A orientação política dos dicionários

Christian Rocha
28 de Maio de 2003


Há muito tempo a escolha de um dicionário deixou de ser uma questão lingüística e passou a ser uma questão editorial. Escolhe-se pelo peso, pelo tamanho, pelo acabamento e pela diagramação. Isso é bastante normal, sobretudo num país cuja população mal sabe ler.

O dicionário Houaiss quebrou a hegemonia do Aurélio como o principal dicionário da língua portuguesa, superando-o no número de verbetes e no volume de informações. Mais prolixo, o Houaiss deixa escapar suas inclinações ideológicas, tendenciosidade que é evitada pelo Aurélio com mais facilidade. A comparação de alguns verbetes pode demonstrar as diferenças entre um e outro.

Socialismo
Aurélio: doutrina que prega a primazia dos interesses da sociedade sobre os dos indivíduos, e defende a substituição da livre-iniciativa pela ação coordenada da coletividade, na produção de bens e na repartição da renda.
Houaiss: conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco de suas desigualdades.

A diferença é gritante. Para o dicionário Aurélio, o Socialismo é uma doutrina de fundo social, daí a própria origem do termo. Para o dicionário Houaiss, o Socialismo é um conjunto de doutrinas humanitárias, o que o tornaria vago e bonzinho. E despretensioso, porquanto pretende diminuir apenas “um pouco” das desigualdades causadas (por quem?) pelo capitalismo, que não é mencionado pelo Aurélio.

Capitalismo
Aurélio: sistema econômico e social baseado na propriedade privada dos meios de produção, na organização da produção visando o lucro e empregando trabalho assalariado, e no funcionamento do sistema de preços.
Houaiss: sistema econômico baseado na legitimidade dos bens privados e na irrestrita liberdade de comércio e indústria, com o principal objetivo de adquirir lucro.

A definição quimérica do Houaiss desenha o capitalismo como uma orgia econômica. Talvez nem os EUA dos anos 50 tenham sido um país onde grassava a “liberdade irrestrita de comércio e indústria”.

Comunismo
Aurélio: 2. sistema social, político e econômico desenvolvido teoricamente por Karl Marx (v. marxismo), e proposto pelos partidos comunistas como etapa posterior ao socialismo. 3. qualquer doutrina social, política e econômica que proponha alguma forma de propriedade coletiva dos meios de produção.
Houaiss: 2. organização socioeconômica baseada no sistema de propriedade coletiva dos meios de produção e na distribuição da riqueza segundo as necessidades de cada um. 4. organização econômica e sociopolítica do Estado, idealizada por Karl Marx e Friedrich Engels (e por seus inúmeros precursores), que, como último estágio da evolução social e como resultado do triunfo das lutas do proletariado, será uma sociedade ideal, sem classes, sem propriedade privada sobre os meios de produção, com harmônica igualdade social e econômica para todos, sendo que os bens, que nessa fase serão produzidos em abundância, pois não haverá estruturas arcaicas que impeçam o constante desenvolvimento das forças produtivas, serão distribuídos segundo as necessidades de cada um (“De cada um segundo sua capacidade; a cada um, segundo suas necessidades”).

Assim como na definição de Socialismo, aqui o Aurélio procura preservar a idéia do Comunismo como derivação da idéia de propriedade comum, por uma questão de objetividade e clareza. Houaiss prefere reescrever o Manifesto Comunista, destacando as maravilhas do regime. É bastante curioso que os dois dicionários, em pleno séc. XXI, ignorem a realidade desse sistema, aquilo que ele de fato produziu. E chega a ser medonho que o Houaiss, além de ignorar a realidade, ainda desande a destacar as benesses do Comunismo, se aplicado como Marx e Engels imaginaram.

Esquerda (definição política)
Aurélio: 4. a oposição parlamentar. 5. conjunto de indivíduos ou grupos políticos partidários de uma reforma ou revolução socialista.
Houaiss: 3. conjunto de membros de uma assembléia parlamentar que lutam por idéias avançadas, em oposição aos conservadores [Originariamente, à época da Revolução Francesa, a bancada representativa dessas tendências ficava à esquerda do presidente; na câmara e no senado dos E.U.A., os democratas (menos conservadores) sentam-se à esquerda, e os republicanos (mais conservadores), à direita.]. 4 conjunto dos indivíduos de uma nação, ou mesmo de uma comunidade supranacional, que acreditam na superioridade dos regimes socialistas ou comunistas sobre outras formas de organização econômico-políticas, esp. o capitalismo, com sua fé no mercado como regulador de tudo, atribuindo, portanto, ao Estado o dever de intervir na economia, e que advogam o dever do Estado em prover o bem-estar dos cidadãos, tendo ainda como uma de suas principais metas acabar com as desigualdades sociais inerentes ao regime capitalista.

