O ambientalista cético e solitário

Publicado em O Expressionista em 22 de Novembro de 2002


Num mundo ecologicamente correto, contrariar o radicalismo de ONGs e a consciência coletiva ecológica implica correr o risco de ficar famoso ou de ser exilado intelectualmente.

O estatístico dinamarquês Björn Lomborg, autor do livro O Ambientalista Cético, tornou-se famoso, mas não se livrou da antipatia de ambientalistas e mesmo das críticas de seus próprios colegas da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, onde é professor de Estatística e Métodos. Em seu livro, lançado recentemente no Brasil pela editora Campus, Lomborg questiona os números divulgados pelas grandes ONGs e as acusa de pessimismo e exagero de precaução. Muitos desses números têm sido usados para sustentar documentos como o Protocolo de Kyoto e têm sido o elemento central de reuniões mundiais, como a Rio ’92 e a Rio+10, realizada recentemente em Johannesburgo.

Lomborg afirma que a situação do meio ambiente não é tão ruim quanto os ambientalistas dizem. Baseados no Princípio da Precaução, segundo o qual toda ação deve ser proibida desde que não esteja provado de maneira irrefutável que seus efeitos não serão negativos, os ambientalistas propõem soluções que, se aplicadas, podem causar mais problemas do que aqueles que pretendem solucionar. Um deles, segundo Lomborg, é o custo econômico dos projetos ambientais. A inviabilidade econômica de planos como o Protocolo de Kyoto é explicada pelo fato de vivermos num mundo dependente de combustíveis fósseis; diante disso, em vez de sobretaxar o uso desses combustíveis e causar um problema econômico de conseqüências terríveis sobre a economia mundial, deveríamos dedicar recursos ao desenvolvimento de tecnologia para produção de energia, como eólica e solar.

Lomborg defende a tese de que o desenvolvimento econômico é capaz de proteger a natureza, sem sacrificar populações inteiras em nome de abstrações ambientalistas. Embora muito pragmática, a idéia encontra eco no holismo e em tradições orientais, que afirmam que as partes de um todo são interdependentes, o que é especialmente válido na questão dos recursos hídricos. Apoiado em números fornecidos pela ONU, Lomborg afirma que a poluição das águas tem declinado rapidamente e que a escassez é causada quase sempre pela ingerência das empresas responsáveis.

Em entrevista ao jornal O Globo, Lomborg ressaltou a importância de observar com mais atenção os números que sustentam as visões francamente apocalípticas distribuídas pelas ONGs e pela mídia, que raramente divulgam os números positivos e exageram os números negativos, o que seria uma estratégia para obtenção de poder político e recursos financeiros direcionados às questões ambientais. Lomborg também é taxativo em relação à importância de fixar prioridades: em países subdesenvolvidos é muito mais importante combater a fome e a pobreza do que defender florestas ou espécies em extinção — não se pode esperar consciência ecológica de uma pessoa faminta.

Lomborg se diz um “antropocentrista sem culpas”, o que se justifica pelo fato do homem ser a única espécie capaz de destruir e de salvar outras espécies, conduzindo o mundo em direções opostas conforme sua decisão. Se de um lado a matemática de Lomborg cria frieza e distanciamento no trato com a natureza — para revolta dos ambientalistas mais românticos –, de outro lado, a análise dos números permite imaginar um panorama menos apocalíptico para o futuro do planeta e planejar melhor as ações de preservação da natureza.

Apesar do ceticismo e do cientificismo do estatístico dinamarquês, seus métodos e conclusões têm sido questionados na comunidade acadêmica. Ambientalistas são unânimes no ódio a Lomborg, que recebeu uma torta na cara durante o lançamento de seu livro numa livraria da Inglaterra — interessante maneira de questionar as idéias de um escritor. Pode-se ter alguma antipatia por um estatístico que questiona os números divulgados à exaustão pela mídia como verdades indiscutíveis — toda ousadia é mal recebida. Pode-se criticar Lomborg pelo fato dele ser um estatístico, e não um especialista em questões ambientais. Mas não se pode ignorar os números e as análises contidas em seu livro. Certos ou errados, o fato é que o livro de Lomborg lança nova luz a um tema acostumado à obscuridade do unanimismo babão e a jargões como “mãe-terra”. Diante da impossibilidade de se chegar a um consenso eleitoral e da necessidade de se ficar longe dele, só a dissonância pode atirar os debatedores à seriedade da pesquisa científica e conduzir às soluções mais viáveis e eficientes. Se essa luz não é necessariamente boa para as ONGs, talvez seja para a humanidade como um todo. De outra forma, estaremos preservando a natureza para uma geração futura que nunca virá.

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Um comentário sobre “O ambientalista cético e solitário

  1. Não se pode distanciar os problemas ambientais das comunidades que os vivem. Falar sobre aqueciemtno global e escasses de água, se torna um argumento fácil de ser trabalhado e discutido, frente a grande obrigação e responsabilidades de entidades públicas e privadas de promover ações e produtos menos impactantes ao meio ambiente. O desenvolvimento tecnologico, e inovações, em parceria com as instituições publicas de adminstração tem um papel fundamental de resolver os problemas ambientais de cada comunidade. Por outro lado, levar discussões distanciadas e apocalíticas à população é uma falta de vergonha na cara, de não fazer o que realmente se deve… ou essa não seria a verdadeira Verdade Incoveniente.

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