Solitude

Existe uma doen?a que acomete a quase totalidade da popula??o mundial e que se chama isolamento. Uns chamariam solipsismo, no que estariam corretos para as pretens?es deste texto. O isolamento n?o tem a ver com ficar escondido no pr?prio quarto, mas com o tipo de atitude e vida social que caracteriza a maioria daqueles que sofrem dessa doen?a: sair ? rua, ir ao mercado, fazer comprar num shopping center, e tomar um ?nibus sem ser capaz de identificar as pessoas por seus rostos, de observ?-las, de conhecer suas vidas. Essa doen?a ? causada por dois fatores:

1) Levamo-nos sempre em alta conta, consideramo-nos diferentes de tudo, sem perceber que somos t?o comuns, t?o ordin?rios quanto a massa amorfa que se acumula nos metr?s, nas ruas, nas lojas. Achamo-nos especiais e toda teoria que pretende nos ensinar a id?ia oposta nos parece estranha ou desagrad?vel.

2) A cren?a de que somos especiais faz com que tudo ao redor pare?a desagrad?vel, porque quase nunca se encaixa aos nossos desejos, planos e expectativas. Se me considero especial, naturalmente tudo que n?o sou eu n?o ser? especial e ser? perif?rico em rela??o a mim, e eu serei colocado automaticamente no centro daquilo que chamo de realidade. Objetos, pessoas, lugares e demais componentes do meu c?rculo formam um sistema do qual n?o fa?o parte e cuja exist?ncia ? colocada a meu servi?o.

O que arru?na as pessoas ? acreditar nessas duas id?ias — eu sou especial, o mundo ? ordin?rio. N?o tanto por sua falsidade, mas porque elas t?m pouca utilidade (e a ruindade surge quando nos apegamos a coisas in?teis; coisas ruins nos mostram rapidamente sua ruindade, coisas in?teis demoram a nos causar s?rios preju?zos diretos, mas preenchem nossas vidas e nos afastam de coisas boas). Acreditar no valor alheio significa acreditar no ?bvio princ?pio que diz que somos parte daquilo que est? ao nosso redor. Se nosso valor ? real para n?s e somos fruto do mundo em que vivemos, ent?o talvez o mundo valha tanto quanto n?s, ou mais do que n?s. Eu acho que esse valor merece ao menos ser verificado.

? fundamentalmente por ignorarmos esse valor, por n?o termos clareza nem consci?ncia a respeito dele, que a viol?ncia surge. Ela se manifesta de diversas formas (desrespeito, agress?o, corrup??o etc.), mas elas t?m a mesma causa. ? muito f?cil matar quando desconsideramos a vida da outra pessoa, quando a vemos como simples por??o de mat?ria, quando ignoramos que ela det?m qualidades semelhantes e an?logas ?s nossas — o medo, os desejos, a vontade de viver, fome, sede. ? tamb?m muito f?cil cedermos ? corrup??o quando ignoramos nosso papel no sistema de que fazemos parte, sem perceber que a ru?na do sistema pode causar nossa pr?pria ru?na.

Eu me pergunto — sem encontrar respostas — aonde pretendem chegar as pessoas que agem inconscientes do que fazem ao mundo e ?s pessoas. Porque aonde quer que elas cheguem, haver? mais pessoas e mais lugares ao redor delas. N?o h? como livrar-se de uma hist?ria de crimes, n?o h? como n?o levar consigo o sofrimento das v?timas, n?o h? como ignorar eternamente os problemas e as dores que causou.

Talvez nestas palavras esteja embutida a id?ia de justi?a divina. Talvez. Eu prefiro acreditar que a justi?a humana pode ser divina. ? com essa cren?a que todos os dias levanto e fa?o minha ora??o.

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