Punks, Guevaras e rebeldia

Estava em São Paulo um dia desses quando vi um punk sentado na calçada: espalhado no chão, bebia algo numa latinha amassada, vestia jeans rasgado e usava algumas peças de couro, botas e pulseiras e piercings. O cabelo em estilo moicano estava lá, assim como o rosto blasé que parecia dizer “dane-se o mundo” ou algo pior. Eis um típico punk, pensei comigo. Ao menos na aparência.

Pouco tempo atrás, muito antes da visão na capital, vi um programa de entrevistas que teve a participação de Johnny Rotten, o irlandês líder do grupo britânico Sex Pistols e um dos fundadores do movimento punk. Durante a entrevista um jovem punk criticou Rotten por ter abandonado o movimento: na entrevista ele vestia uma roupa muito discreta e o penteado não lembrava mais o cabelo desajeitado e tingido de anos atrás. Rotten já não fazia metade do barulho que fazia no início dos anos 80, auge dos Pistols e auge do movimento punk, e ainda falava em ganhar dinheiro com a indústria fonográfica. Diante da crítica, Rotten foi ácido: fazendo menção ao visual do rapaz, disse “Você acha que isso é ser punk? EU sou o punk”.

A entrevista prolongou-se pela história do movimento, embrenhando-se pelo punk rock e pela própria história do Sex Pistols. Mas já era tarde, o estrago estava feito.

À semelhança de Johnny Rotten, Che Guevara também se tornou um símbolo de rebeldia. Aprendeu e ensinou técnicas de guerrilha, desafiou a ordem vigente (ah, os clichês…), ajudou a desmontar o governo de Fugêncio Batista em Cuba e a conduzir Fidel Castro ao poder. Foi rebelde e mártir, dois elementos que eternizam qualquer idiota. Hoje, passados mais de 30 anos desde sua morte, Guevara é o queridinho dos jovens revoltados, aqueles que aprendem um punhado de jargões esquerdistas e querem sair por aí revolucionando a ordem vigente (ah, a ordem vigente…).

Poucos percebem a ironia que esses dois sujeitos representam.

Johnny Rotten não fundou o movimento punk. O punk, tal como foi iniciado pelo líder dos Pistols, significava exatamente não seguir um movimento, libertar-se dos padrões sociais, agir conforme os próprios princípios. Era, por assim dizer, um grito de liberdade, que se traduziu, para Rotten, em roupas estranhas e cabelos estragados. Mas então, outros jovens revoltados acharam o gesto bonito e o copiaram e o transformaram num padrão como os padrões que Rotten pretendia destruir.

Che Guevara, como tantos camaradas guerrilheiros, pretendia mudar o mundo. Opunha-se ao capitalismo e a tudo que lhe simbolizava lá pelos anos 50 e 60: o consumo, o imperialismo, os EUA, etc. Depois de tantos anos lutando pela causa comunista e de ter se martirizado por ela, Guevara transformou-se num kit promocional, à moda capitalista: camiseta, pôster e adesivo. Não é lindo?

Deixar-se guiar por Rotten e Guevara significa apenas dar provas da própria burrice. O único punk genuíno só foi genuíno enquanto foi único — todos os demais são cópias mal-feitas de Rotten. E Guevara, no intervalo entre um assassinato e uma guerrilha, não teria ido a um shopping center para comprar, por exemplo, camisetas com o rosto de Marx. No mínimo, os dois ícones da rebeldia teriam percebido a idiotice que representa consumir ícones, o ortodoxismo que representa homenagear a rebeldia alheia.

A própria expressão “ícone da rebeldia” é contraditória. O rebelde rejeita ícones, que, por sua vez, são informação congelada — ou o oposto do espírito rebelde. Mas o jovem que usa camiseta vermelha com o rosto de Guevara ou que usa pulseiras de couro não sabe disso. Ele não vê seu próprio reflexo nos gestos e roupas que o rodeiam e se crê único em sua rebeldia. Mal percebe ele que toda sua rebeldia resume-se a causar asco naqueles que lhe criaram e que isso não apenas não fere como também confirma o caos mundano a que ele se opte, que determina modas, roupas, idéias, gestos, vocabulários. Hoje em dia, tudo é pasteurizado, inclusive a rebeldia. Embalada para presente e vendida em grandes magazines — tamanho P?

