventar: o fantasma do poderio inglês. Se, dentro de um ano, ele não matar seus leitores de medo com isto, é porque devo ter superestimado seus talentos e dado um palpite errado.

Como disse, muita conversa é jogada fora sobre a suposta diferença entre a imprensa marrom e a mais respeitável. A diferença é precisamente a mesma entre um contrabandista e o superintendente de uma escola dominical, ou seja, nenhuma. Honestamente acho até, baseado em vinte anos de íntima observação e incessante reflexão, que a vantagem, se existe, está do lado dos jornais marrons. Tirando um dia pelo outro, são provavelmente menos malignamente mentirosos. As coisas sobre as quais mentem não costumam ter a menor importância — pedidos de divórcio, pequenos subornos, fofocas sociais, intimidades das vedetes. Nesse campo, até prefiro ler mentiras do que verdades: pelo menos são mais divertidas. Mas no domínio da política, do governo e das altas finanças, os marrons chegam às vezes mais perto da verdade do que os jornais mais austeros, 905 dos quais são de propriedade de homens envolvidos em alguma espécie de exploração dos trouxas. Não estou dizendo que os jornais marrons façam qualquer esforço real para ser exatos; ao contrário, até se esforçam para evitar uma exatidão muito literal. Mas quando martelam diariamente que todo político é um patife, que todo serviço público é dirigido por escroques e que todas as operações de Wall Street têm como objetivo garfar as pessoas comuns, estão bastante perto da verdade, para qualquer propósito prático. São obrigados a dramatizar e ficcionalizar esta verdade para torná-la digerível. Ela deve ser mostrada de maneira improvável para convencer aquelas pessoas. Mas isto, na pior das hipóteses, é apenas um exagero de camelô, defendido pela máxima legal do caveat emptor. A maneira de mentir dos jornais mais respeitáveis é menos inocente. Seu objetivo não se limita a vender edições extras para a gente simples; e sim o de perpetuar uma fraude deliberada,
para melhor proveito dos cavalheiros que ficam por trás do pano.

IV

Os proprietários dos jornais marrons são, de fato, os únicos jornalistas verdadeiros que restam no país. Geralmente, são sujeitos cínicos, com uma aguda compreensão das limitações intelectuais do proletariado, mas muitos deles não têm nenhum motivo ulterior para alarmá-lo ou tapeá-lo — todo o seu lucro vem dos disparates que despejam sobre ele. O problema dos jornais do primeiro escalão é que quase todos estão hoje nas mãos de homens que vêem o jornalismo como uma espécie de linha auxiliar para empreitadas maiores e mais lucrativas — como um meio conveniente de enrolar e anestesiar um público que, de outra forma, se voltaria contra eles. (O que, de certa forma, acontece quando os jornais marrons se voltam contra eles e os expõem.) A exata natureza destas empreitadas maiores e mais lucrativas nem sempre é muito óbvia. É fácil, naturalmente, somar dois e dois quando um rico empreiteiro, latifundiário ou banqueiro compra um jornal, ou quando outro é comprado por alguém notoriamente de olho numa carreira política. Mas, de vez em quando, o comprador é um sujeito cujo negócio é mais ou menos respeitável e quer não demonstra uma esganação pelo Senado. Então, por quê? Por que arriscaria tanto dinheiro em tal jogo? A resposta costuma ser encontrada, acredito, em seu descarado Wille zur Match — sua aspiração, perfeitamente humana, de tornar-se importante e poderoso em sua comunidade, ser cortejado pelos figurões locais, ditar as leis, fazer e desfazer funcionários públicos, atar e desatar cordões políticos. Outras vezes, sua ambição (ou talvez, mais exatamente, de sua mulher) é meramente social. Quer jantar em certas casas, ser convidado para festas e, acima de tudo, receber certos convidados em sua reluzente mansão em Gold Hill. Bem, um homem que controla um jornal importante não tem a menor dificuldade para conseguir essas ninharias. As chaves do escândalo estão em seus bolsos. Ele é poderoso. Pode premiar ou punir, direta ou indiretamente. As esperanças de todos os outros homens em sua jurisdição estão em seu poder. Se for capaz de se lembrar que a lavanda à sua frente não é para ser bebida, entrará para a sociedade a hora que quiser.