O Aurélio limita-se a relacionar a esquerda ao socialismo e ao oposicionismo. O Houaiss explica a origem do termo, mas novamente sobe ao pódio para ostentar um esquerdismo mentiroso e a criticar o que se lhe opõe. Segundo o Houaiss, a esquerda tem idéias avançadas (hoje, o que há de mais reacionário do que um esquerdista?) e entre suas principais metas está o fim das desigualdades sociais.

Direita (definição política)
Aurélio: 7. regime político de caráter conservador. 8. P. ext. Parte conservadora da opinião pública.
Houaiss: 5. o conjunto dos diversos agentes políticos de uma sociedade (parlamentares, imprensa, setores organizados etc.) que adotam pensamentos e práticas refratárias a transformações na ordem social, esp. as que implicam a instauração de igualdade política e/ou econômica entre os cidadãos.

Parece razoável, como faz o Aurélio, associar a direita ao conservadorismo, no sentido de “conservar” os valores sobre os quais a sociedade se construiu — a moral e a religião, o trabalho, a família. Por outro lado, parece leviano ou simplista demais, como faz o Houaiss, relacionar a direita ao reacionarismo e à oposição à igualdade. Novamente, a loquacidade do Houaiss reduz tudo à dialética bandido-mocinho, e é fácil perceber quem é quem em seus verbetes.

Liberalismo
Aurélio: 1. o conjunto de idéias e doutrinas que visam a assegurar a liberdade individual no campo da política, da moral, da religião, etc., dentro da sociedade. P. ext. Liberalismo econômico: doutrina que enfatiza a iniciativa individual, a concorrência entre agentes econômicos, e a ausência de interferência governamental, como princípios de organização econômica. P. ext. Liberalismo político: doutrina que visa a estabelecer a liberdade política do indivíduo em relação ao Estado e preconiza oportunidades iguais para todos.
Houaiss: 1. doutrina cujas origens remontam ao pensamento de Locke (1632-1704), baseada na defesa intransigente da liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e intelectual, contra ingerências excessivas e atitudes coercitivas do poder estatal.

O que é uma “defesa intransigente da liberdade individual”? Se a moralidade deve permear todo ideal e por isso pode ser encontrada em maior ou menor grau em todas as doutrinas, a defesa da liberdade não pode excluir o respeito à liberdade alheia.

Maoísmo
Aurélio: 1. desenvolvimento teórico e prático do marxismo-leninismo (q. v.), realizado por Mao Tsé-Tung (1893-1976), estadista chinês, que prega a tomada do poder pelo proletariado e o desencadeamento da revolução cultural proletária durante a construção do socialismo, a fim de eliminar a ideologia burguesa.
Houaiss: 1. doutrina do político e líder máximo da revolução socialista chinesa e primeiro presidente da República Popular da China, Mao Tse-tung (1893-1976), caracterizada esp. pela consideração do campesinato como uma força indispensável na luta pelo comunismo, em países subdesenvolvidos, e pela valorização dos fatores subjetivos e voluntaristas nos processos de transformação histórica.

Novamente a objetividade do Aurélio faz o Houaiss parecer uma cartilha comunista, na medida em que este utiliza adjetivos em verbetes políticos.

Revolução (definição política)
Aurélio: 3. Transformação radical e, por via de regra, violenta, de uma estrutura política, econômica e social.
Houaiss: 3.1.1. movimento de revolta contra um poder estabelecido, feito por um número significativo de pessoas, em que ger. se adotam métodos mais ou menos violentos. 3.1.2. conjunto de acontecimentos históricos que têm lugar numa sociedade e que envolvem ger. o país inteiro, quando parte dos insurgentes consegue tomar o poder, e mudanças profundas (políticas, econômicas, sociais) se produzem na sociedade.

O que são “métodos mais ou menos violentos”? Não há na história do mundo uma revolução política ou social que não tenha usado ou gerado violência.

Imperialismo
Aurélio: 2. política de expansão e domínio territorial e/ou econômico de uma nação sobre outras.
Houaiss: 2. forma de política ou prática exercida por um Estado que visa à própria expansão, seja por meio de aquisição territorial, seja pela submissão econômica, política e cultural de outros Estados. 5. no vocabulário marxista, etapa inevitável, por sua própria natureza, do desenvolvimento da economia capitalista, durante a qual o capital financeiro assume supremacia.

