Doutrinação ambiental

Lendo O Jardim de Granito, de Anne Whiston Spirn, tive uma certeza que já havia sido vislumbrada quando escrevi “O ambientalista cético e solitário”: para as raposas do ambientalismo não importa ensinar a pensar, importa moldar as consciências para que acreditem nos seguintes princípios.

1) A natureza é um negócio maravilhoso, perfeito, impecável, batuta mesmo. Acima dela só Deus, supondo que aquele que acredita em teses desse nível não seja ateu.

2) Animais têm direitos, como eu ou você, mas direitos diferentes, previstos numa legislação específica que os protege da selvageria humana.

3) Aliás, o meio ambiente deve ser protegido a qualquer custo — ênfase aqui na expressão “a qualquer custo”.

4) Árvores não devem ser cortadas em hipótese alguma — ênfase aqui na expressão “em hipótese alguma”.

Estes princípios são um pequeno fragmento do pensamento ambientalista. Não são os únicos e talvez não sejam os mais importantes, mas certamente figuram entre os mais populares. Vale comentá-los.

1) A natureza é realmente algo batuta, mas hoje o artifício está inevitavelmente ligado à vida do homem. Dar as costas a séculos de tecnologia é mais do que uma enorme estupidez. A tecnologia que causou problemas ambientais pode também trazer soluções para estes problemas.

2) Todo direito implica um dever. Há no mínimo o dever de conhecer as leis e os instrumentos que deram origem ao direito. É inclusive por isso que não há sentido em direito e justiça em ecossistemas naturais. A lei que rege esses sistemas é a lei do mais forte, do mais rápido, do mais astuto (numa selva, por exemplo, o homem desarmado tem o direito de sair correndo ou de virar ração de leões). Pode-se falar no máximo em direitos e deveres dos homens em relação aos animais, não em direitos dos animais — o que faz toda diferença.

3) Custo é algo que muitos ambientalistas desconhecem. É fácil para um deles dizer que algo deve ser feito a qualquer custo — já que o custo não será pago com o dinheiro dele. Pesam aqui, novamente, os amplos conhecimentos da ideologia ambientalista, a escassez de conhecimentos tecnológicos e a total ignorância sobre os fundamentos da economia. Quando se estuda mais ideologia do que tecnologia ou economia, o meio ambiente torna-se objeto de passeatas e de gritarias, não de pesquisas científicas.

4) Algumas árvores devem ser cortadas. Muitas até são plantadas com essa finalidade. Mas para ficar apenas na questão urbana, a preservação e a ampliação do patrimônio natural urbano dependem de estudos, levantamentos e da certeza da adequação de determinadas espécies de árvores a um determinado lugar. É sobretudo pela ignorância em relação a tais elementos que projetos paisagísticos transformam-se em desertos e árvores despencam sobre casas e carros — e assim as árvores tornam-se as vilãs da paisagem urbana. Se o enorme eucalipto perto da sua casa foi derrubado e isso deixou você louco de raiva, lembre-se de que se trata de uma árvore australiana que é como plástico para a fauna brasileira, isto é, não tem valor ecológico significativo para os ecossistemas brasileiros por se tratar de espécie exótica. O hibisco, ah, o hibisco é bonito e os colibris vão beber em suas flores, mas trata-se também de espécie exótica cujos benefícios ecológicos deveriam ser melhor conhecidos.

Todos estes itens falam da mesma coisa: a exclusão do indivíduo do centro dos acontecimentos e das discussões, a ascensão dos ditames ecológicos à condição de mandamento universal. Não que haja sentido no antropocentrismo tal como ele foi idealizado no Renascimento; muitos dos piores exemplos de exploração e de degradação do meio ambiente devem ao antropocentrismo sua ascendência ideológica e filosófica. É igualmente burra, no entanto, a idéia de que o homem é apenas mais um elemento — e se ele é apenas um, não há diferenças importantes entre ele e os gafanhotos e os javalis. É o homem que causa problemas e busca soluções; que cria e manipula teorias, ora destruindo, ora criando; que é capaz de estudar e prever fenômenos; é o homem que é capaz de transmitir informações e educar para que os próximos homens errem menos e acertem mais. Árvores não são capazes destas coisas, assim como baleias, micos ou araras azuis.

O que há de errado em colocar o homem em seu devido lugar? Em reconhecer no homem seus direitos e deveres em relação à natureza? Qual o problema em reconhecer sua capacidade natural? O problema é que essas coisas libertam, dão ao indivíduo aquele tipo de consciência e de responsabilidade que tornariam desnecessários os gurus do ambientalismo. Por isso tantas pessoas preferem doutrinar a educar. Transformar é mais interessante do que compreender. O apelo à transformação gera exércitos. O apelo à compreensão gera homens livres — que jamais aceitarão guerrear. Infelizmente as pessoas que têm a voz mais ativa estão mais para generais do que para professores.

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