Sejam quais forem o motivo ou os motivos subjacentes, o fato é que os jornais americanos estão passando rapidamente das mãos dos jornalistas profissionais para as de outras pessoas que são primariamente qualquer outra coisa. Os semanários que se ocupam das fofocas jornalísticas vivem publicando notícias de importantes transações desta espécie. A transferência do Evening Post, de Oswald G. Villard, para um dos sócios de Morgan, e a dos jornais de Bennett para Munsey não são fenômenos isolados; são bem típicos de uma tendência geral, rápida e progressiva. E mesmo quando nenhum sócio de Morgan ou Munsey aparece abertamente, é comum que as coisas aconteçam atrás da porta. Primeiro fica-se sabendo que este ou aquele veterano editor-proprietário morreu ou faliu; depois ouve-se que seu jornal foi comprado por 2 milhões de dólares à vista, por um bem intencionado jornalista notoriamente incapaz de pagar uma dívida de pôquer de 29 dólares; finalmente, em murmúrios discretos, comenta-se que o verdadeiro comprador é o velho John Googan, eminente empreiteiro de obras; ou Irving Rosehill, presidente da Rosenberg, Cohan & Co., a patriótica firma de operações bancárias; ou o ilustre senador Lucius Snodgrass, especulador do petróleo, influente metodista e perpétuo candidato à embaixada em St. James. Há pouco tempo, quando morreu Iceberg Fairbanks e foi feita a autópsia dos seus restos, descobriu-se que há anos ele controlava o principal jornal de Indiana. Muitos destes homens encobrem tais negócios com cuidado, tapeando até o magistrado. Mas os homens que trabalham num jornal que tem o rabo preso sabem muito bem o que evitar. Há, em quase todas as redações, um nome no qual não se deve tocar. Precede imediatamente o de Deus.

Em tal jornal — ou seja,o típico e normal jornal americano — deve ser óbvio que a busca da verdade, de toda a verdade e de nada mais que a verdade é comumente mitigada pela política do jornal. Por um lado, a redação deve produzir um jornal que venda e, para isto, é forçada a manter o público atiçado pelo tradicional sensacionalismo; por outro, precisa tomar cuidado para não pisar nos enormes, numerosos e sensíveis pés do Googan, do Rosehill ou do Snodgrass nos bastidores. (quando comecei, os pés eram os de um rico magnata do gele, e toda a reportagem em que ele estivesse interessado — digamos, umas nove ou dez por noite — descia para a composição marcada com a palavra “Gelo!!!”.) Não é preciso argumentar muito para convencer os mais judiciosos de que o negócio de moldar a opinião pública sob tais condições tende a relaxar o conceito de verdade na cabeça do jornalista e, por fim, até o seu conceito de honra. Empenhado diariamente em maquilar idéias que ele sabe serem falsas e idiotas, e forçado a fazer de si mesmo um instrumento de jogadas que às vezes não entende ou considera sinistras, o jornalista acaba por perder toda a noção de responsabilidade pública. Com isso, torna-se um mero cão de guarda, pronto a receber ordens para defender um culpado ou atazanar e perseguir um inocente. No fim, acaba possuído por uma fúria maligna. O poder está em suas mãos, e sua consciência se evaporou. Não passa de um homem de oitava classe com a capacidade para o mal de um Napoleão cronicamente investindo às cegas. Esta destruição ordinária da decência normal do jornalista é responsável por muitas das coisas que o dr. Sinclair se queixa em seu livro — a amarga e incansável perseguição às vítimas, o grosseiro desprezo pela honestidade, o total abandono dos hábitos de cortesia e educação prevalecentes entre homens civilizados. Um jornal tão poluído torna-se uma ameaça pública. Sua palavra não vale um níquel. Suas campanhas são maliciosas, burras e covardes, negando o direito de resposta a suas presas. Um apelo à sua honra é tão inútil como um apelo à honra do Congresso.