Vocabulário marxista? A esta altura a vaca do dicionário Houaiss já foi para o brejo. Neste verbete ele assume com todas as letras a sua missão. Nem Marx poderia ter ido tão longe: fazer um dicionário que inclui definições que não são típicas do idioma nacional, mas de um idioma ideológico restrito.

Nacionalismo
Aurélio: 1. exaltação do sentimento nacional; preferência marcante por tudo quanto é próprio da nação à qual se pertence; patriotismo. 2. doutrina baseada neste sentimento e que subordina toda a política interna de um país ao desenvolvimento do poderio nacional. 3. doutrina política que reivindica para um povo o direito de formar uma nação politicamente organizada (especialmente num Estado soberano).
Houaiss: 3. ideologia que enaltece o Estado nacional como forma ideal de organização política com suas exigências absolutas de lealdade por parte dos cidadãos. 4. preferência pelo que é próprio da nação a que se pertence, exaltação de suas características e valores tradicionais, à qual em geral se associam a xenofobia e/ou racismo, além de uma vontade de isolamento econômico e cultural; como doutrina, subordina todos os problemas de política interna e externa ao desenvolvimento, à dominação hegemônica da nação.

É bastante sintomático que a 3ª definição do Aurélio não apareça no Houaiss, em que merecem destaque as expressões “exigências absolutas de lealdade”, “xenofobia e/ou racismo” e “isolamento econômico e cultural”. Se considerarmos a definição do Houaiss, é preferível pegar sarampo a ser nacionalista.

Nazismo
Aurélio: 1. movimento chauvinista de direita, alemão, nos moldes do fascismo, imperialista, belicista, e cuja doutrina consiste numa mistura de dogmas e preconceitos a respeito da pretensa superioridade da raça ariana, sistematizados por Adolf Hitler (1889-1945) em seu livro Minha Luta; o fascismo alemão.
Houaiss: 1. doutrina e partido do movimento nacional-socialista alemão fundado e liderado por Adolph Hitler (1889-1945); hitlerismo, nacional-socialismo.

Aqui chama a atenção a brevidade do Houaiss, que prefere definir o nazismo como nacional-socialismo, e só. Associando a definição do Aurélio à definição do Houaiss, o leitor atento poderia lembrar que o nazismo era um tipo de socialismo.

Macarthismo
Aurélio: 1. atitude política radicalmente infensa ao comunismo, e que se desenvolveu nos E.U.A. com a campanha desencadeada pelo Senador Joseph Raymond MacCarthy [1909-1957] .
Houaiss: 1. prática política que se caracteriza pelo sectarismo, notadamente anticomunista, inspirada no movimento dirigido pelo senador Joseph Raymond MacCarthy (1909-1957), durante os anos de 1950, nos E.U.A. 2. p. ext. prática de formular acusações e fazer insinuações sem provas, comparável à que caracterizou o movimento macarthista.

Depois dessa avalanche de tendenciosidade do Houaiss nos verbetes anteriores, não conseguimos saber se a 2ª definição de Macarthismo é de fato uma definição ou uma opinião. Uma pista: ela inexiste no Aurélio e em todos os outros dicionários brasileiros.

Feita esta breve revisão em alguns verbetes dos dois principais dicionários brasileiros, não podemos saber se a ascensão do Houaiss é uma das causas ou a conseqüência de um processo de estupidificação da cultura brasileira, mais inclinada à ideologia do que à lucidez e ao raciocínio. Talvez seja um processo que acontece em dois sentidos: ao mesmo tempo ele se alimenta desses exemplares de doutrinação ideológica e origina novos modelos.

Claro que o Houaiss tem diversas virtudes: além da quantidade de verbetes, sua versão eletrônica traz vários recursos que não existem no Aurélio, como a etimologia das palavras, datação e outras informações que complementam e reforçam a compreensão dos verbetes. O Aurélio é um dicionário feio; a diagramação cuidadosa da versão impressa do Houaiss poderia servir de padrão editorial para dicionários. Contudo, tais qualidades não são suficientes para colocá-lo acima do Aurélio; aparência e quantidade não devem estar acima da qualidade.

Na dúvida, tenho os dois em meu computador: são ferramentas indispensáveis para quem escreve e gosta de entender profundamente o significado das palavras. Mas quando busco uma definição política ou ideológica, sei facilmente qual é o dicionário mais imparcial. Para estes casos deixo sempre o Houaiss em segundo plano.