Há pessoas que vão além na idealização da rebeldia. Afirmam, por exemplo, que Jesus era um rebelde. Vêem no Nazareno os traços que o definem como tal: disse coisas que para a época eram revolucionárias demais e desafiou os ensinamentos dos antigos. Num mundo dominado pelo dogmatismo do Velho Testamento, Jesus veio falar do Espírito Santo, da importância de trazer em si os valores expressos pelo decálogo e de transformar-se num modelo de perfeição. Pensar em pecar já é pecar, dizia Jesus. Conduzir a religiosidade a um nível tão psicológico e pessoal foi por demais revolucionário.

Mas não havia rebeldia em Cristo. Havia apenas um sentido profundo de pureza religiosa, uma percepção especial do verdadeiro sentido da religiosidade, a crença de que nenhuma rebeldia e nenhum dogma eram necessários, desde que o indivíduo vivesse conforme as orientações divinas. Deus fala através do coração. O corpo é um veículo, o espírito é o motor da vida e o único caminho para a eternidade.

A rebeldia, vista por este prisma, não passa de coisa de criança histérica. Quem, percebendo que uma vida autêntica e genuína nasce dentro de si, seguirá um idiota que faz da guerrilha sua bandeira? Quem, diante dos ensinamentos de Jesus, preferirá a rebeldia de um sujeito que tenta fazer música com palavrões e perfura o próprio corpo?

Não há nada mais sintomático da decadência de nosso tempo do que a preferência popular pela rebeldia das mini-seitas e da música, em detrimento do cristianismo e dos cuidados com o espírito.

30/08/2003

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9 comentários sobre “Punks, Guevaras e rebeldia

  1. Em rela??o ao final do artigo, diria que isso nada mais ?, do que a incessante busca da juventude de hoje (mesmo que inconsciente), por algo em que acreditar.

    Then… cada um agarra qualquer porcaria que lhe parece bonito aos olhos…
    Enfim…

  2. A você, uma dose de Mikhail Bakunin. Tente fazer bom uso!

    “A Bíblia, que é um livro muito interessante, e aqui e ali muito profundo, quando o consideramos como uma das mais antigas manifestações da sabedoria e da fantasia humanas, exprime esta verdade, de maneira muito ingênua, em seu mito do pecado original. Jeová, que, de todos os bons deuses adorados pelos homens, foi certamente o mais ciumento, o mais vaidoso, o mais feroz, o mais injusto, o mais sanguinário, o mais despótico e o maior inimigo da dignidade e da liberdade humanas, Jeová acabava de criar Adão e Eva, não se sabe por qual capricho, talvez para ter novos escravos. Ele pôs, generosamente, à disposição deles toda a terra, com todos os seus frutos e todos os seus animais, e impôs um único limite a este completo gozo: proibiu-os expressamente de tocar os frutos da árvore de ciência. Ele queria, pois, que o homem, privado de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal, sempre de quatro patas diante do Deus “vivo”, seu criador e seu senhor. Mas eis que chega Satã, o eterno revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador dos mundos! Ele faz o homem se envergonhar de sua ignorância e de sua obediência bestiais; ele o emancipa, imprime em sua fronte a marca da liberdade e da humanidade, levando-o a desobedecer e a provar do fruto da ciência”.

  3. Se Jesus, Chevara e Rotten não fosse enxergados como ícones por alguns, você não teria inpiração nenhuma para escrever esse texto bem escrito falando de nada atraz de nada, pois nossas mentes nem iriam projetar a imagem deles quando ouvissemos seus nomes. Fica quietinho, se não tem o que falar é melhor ficar quieto na sua caminha provavelmente cara e confortável, não faça pessoas (como eu) perder o tempo delas lendo isso.

  4. Eu gostaria de saber quem é voce para chamar o Che Guevara de idiota.
    O que voce fez para mudar o mundo? para melhora-lo? Foi mais eficiente do que o Che?

    São as pessoas revoltadas, que nao aceitam a realidade como ela é que sao capazes de melhora-la. Pessoas estas como Martin Luther King e Gandhi.

    Se eu fosse voce, nao desencorajaria a rebeldia, pois esta sim é a precursora das mudanças.

    Texto muito bem escrito, de fato.

  5. Olá, Roberta, obrigado pelo seu comentário.

    A revolta em si não serve para nada. Qualquer adolescente é capaz de expressar sua revolta e sua rebeldia. A questão é aonde essa revolta leva o indíviduo. Algumas pessoas resistem pacificamente — como Gandhi e Luther King –, outras pessoas simplesmente esperneiam ou saem matando outras pessoas, tentando moldar o mundo à sua imagem e semelhança — como Che.

    O fato de você colocar Gandhi, Luther King e Che na mesma prateleira demonstra que talvez você tenha que ler um pouco mais sobre essas três pessoas. Faça isso e, se quiser, depois poste aqui novamente. Uma sugestão: O vampiro argentino.

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