O seu Aikido é eficiente?

Christian Rocha
4 de julho de 2004


Tenho acompanhado algumas discussões em e-grupos de Aikido. Entre idéias filosóficas, questões técnicas e trocas de informações entre dojos, praticantes e mestres, a questão da eficiência da arte aparece com uma freqüência perturbadora.

Discute-se, por exemplo, se o Aikido é realmente eficiente como técnica de combate. Pergunta-se como seria um duelo entre o Aikido e outras artes marciais. Radicais de vários tipos alternam-se nas respostas. Uns dizem que o Aikido é eficiente, que suas técnicas marciais são devastadoras e que um atacante não teria chance contra um aikidoka experiente. Outros dizem que o objetivo da arte não é esse, que a filosofia é importante, que o Aikido é a arte de evitar o conflito, que o atacante na realidade deve ser chamado de parceiro. Estes dizem que o Aikido é Budo e que Budo é vida. Aqueles dizem que Aikido é Budo e que Budo é a arte de guerrear (a tradução literal fornece “a arte do samurai”).

Todos estão certos nestas colocações. O equívoco está nos pressupostos. As discussões surgem por algumas falhas de compreensão sobre as artes marciais, as pessoas e suas expectativas e objetivos em relação às artes que praticam.

Artes marciais são artes de combate. Suas origens, suas tradições e o modo como elas se perpetuam atualmente demonstram essa realidade. Treina-se arte marcial num dojo (“lugar em que se pratica o caminho”), sobre um tatami (superfície que absorve o impacto das quedas, preservando a integridade física do praticante), sob orientação de um sensei (“aquele que nasceu antes”), com uma pessoa (ou várias, que no Aikido são chamadas de uke ou tori) que lhe ataca de alguma forma (golpeando ou segurando a outra pessoa, de um modo geral). O objetivo do treinamento marcial é eliminar o ataque da forma mais rápida e eficiente possível.

A partir daqui cria-se a primeira confusão. Eficiência é um termo muito vago. O dicionário define eficiência como “a virtude de produzir um efeito”; portanto, a eficiência depende do efeito desejado.

No Japão feudal, a eficiência estava na capacidade de matar o oponente. Não havia uma dimensão espiritual no treinamento marcial. A tradição samurai nasceu entre camponeses, numa época em que a ausência de um governo central exigia que os camponeses defendessem suas próprias terras. Não havia uma espiritualidade ou um código de ética inerentes às técnicas desenvolvidas pelos primeiros samurais. Mais tarde, com a tradição samurai já consolidada, a ética e a espiritualidade já eram parte importante da vida dos guerreiros (a maioria dos livros e filmes que falam de samurais refere-se a essa época, compreendida entre os séculos XIV e XVII).

A tradição samurai foi influenciada por três correntes filosófico-espirituais: o zen-budismo, que lhe conferiu serenidade, desapego e leveza intelectual; o xintoísmo, que lhe ensinou o patriotismo e a lealdade; e o confucionismo, que lhe mostrou a importância das relações familiares, sociais e políticas. Apesar disso, a maior parte da prática samurai limitava-se a preparar-se para a guerra e a participar dela.

A Reforma de Meiji elimina a classe samurai, como diz José Yamashiro em seu História dos Samurais. A modernização implicou a modificação do papel do samurai na sociedade japonesa. Alguns analistas dizem que o impulso imperialista do Japão no início do séc. XX deve-se à distorção do espírito samurai, já que as invasões japonesas não condiziam com os princípios propostos pelo bushido (o código de ética do samurai). Fato é que, embora os samurais ainda representassem cerca de 50% na camada superior da sociedade japonesa nos anos 1930, não havia razões para manter o mesmo modo de vida combativo típico dos samurais em meio à modernidade do séc. XX.

Para sobreviver à Reforma de Meiji, que abalou a tradição guerreira dos samurais, muitas artes de combate tornaram-se artes de desenvolvimento pessoal. Desta forma a tradição samurai pôde manter-se viva. Nesta época surgem muitas das artes marciais praticadas atualmente, embora a raiz marcial de fato remonte ao tempo do Japão pré-feudal. Algumas substituem o sufixo -JUTSU pelo sufixo -DO: enquanto este significa caminho ou senda espiritual, aquele simboliza a arte de guerrear. Assim, o kenjutsu (a arte da espada) dá origem ao kendo, o jojutsu (a arte do bastão) origina o jodo, o jiujutsu origina o judo e assim sucessivamente.