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11 comentários sobre “A orientação política dos dicionários

  1. Sr.Christian Rocha,
    salvo o texto sobre o nazismo, considero os verbetes do Houaiss mais didáticos e completos. Nada do que foi dito é falso. Somente uma pessoa que seja ideologicamente antisocialista pode ficar incomodada com as definiçoes … quem viveu o capitalismo selvagem brasileiro até o final do século vinte e conheceu a social democracia européia pode entender o que Houaiss quer dizer com “conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco de suas desigualdades” (e no dicionário a definição nao para aí).
    Na realidade é um debate sem fim, pois pode-se encontrar argumento para tudo, dependendo da ideologia de quem escreve e de quem critica.
    V. Moeking
    Frankfurt, 18.11.2007

  2. Moeking,

    As social-democracias européias praticam o que muitos chamam de “capitalismo de Estado”, rumo que a China tem tomado atualmente. Chamá-las de socialismo, em sentido estrito, é exagero, é desconhecimento do que seja a doutrina socialista, tal como proposta por Marx e praticada por líderes tão malucos e sanguinários como Pol-Pot, Mao e Stálin.

    Tomando o verbete “socialismo” isoladamente, não me parece que o que o caracteriza seja o seu lado humanitário. O socialismo matou milhões na China e na URSS. Em países socialistas, prisões arbitrárias e mortes injustificadas só se encerraram quando a economia foi aberta — isto é, se “dessocializou” — e a população conquistou alguma liberdade.

    Basta investigar por alguns instantes — ideologias à parte — o que de fato acontece e aconteceu nos países socialistas e verificar qual verbete mais corresponde à realidade.

    Algo semelhante acontece nos outros verbetes. Houaiss é deliberadamente simpático com os verbetes relacionados à esquerda e deliberadamente antipático com os verbetes opostos.

    Se você conseguir encontrar argumentos que, por exemplo, desvinculem o genocídio do socialismo, com ou sem ideologia, me avise.

  3. Christian, é inegável como o dicionários Houaiss é tendencioso; mas acredito que sua análise vai no mesmo sentido.

    Não querendo pormenorizar em vários termos, fico no exemplo do Macarthismo: sugiro que você resolva sua dúvida se é “uma definição ou uma opinião” procurando saber mais sobre a saída de Charles Chaplin dos Estados Unidos. As definições dos dois dicionários me parecem bastante plausíveis nesse caso específico.

    Fiquei preocupado com o seu comentário “estupidificação da cultura brasileira, mais inclinada à ideologia do que à lucidez e ao raciocínio”. É de uma infelicidade absurda pra quem se propôs a analisar termos políticos. Todos temos ideologia; e em diferentes ideologias, tem gente que usa a “lucidez e o raciocínio” e tem gente que não… Quem escreveu os termos que você colocou no Houaiss tende a ficar no segundo grupo da dita ideologia, mas tome cuidado pra não cair no lugar comum do “anti-esquerdismo” fácil e ficar no segundo grupo da sua também. Abraço.

  4. Gáudio,

    o que o preocupa e o que você considera infeliz? O fato de eu perceber que a cultura brasileira tem mais interesse em ideologia do que em estudo e reflexão? Mas, cacilda, isto é uma realidade fartamente registrada há pelo menos três décadas. Seria uma infelicidade não percebê-la, isso sim.

    Dada a atual condição do mundo e do Brasil, o anti-esquerdismo é uma obrigação moral e, no mais das vezes, uma questão de sobrevivência.

  5. Christian, todo estudo e reflexão está imerso numa ideologia, parte de uma perspectiva ideológica – embora nem todos os que seguem uma ideologia estejam interessados em estudo e reflexão. Repito que todos (incluindo eu, você e o Cazuza) têm uma ideologia…

    Essa dicotomia “ideologia” VS “estudo e reflexão” é muito arrogante e prepotente, dá a entender ao final que “eu sou inteligente e o outro é burro”. Aliás, quem propôs o uso do conceito dessa forma (arrogante e prepotente) foi o próprio Marx. “Na perspectiva marxista , a ideologia é um conceito que denota ‘falsa consciência’: uma crença mistificante que é socialmente determinada (…)”.
    http://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/ideologia-termo-tem-varios-significados-em-ciencias-sociais.htm

    Por isso estou te pedindo cuidado, você está cometendo o mesmo erro dos esquerdistas.

