Comparar para valorizar

Christian Rocha
8 de Julho de 2003

Se todos os carros, comidas, livros e CDs custassem a mesma coisa e fossem igualmente acessíveis e disponíveis, o que determinaria nossas escolhas? O gosto, essa coisa inexplicável e indiscutível? A genética, a ascendência? O acaso, a coincidência?

Nenhuma escolha é tão acidental quanto parece, embora seus mecanismos sejam invisíveis às vezes. O gosto, que de fato é o que guia nossas escolhas, nada mais é do que uma crença na qualidade superior de um objeto associada à sua disponibilidade: as pessoas preferem coisas superiores, melhores e disponíveis. Elas gostam de Ferraris, dirá o leitor, e estes carros são possíveis para poucos cidadãos no mundo, mas, diante dessa impossibilidade, a maioria das pessoas preferirá o possível — seu velho e surrado Gol, por exemplo — ao impossível — a foto do bólido vermelho na parede do quarto. Resolvida a questão da disponibilidade, vemos também que ninguém prefere algo em cuja qualidade não crê: prefiro Mozart ao Harmonia do Samba porque creio na superioridade musical do primeiro. Não há um preconceito aqui: refiro-me a obras musicais, não a pessoas e não ao fato de Mozart ter vivido durante a efervescência cultural da Viena do séc. XVIII e os integrantes do Harmonia do Samba serem genuínos exemplares da cultura brasileira do início do séc. XXI. Refiro-me à qualidade de seus produtos e ao modo como eles me afetam individualmente, ora me causando deleite, ora me causando asco.

A questão do gosto e das escolhas fica mais confusa à medida que os objetos tornam-se mais abstratos e mais importantes na vida de uma pessoa. Pode-se preferir azul ao vermelho, ou peixe a frango, mas não se pode estabelecer um critério tão vago quando o assunto é o amor, o trabalho ou a própria vida. Nestes casos o relativo dá lugar ao absoluto e o gosto passa a ser discutível, já que a consistência do debate é diretamente proporcional à possibilidade de se lhe estabelecer referenciais fixos, isto é, à capacidade de encontrar elementos absolutos que norteiem uma discussão. Sim, pois somente a ingenuidade despretensiosa é capaz de considerar que tudo é relativo. A fragilidade intelectual, espiritual e estética de nosso tempo deve-se à repetição dessa idiotice: tudo é relativo — eis um dos lemas mais imbecilizantes da pós-modernidade. Se tudo é relativo, um homem pode ser tão importante quanto um aspargo e há poucas diferenças entre ter uma vida ética e aparentar ter uma vida ética, citando poucos exemplos.

Como me propus a falar do aikido, é melhor que eu traga logo a discussão para junto das artes marciais.

Descobri o aikido quando praticava kung-fu. Li algo sobre a arte e fui atraído pela idéia de leveza e fluidez, pelo desenvolvimento do ki e da não-competição. Desencantei-me quando vi um treino: embora uma demonstração pública de aikido possa ser espetacular, um treino não é exatamente bonito visto de fora. Descobri depois que a estética é um aspecto secundário nas artes marciais, sobretudo no aikido.

Tive a sorte de ter minhas primeiras aulas de aikido no Japão. Não pelo lugar e pelo modo como o aikido era praticado por lá — não há diferenças importantes entre o aikido praticado lá e aqui no Brasil, fui descobrir depois –, mas por não entender o idioma japonês, o que me obrigou a treinar sem o apoio de explicações orais e intelectuais. Meu sensei era um senhor severo e gentil; vê-lo em ação fez-me perceber as qualidades da arte. O aprendizado trouxe a certeza da escolha e, ainda que isso possa parecer leviano, da superioridade do aikido diante de outras artes marciais.

Qualquer pessoa que tenha se dedicado ao aikido por mais de três meses sob orientação de um instrutor esclarecido perceberá que qualquer declaração de superioridade contraria os princípios da arte. Se toda qualidade é relativa e a escolha desta ou daquela arte guia-se por critérios subjetivos, sim, toda declaração de superioridade é digna de censura. Mas há aqui o fator absoluto, aquele referencial sólido necessário para se estabelecer comparações justas: o budo.

