A roda da vida

Há uma diferença muito grande entre trilhar o caminho do meio sem conhecer os caminhos extremos e trilhá-lo conhecendo-os. Aquele que escolhe o caminho médio depois de ter conhecido a perdição de um dos extremos tem o mérito da força e da coragem. É necessário força e coragem para galgar as paredes do fosso do extremismo. Difícil é reconhecer o extremismo como tal e recusá-lo, reconhecendo, ao mesmo tempo, os perigos do pólo oposto, cuja atração é proporcional à força com que recusamos o pólo original.

Não há, contudo, valor intrínseco em buscar o caminho do meio. Vida é tensão, conflito, desarmonia. A água escorre numa cachoeira porque brota das nascentes e se acumula em vales; o transbordamento é tensão e é o fluxo constante que espalha a vida pelas planícies. Algo semelhante pode ser dito a respeito dos ventos e da eterna alternância entre noite e dia. Onde não há movimento, há morte. Onde não há movimento, não há energia, não há desejo, não há porquê.

*

Se a morte é a única certeza absoluta que temos, antecipamo-la quando adquirimos outras certezas sobre nossas próprias vidas. Por exemplo, o sujeito que sabe que seus próximos 20 anos serão gastos com carimbos, formulários e ar frio, este sujeito sabe que uma parte importante de sua vida terminou. Ele sabe que está morto, já que sua vida não será exatamente como ele vislumbrara em sua juventude. Morreu nele a inquietude juvenil; ele aceitou a certeza que lhe foi oferecida. E toda certeza é mórbida.

O casamento é outra forma de antecipar a morte. No exato instante do “sim” morre conosco uma parte de nosso coração, que passa a bater com lentidão e esforço. Decerto a união amorosa proporciona realização e plenitude, mas tais coisas aparecem nessas uniões em função das incertezas que carregamos: não sabemos se somos completos, se somos dignos da companhia e do amor daquela pessoa, se a teremos sempre ao lado. Diversos “se” compõem o relacionamento perfeito, que é perfeito por ser vivo, inconstante, incerto e incompreensível.

Mas quase sempre há diante de nós apenas certezas: a vida ao lado de uma pessoa, o trabalho repetido infinitas vezes. Até mesmo as formas de escapar dessas certezas serão repetidas: trinta dias de férias a cada ano — período suficiente para fazer coisas que normalmente não fazemos, mas insuficiente para nos fazer perceber a morte a que nos submetemos nos outros onze meses do ano.

Uns poderão dizer que essas coisas também são vida. Vive-se através do trabalho — não importa qual –, vive-se através de um casamento — desde que tenhamos encontrado uma pessoa com quem faz sentido falar em felicidade mútua, o que não é tão difícil quanto pode parecer. Mas a partir daí, uma vez definidas as escolhas realmente importantes e na hipótese remotíssima de defini-las de uma forma satisfatória, a vida deixará de ser algo íntimo, interior e pessoal e será algo público, exterior e impessoal. Antes, forte e divino. Agora, fraco e mundano. A vida será medida pelo número de eletrodomésticos, pelo saldo da poupança, pelo número de prestações restantes no consórcio — cujo fim será marcado pelo início de outro consórcio –, pela idade do casamento, pelos fios brancos prematuros numa cabeça que insiste em declarar a própria juventude, pelo número de filhos ou pelas conquistas deles nas competições da escola ou no mercado de trabalho.

Não importa o que medirá a vida, o problema está em sua mensurabilidade, o que a priva de mistérios, segredos e magias — eis uma vida sem arte e oração, se isso realmente é possível. Todo o problema está na hipertrofia da vida: ela é grande demais, pesada demais, inchada demais — o que me traz à mente a imagem do bolo que, no forno, cresce demais, transborda e queima, exalando aquele cheiro caraterístico das experiências culinárias malsucedidas.

A vontade de crescer exteriormente arruina o homem e torna o mundo imprestável. Imagine um mundo em que ninguém abdica do direito de ter um carro, uma casa própria, esposa ou marido e filhos. É este o mundo em que vivemos. É questão de tempo até que todos pretendam para si as mesmas coisas que há milhares de anos todas as pessoas buscam: família, propriedades, rotina, segurança. Quando se obtêm tais coisas — e elas não são difíceis de conseguir, pois carros, por exemplo, há para todos os gostos e bolsos — perde-se o fundamental: a saúde, a serenidade, a paz. Desenvolvem-se a partir daí doenças mentais, físicas, sociais. Perde-se a vida, ganha-se um mundo doente, feito de pessoas doentes que transarão para fazer pessoinhas doentes — crescei e multiplicai-vos. E estas, acostumadas com a doença — tão acostumadas que não a perceberão como tal –, trabalharão para manter o mundo como está, em estado de coma profundo.

Talvez este seja um discurso pessimista. Sei que há coisas belas e o ato de se descabelar não torna o sujeito menos careca. Mas a porção realista dessa refeição tem sido servida fria à maioria das pessoas. A beleza que ainda existe deixou de ser algo comum, natural e simples e passou a ser algo raro. Se você vive numa cidade grande, sabe do que estou falando: o que é bom, belo e simples geralmente é colocado em embalagens coloridas e tem dois preços — um à vista, outro no cartão. Se você vive numa cidade pequena, também sabe a que me refiro: é questão de tempo até que aquela árvore frondosa tombe e dê lugar a um empreendimento de terrenos baldios; até que aquele córrego se torne espesso e pútrido; até que a elegância dos velhos desapareça com eles.

A beleza, como todas as virtudes, é algo frágil demais. É difícil mantê-la e muito fácil destrui-la — basta cruzar os braços, ligar a TV e deixar a roda da vida mover-se livremente. Sua vida — você, sua família, seus bens — poderá ganhar destaque, até mesmo nas páginas dos jornais, mas, afinal, terminará como terminam todos os periódicos: na lata do lixo, no fundo de uma gaiola, na vala comum do esquecimento. A vida é assim.

*

Nota:

1) Quando a roda da vida se move livremente, ela quase sempre passa sobre as costelas que passam por cima dos pulmões. As costelas se quebram, perfuram os pulmões e é por isso que todo telespectador tem como marca característica a dificuldade crônica para respirar e a baba que de quando em vez escorre quando ele tenta comentar algo que passa na TV.

A roda da vida é mais ou menos assim:

A Caterpillar apenas a encarou de forma irônica e utilitária, algo que toda pessoa deveria fazer desde o seu 6º aniversário.

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