    Não acho que “anti-esquerdismo” é uma obrigação moral, porque quando digo “anti-esquerdismo” não me refiro à discordar e criticar a esquerda, me refiro à atacar a esquerda nos seguintes termos:
    1- Incondicionalmente (e ingenuamente); “se é de esquerda, é ruim”
    2- Homogeneizando todos os que se consideram de esquerda como se fossem “todos iguais” – sendo que há uma diversidade enorme de tendências nesse universo chamado esquerda
    3- Em todos os aspectos, como se na ideologia da esquerda não tivesse nada de útil e proveitoso (acho que denúncia da injustiça social do capitalismo pode ser um exemplo)

    E enfim, já que você está me fazendo o favor de ter a infelicidade de defender a esquerda, vou contrabalancear lembrando que, na União Soviética stalinista, “questão de sobrevivência” era “ser de esquerda” ou no mínimo fingir “ser de esquerda”.

    Abraço.

  6. Gáudio,

    Sobre o risco da crítica à ideologia tornar-se ela própria uma ideologia, ok, tomarei cuidado. Obrigado.

    Sobre a obrigação moral de combater a esquerda, a coisa é muito mais simples do que parece: historicamente a esquerda tem em sua ficha corrida aproximadamente 100 milhões de mortes. Você deve saber a belezura que foi o Grande Salto Adiante: cerca de 20 milhões de mortes em três anos.

    Só essa estatística macabra já bastaria para

    1) não deixar dúvidas de que em essência as ideologias de esquerda são genocidas ou, no mínimo, acham ok que 10% da população de um país morra de fome e/ou em campos de concentração em nome da causa revolucionária;

    2) banir de uma vez por todas as ideologias de esquerda do debate político-cultural de qualquer país do mundo — parece-me que em alguns países do leste europeu o comunismo foi realmente banido;

    3) perceber que não existe lado bom na esquerda. «Matamos 100 milhões, mas em compensação…» Sério, não vai rolar.

    Mas, sobre este último item, já que você tentou ver o lado bom da coisa, analisemos:

    1) Se é de esquerda, é ruim: sim, é. A rigor, ser de esquerda é querer mais e mais governo, é apostar que o governo pode trabalhar mais e melhor por mim do que eu mesmo. Mesmo que deixássemos os genocídios socialistas e comunistas de lado, há exemplos abundantes de que quanto mais governo, pior é.

    2) Como se fossem todos iguais: se é de esquerda, defende mais governo e menos liberdade. Você aceita? Em quais condições? Topa 40% de impostos? Topa Legislativo e Judiciário quebrando o pau enquanto o Executivo assiste de camarote e colhe os louros? Topa Revolução Cultural dentro da sua casa? A gente tem uma tendência a ver os fabianos com simpatia, porque parecem ter feito um bom serviço na Escandinávia, mas há inúmeros indícios de as coisas por lá não estão indo bem e o que vai bem ia ainda melhor antes do Welfare State dos esquerdistas.

    3) Útil e proveitoso na esquerda: alguns esquerdistas são críticos razoáveis da cultura de massa e do capitalismo especulativo. Ponto. «Injustiça social» é expressão absolutamente sem sentido. Se uma das coisas boas que esquerda faz é «denunciar injustiças sociais», pior para a esquerda.

    (Eu posso estar soando sarcástico, eu sei. Mas, apesar do tom, estou falando seriamente.)

    Seja como for, agradeço o comentário e o debate.

    Abraço pra ti.

  7. Rs. O Allende aqui na América da Sul fez um governo de esquerda, e… Bom, no mínimo não deram tempo a ele de fazer muito bobagem. “Cultura de massa” é um termo caindo em desuso, ficando ultrapassado – talvez porque assim como “injustiça social”, é muito amplo – pode ser qualquer coisa e acaba não sendo coisa nenhuma. Entendi seu sarcasmo.

    Mas pra ilustrar o que quero dizer com “injustiça social”, dou o exemplo da precariedade do investimento na educação pública e dos nossos bancos nadando em dinheiro, que é o mantra (já até muito chato) de meus conhecidos de esquerda.

    Bom o debate, se você achou alguma coisa útil e proveitosa nos opositores, é sinal de que os conhece melhor do que o texto deu a entender.

    Abraço.

  8. O Capitalismo é bonzinho, não matou ninguém, não criou guerras, não escravizou, não faliu nações, não manipulou, não idiotizou, não criou desigualdades…
    Adorei o artigo, estava decidido em comprar o Aurélio. Mudei de ideia. Agora conheço a qualidade do Houaiss e o porque é o dicionário referência da USP, indicado por todos os meus professores de Letras nessa universidade.

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