10 razões para pedalar

Christian Rocha
6 de Março de 2003


Sinto-me um pouco estúpido por compor uma lista de razões para fazer algo que é indiscutível e notadamente bom. Mas a obviedade normalmente é a primeira coisa a ser esquecida, justamente por ser óbvia e fácil demais. Quem, por exemplo, pensaria em beber água para matar a sede? E em comprar três bananas, que juntas custam 40 ou 50 centavos, em vez de espantar a fome com um petisco gorduroso que custa 3 ou 4 reais? (os números são necessários) A simplicidade foi deixada de lado, por isso é necessário falar de coisas óbvias. É a ausência delas que torna o mundo pior.

Uma dessas coisas simples e óbvias é a bicicleta. Todos nós, em algum momento da vida, fomos ciclistas. Seja na infância, quando queríamos ter uma bicicleta nova para fazer frente às bicicletas dos amiguinhos, seja na juventude, para exercitar o corpo ou para ir até ali comprar pão fresco. Embora o Brasil não tenha a mesma tradição ciclística de países como Holanda e Japão, todo lar tem pelo menos uma bicicleta e toda cidade pequena ou média tem uma proporção razoável de cidadãos que usam a bicicleta como meio de transporte. Esta seria a primeira razão da nossa lista.

1) Transporte: de bicicleta pode-se ir ao trabalho, à escola, às compras, enfim, pode-se fazer sobre duas rodas praticamente tudo que é feito com carro ou transporte público. A tecnologia tornou as bicicletas mais leves, facilitando a vida daqueles que levam a vida sobre duas rodas. O filme “Dança comigo?” (Japão, 1998) mostra como a bicicleta faz parte do dia-a-dia dos japoneses; lá a eficiência dos transportes públicos, a construção de estacionamentos para bicicletas próximos das estações de metrô e a tradição fazem com que a bicicleta seja o meio de transporte mais utilizado naquele país — dos 8 aos 80 anos.

2) Saúde: a modernização da vida significou economia de energia muscular. Cada vez mais o trabalho é realizado diante de monitores e mesas, onde o esforço físico só é necessário para apertar botões. Não há movimentação efetiva e cada vez é menor o número de músculos necessários para se levar uma vida normal. Sem exagero. Pedalar significa movimentar-se, transpirar, utilizar os músculos do corpo, acelerar a circulação sangüínea e a renovação de fluidos. Numa época em que comerciais de TV anunciam métodos milagrosos (e caros) para emagrecer, pedalar pode ser uma solução fácil, rápida e barata. Exercitar-se enquanto vamos ao trabalho ou à escola significa resgatar uma pluralidade que era comum para o homem de antigamente, acostumado a reunir o trabalho intelectual e físico numa única atividade. Pedalar significa dispensar a necessidade de atividades físicas que compensem a ausência de atividades musculares típica da vida moderna.

3) Segurança: tomada isoladamente, a bicicleta é um meio de transporte muito mais seguro do que seus similares motorizados. A velocidade máxima depende do preparo físico do ciclista, o que conduz a algo em torno de 30 ou 40 km/h. É o suficiente para se deslocar com rapidez de um lugar a outro (lembremos que num dia típico paulistano, a velocidade média dos veículos raramente ultrapassa os 25km/h) e insuficiente para um ciclista se arrebentar mortalmente num acidente. É claro que a vida de um ciclista numa cidade grande é tão arriscada quanto a de qualquer motoboy, mas isso se deve mais às condições do trânsito numa grande cidade do que a uma deficiência particular da bicicleta. Reservando espaços especiais para a bicicleta — ciclovias — seu uso torna-se bastante seguro e eficiente.

4) Igualdade: pelo baixo custo das bicicletas, pelo fato de a velocidade depender mormente do preparo físico do ciclista e pelo fato de a posse de uma bicicleta ser algo comum até para crianças, o ciclismo não inspira a mesma desigualdade que observamos entre motoristas de carros e motos. Não h? notícias de rachas entre ciclistas, tampouco a notícia de ciclista dirigindo embriagado ou ostentando sua bicicleta como quem aumenta o som de seu carro novo. Não há quadrilhas especializadas no roubo e no desmonte de bicicletas, tampouco um crime suficientemente organizado e interessado nisso. Justamente porque qualquer pessoa pode ter uma bicicleta e, assim, ir e vir como bem quiser. Essa igualdade é preciosa e deveria ser mais respeitada por aqueles que desenham as cidades. O urbanismo, ao privilegiar grandes obras viárias, assume que a desigualdade é uma regra e que os benefícios das reformas urbanas só privilegiarão aqueles que têm carros, o que em geral exclui pedestres e ciclistas.

5) Interação: a velocidade de carros e motos distancia os motoristas e passageiros do mundo que os rodeia. Interromper a viagem para um descanso ou um gole d’água é quase tão comum para o ciclista quanto raro para o motorista. Apreciar a paisagem, mesmo quando pedalamos para trabalhar, é algo comum e fácil, e a presença constante do ciclista estimularia o embelezamento das cidades. Não sei se, por exemplo, a Marginal do Tietê é desagradável porque não tem ciclistas ou não tem ciclistas porque é desagradável. O fato é que a presença do ciclista certamente estimularia a renovação daquele lugar e, ao mesmo tempo, dependeria dessa ação. A construção de uma ciclovia num lugar desses exigiria que se construísse, tamb?m, uma estrutura de apoio ao ciclista, como pontos de parada, bem como sombra, pavimentação e vegetação adequadas. Tais coisas tornam qualquer cidade mais bonita e socialmente rica.