O budo — o espírito das artes marciais — dispensa competições. O verdadeiro budoka (praticante do budo) não luta para vencer; ele pratica o caminho (a arte) para defender a vida. Ainda que se trate de uma arte competitiva — como o jiu-jitsu ou o karate –, o verdadeiro artista marcial sabe que a essência de sua arte está contida na essência do budo, isto é, proteger a vida e aproximá-la de Deus (ou Tao ou Ki Universal). Para o budoka, viver sem seguir estes preceitos é viver pela metade ou viver superficialmente. O treinamento meramente técnico ou competitivo também conduz a essa superficialidade.

É exatamente nesse sentido que se pode medir a qualidade do aikido. Seu fundador, Morihei Ueshiba, era enfático quando falava das bases espirituais do aikido e destacava que sua arte era uma conseqüência ou uma tradução do espírito do budo para um conjunto de práticas transmissíveis de mestre para discípulo. É impossível treinar aikido sem ser convidado a se dedicar a essa espiritualidade. Nem sempre essa dedicação acontecerá de formas arquetípicas, como em rituais, mensagens filosóficas e meditações; muitas vezes essa espiritualidade significará tão-somente focalizar (i.e., dar mais atenção a) alguns aspectos do treinamento. Além do fato de ter essa espiritualidade em sua base, o que torna o aikido melhor do que algumas artes marciais é o modo como ele se relaciona com o budo sem, no entanto, tornar-se hermético ou oriental demais. O aikido é, antes de tudo, uma arte humana e universal. Ao mesmo tempo em que o aikido se universaliza e se humaniza, ele não perde as bases espirituais e conceituais que o definem, porquanto elas foram constituídas conforme princípios universais de harmonia, igualdade, não-agressão e amor. Ao contrário das artes marciais tradicionais, o aikido foi proposto como uma arte da paz, como um meio de criar harmonia entre as pessoas. Conforme as palavras de Kisshomaru Ueshiba, filho do Fundador e segundo Dosshu:

“Em 1936, o Fundador decidiu que era hora de tornar clara a diferença entre as antigas artes marciais e a sua arte, dada a ênfase filosófica e espiritual que havia incorporado a esta última. Sentindo que a essência de sua nova arte era diferente da antiga tradição das artes marciais, abandonou o termo bujutsu e deu à sua arte o nome de Aikibudo. Esse passo necessário e inevitável lançou os fundamentos do futuro da sua escola. Como fundador de um novo sistema de arte marcial, sentiu profundamente a responsabilidade de subordinar sua busca pessoal é expansão do caminho entre todos os que poderiam interessar-se por ele.” ? O Espírito do Aikido, p.127.

É claro que a justiça da comparação seria plena se eu conhecesse profundamente outras artes marciais. Eu não as conheço além da superfície e talvez por isso estas palavras pareçam vazias. Não pretendo criticar outras artes, não pretendo polemizar gratuitamente, sobretudo porque todas as artes têm valor e são conduzidas em sua maioria por pessoas sábias que as perpetuam conforme a melhor tradição do budo. Contudo, o modo como algumas delas se desenvolveram modernamente acabou por deslocá-las do verdadeiro núcleo de todas as artes: a espiritualidade, o treinamento do corpo e da mente conforme os ditames do espírito. Toda arte marcial superior segue este preceito, reconhecendo que a maior vitória que existe é a vitória sobre si mesmo. Além do aikido, são poucas as artes que reconhecem esse adversário interno a ponto de se lhe dedicar o treinamento. Não existe harmonia enquanto não formos capazes de observar a origem de todas as desarmonias que nos afetam: nosso próprio ego. Eliminar o ego e refazer nossa ligação com Deus, eis os objetivos essenciais do aikido. Hoje, qual arte se dedica honesta e abertamente a estes objetivos?

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Um comentário sobre “Comparar para valorizar

  1. Gostei demais desse seu texto! Deveria se juntar a mim e ao Moreno para escrever no “Bud?”. ? incr?vel a import?ncia de perceber o real valor das arte marciais. N?o vi problema algum na sua compra??o, porque, de fato, dentre as artes marciais dispon?veis para treino, a mais pr?xima do Bud? ? sem d?vida o Aikido, ou o Kend? dos seguidores da Escola Shinto-Ryu. O resto virou esporte. Conhe?o muitos professores de karat? e j? treinei dois estilos. Sei bem que seu foco maior est? nas competi??es, tirando um ou outro professor raro.
    Escreva mais sobre o tema!
    Grande abra?o!

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