Tais jornais, como disse, tendem a crescer desordenadamente em número. Houve uma época, digamos uns vinte anos, em que eles ainda eram as exceções; hoje são a regra e, em algumas partes do país, a regra invariável. Não me entendam mal! Não estou protestando contra o mero zelo exagerado — o louvável desejo de um jornalista em agradar o seu patrão. Não estou, na verdade, protestando contra nada. Estou apenas descrevendo algo, e nem mesmo com um lamento, mas simplesmente como um especialista em depravação humana. O que quero deixar claro é que tais jornais são completa e deliberadamente desonestos, e que eles divertem ou atormentam seu público sem a menor consideração pela mais comezinha decência. E quero também deixar claro que eles estão tirando do mercado todas as outras espécies de jornais. Tal jornal, com tanto poder nas mãos, não se importa com o direito dos indivíduos. Quem cair, vítima de sua mendacidade, dificilmente poderá se recuperar. Sua própria versão do caso será distorcida ou ignorada. Seus defensores ficarão amedrontados. E se, desistindo do fair play, apelar aos tribunais, irá descobrir rapidinho que, em quase todas as grandes cidades americanas, a lei tem um medo santo dos jornais — e que o homem que ganhou uma causa e saiu com o dinheiro é tão raro quanto o homem que mordeu o leão e viveu para contar a história. Estou ciente de que serei acusado, digamos, de jogar lama sobre minha velha profissão e, em particular, sobre profissionais batalhadores. Mas fatos são fatos. Esta profissão sofreu uma desagradável metamorfose nas últimas décadas. Houve um tempo em que o verdadeiro chefe de quase todos os jornais importantes era um jornalista praticante, que tinha orgulho de
seu trabalho e uma honrosa reputação no ramo, pelo menos no local. Para o repórter mais jovem, este sujeito era um ídolo. Suas teorias sobre jornalismo eram ouvidas e citadas, seu estilo era imitado e todo foca na equipe queria seguir suas pegadas. Hoje, o verdadeiro chefe de um jornal tende cada vez mais a se tornar uma figura sombria nos bastidores, ignorante das tradições do jornal e do seu modo de pensar, e grosseiramente empenhado em empreitadas que colidem frontalmente com o que resta dos ideais deste jornal. Este homem está além do círculo jornalístico; nenhum jovem repórter sonha em seguir-lhe os passos algum dia; qualquer ambição de ficar com ele significaria abandonar de vez a profissão. A primeira conseqüência é a de que a profissão em si deixa de ser charmosa; já não é mais uma cooperação romântica entre pessoas livres e iguais, mas uma forma de trabalho parecida com a de uma oficina de laminação, tendo o sindicalismo como a única forma de torná-la suportável. A segunda conseqüência é a de que os homens que, no passado, entraram para a profissão com um alto senso de dignidade resolveram seguir outros rumos, enquanto o típico recruta de hoje é um jovem andrajoso e de oitava categoria, sem mais capacidade para o auto-respeito profissional do que um coletor de lixo.

Suspeito que o falecido Joseph Pulitzer já previa esta tendência ao criar a sua Faculdade de Jornalismo. Hoje há muitas faculdades como esta, mas duvido que sirvam para alguma coisa. Por um lado, parecem estar todas caindo nas mãos de pedagogos profissionais — uma classe obrigada a chafurdar no lodo por uma tirania plutocrática pior ainda do que a que oprime os jornalistas. Por outro lado, o máximo que uma faculdade de jornalismo pode conseguir — mesmo supondo que ela injete em seus alunos um civilizado código de ética — é gerar jovens repórteres que fugirão do jornalismo tampando o nariz, assim que se familiarizarem com o que se passa dentro de uma típica redação de jornal. Aqueles que perseverarem na profissão devem ser uns rapazes estúpidos que não notam o mau cheiro ou sujeitos sem espinha que se habituaram a respirá-lo, e alguns bem ordinários, que gostam do fedor.

Folheio ao acaso uma revista especializada em divertir e instruir jornalistas. O primeiro artigo que me cai aos olhos é uma elaborada descrição, por um homem empregado por vários jornais conhecidos, de seus truques particulares para fabricar notícias. Uma delas, à qual ele se refere com orgulho, envolvia citar o nome de uma mulher, presumivelmente respeitável, numa reportagem grotesca, idiota e totalmente mentirosa. Passo à frente. O segundo artigo é um convite aos repórteres para que escrevam relatórios bem realistas de seus encontros com mulheres que lhes passaram informações escandalosas sem saber — esposas de criminosos tapeadas pelo repórter, mulheres que entraram com pedidos de divórcio, e por aí vai. Abro outra revista. Contém um longo artigo descrevendo como certos correspondentes de importantes jornais em Washington, com acesso às galerias do Congresso naquela condição, atuam como “assessores de imprensa para interesses ligados à legislação”, são “contratados para trabalho de propaganda disto ou daquilo”, e foram considerados culpados de “sérias
violações de confiança de funcionários civis e militares”.

As alegações citadas acima levantaram muitas discussões no meio jornalístico. E o que aconteceu? Pelo que pude apurar, absolutamente nada. Os homens acusados daquilo tudo continuam trabalhando em jornais e se dedicando a suas atividades paralelas. Alguns, ouso dizer, têm até empregos políticos — uma das formas favoritas de se promover a dignidade do jornalismo. Bem, por que não? Certamente não é infra dig. para um repórter atuar como assessor de imprensa para interesses ligados à legislação”. E por que ele não seria “contratado para trabalho de propaganda disto ou daquilo”, se o seu próprio jornal já está envolvido até o pescoço em “trabalho de propagando disto ou daquilo”? E onde jaz o descrédito em estar “aberta ou secretamente empregado por políticos ou partidos políticos”, quando o seu próprio patrão está concorrendo ao Senado, e empregando o jornal para convencer a todos de que seus adversários são uns ladrões e usando chumbo grosso para sufocar qualquer inquérito sobre os fundos que recebeu para a campanha?

Um comentário sobre “Sobre o jornalismo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s