6) Custo: diante dos cinco pontos anteriores, pode-se perceber que o custo individual de uma bicicleta e o custo de um sistema de transporte que nela se baseie são muito baixos. Construir uma ciclovia é infinitamente mais barato do que construir uma avenida, começando pelo custo de pavimentação e indo até os custos de manutenção. Uma boa bicicleta pode ser comprada por 500 reais; um bom carro não sai por menos de 15 mil reais. O custo mensal de um carro facilmente ultrapassa os 100 reais, entre combustível, limpeza e reparos eventuais; o custo de conservação de uma bicicleta é praticamente nulo. Bicicleta não paga IPVA, não exige CNH, tampouco a submissão a um sistema mafioso de auto-escolas, concessionárias de veículos, distribuidoras de combustível, polícias rodoviárias, oficinas mecânicas, multas etc. Seja numa escala urbana, seja numa escala pessoal, a bicicleta é infinitamente mais barata do que qualquer carro ou moto.

7) Satisfação pessoal: livre do stress de engarrafamentos, habituado a exercitar-se fisicamente enquanto vai ao trabalho ou à escola e com menos gastos mensais, o indivíduo torna-se melhor em diversos aspectos. Raramente um ciclista cansado ao fim do dia encontrará fôlego para discutir em casa, terá problemas de saúde por causa do sedentarismo que atinge a maioria da população ou se verá contando moedas para comprar gasolina, preocupado com a alta mundial do petróleo. É simples perceber os benefícios que um indivíduo desses pode trazer para uma sociedade.

8 ) Meio ambiente: bicicletas não poluem, não exigem grandes áreas de estacionamento ou avenidas largas, não precisam alterar significativamente o desenho de um lugar para que possam se deslocar com liberdade e tampouco consomem litros de água para serem lavadas; boas bicicletas aceitam quase todo tipo de terreno e são pequenas o suficiente para circular em ruas medievais ou em trilhas no meio do mato. O ciclista, por não enxergar a paisagem através de uma janela de vidro, tem a chance de perceber melhor o ambiente em que ele circula, o que o torna potencialmente mais consciente em relação às suas responsabilidades neste mundo (vide também o item 5).

9) Cicloturismo: assim como é possível utilizar a bicicleta diariamente em atividades simples, é possível também viajar de bicicleta. Embora o preparo para uma viagem dessas seja diferente do simples deslocamento para o trabalho — a começar pelos equipamentos e pelo preparo físico –, cresce a cada ano o número de pessoas que optam por esse tipo de turismo, deixando o carro em casa e aproveitando os dias de folga sobre uma bicicleta. Certamente é um turismo incomum, pois neste caso o caminho é tão ou mais importante do que o destino. O cicloturismo reúne todas as vantagens mencionadas anteriormente somadas à possibilidade de aproveitar e conhecer lugares de uma forma diferente, sem o frenesi automático dos grandes êxodos metropolitanos nos feriados. Imagine, por exemplo, como seria uma viagem para o litoral feita sobre duas rodas, sem preocupações com pedágios, dinheiro para combustível, estradas engarrafadas, documentação do veículo e do motorista, check-ups e outras coisas do gênero.

10) Manutenção: não apenas pelo custo, já mencionado no item 6, mas também pela facilidade e pela simplicidade dos mecanismos, quase todo ciclista sabe consertar e regular sua própria bicicleta. Nenhum defeito é tão grave que exija semanas de funilaria, dias de regulagem — e dinheiro na mesma proporção. É muito mais fácil e barato tentar, errar e acertar numa bicicleta do que num motor de carro. Trocar um pneu de bicicleta é tarefa simples e leve, mesmo para a mais delicada das damas. Limpá-la não gasta litros de água (item 8), tampouco exige que o ciclista passe horas buscando a sintonia fina de um motor. Exige, sim, cuidados com o próprio corpo.

Se você, caro leitor, tiver mais razões para pedalar ou, mesmo, razões para não pedalar, por favor deixe um comentário. Enquanto isso, vou dar uma pedalada e já volto.

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3 comentários sobre “10 razões para pedalar

  1. Parabéns por ter conseguido veicular um texto muito inteligente.
    A cidade que mais privilegia esse tipo de deslocamento é Governador Valadares. Isso dentre aqueles que passei nessa minha experiência das 04 viagens que fiz de bicicleta.
    Um abaraço

  2. Falta agora a união da população para pressionar por políticas públicas que privilegiem sistemas de transporte mais baratos e limpos. Não falo apenas de bicicletas, o que é óbvio neste texto, mas transporte de cargas por trem, e transporte coletivo em centros urbanos.
    Um texto muito explicativo!
    Parabéns!

  3. Ah não, escrevi um texto gigante e deu “resposta errada” e o comentário não foi. :(

    E eu tinha certeza que 7+7 dá 14!

    Bom, só a última frase… que era sobre a população vai demorar muito ainda para poder perceber as vantagens que você numerou. Talvez apenas quando a situação do trânsito chegar ao limite final. Somos mesmo muito mal acostumados…

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