A eficiência marcial deixa de ser a habilidade de derrotar o oponente e passa a ser a habilidade de aprimorar-se e desenvolver-se. O combate é mantido como forma de treinamento. Mas se no Japão medieval a habilidade marcial era medida pelas manchas de sangue do oponente no próprio kimono, modernamente ela passa a ser medida pela capacidade de preservar a vida, de aplicar as técnicas marciais não de forma destrutiva, mas de forma criativa, econômica e em conformidade com os princípios assinalados pelas doutrinas em que as artes se baseiam. Ao menos em tese, num mundo onde a violência é cada vez mais generalizada e terrível, o samurai moderno é aquele que é capaz de praticar artes de paz e não de guerra.

Não existe, portanto, uma forma de dissociar forma e conteúdo, técnica e espírito. A paz não é uma simples condição física. Assim como o artista marcial é composto de corpo, mente e espírito, um treinamento marcial só será completo quando desenvolver esses três aspectos do praticante, que na realidade são uma única e mesma coisa. Evidentemente, o homem cria dissociações para facilitar sua compreensão da natureza e de sua própria natureza.

A vida de Morihei Ueshiba coincide com o período de maior transformação das artes marciais. Mestre Ueshiba começa sua vida no Daito-ryu Aikijiujitsu e termina como fundador do Aikido, consagrado como um dos maiores artistas marciais da história, recebendo ainda em vida o título de Tesouro do Japão. Essa transformação não se deu simplesmente através do treinamento marcial ou apenas através de práticas ascéticas e espirituais. A vida de O-Sensei (como é reconhecido atualmente) é uma prova da combinação harmoniosa entre práticas marciais, filosóficas e espirituais. O-Sensei pode ser considerado o maior samurai moderno, talvez o único.

Embora a guerra tenha deixado de ser o objetivo das artes marciais, elas preservaram a competitividade e a oposição, dois elementos-chave para a solidificação do espírito guerreiro. A maioria das artes marciais coloca uma pessoa diante da outra. Uma ataca e a outra se defende sem preocupações maiores com o atacante. O objetivo da defesa é anular o ataque, ainda que isso possa causar ferimentos ou contusões no atacante. Por causa disso, luxações, hematomas e até fraturas não são conseqüências raras do treinamento de muitas artes. Algumas, prevendo esse tipo de ocorrência, utilizam exercícios de calejamento e de desenvolvimento muscular, de modo a ganhar força e resistência para suportar golpes e torções.

Mestre Ueshiba percebeu que isso era um problema. Graças à sua ascendência xintoísta e à sua sabedoria desenvolvida com estudo perseverante, Morihei percebeu que a competitividade é uma das principais causas da violência. O desejo de tornar-se melhor do que o outro deveria ser substituído pelo desejo de tornar-se melhor do que si mesmo. Esta é uma das características mais importantes do Aikido.

A ausência de competições tornou possível a simplicidade e a naturalidade do Aikido. Como o objetivo não é derrotar o oponente, não há razões externas para tornar-se forte com exercícios físicos severos, tampouco para calejar o corpo com técnicas agressivas. O progresso acontece na medida em que o próprio praticante deseja e permite, não conforme calendários de competições, o desejo do mestre ou a influência dos companheiros de treino.

A competição é a reprodução moderna da ética das antigas artes de guerra. Como tal, só poderia renovar o espírito combativo que existia no Japão antigo. Isso explica o fato de alguns clássicos da arte da guerra serem interpretados sob a óptica empresarial, como é o caso dos livros de Sun Tzu e de Miyamoto Musashi. Trata-se, tão somente, da perpetuação do espírito agressivo dos antigos samurais, desta vez sem sangue, espadas ou técnicas marciais, mas ainda com competitividade.

A eficiência do Aikido está na sua capacidade de sobrepujar essa agressividade natural do ser humano. O-Sensei foi bastante claro em seus objetivos quando desenvolveu o Aikido. Diz ele em seus poemas:

“Não há adversários na Arte da Paz. Um verdadeiro guerreiro é invencível porque não está em luta com coisa alguma. A derrota significa derrotar a mente na luta que acolhemos dentro de nós.”

“O verdadeiro guerreiro está sempre armado com 3 coisas: a radiante espada da pacificação; sabedoria e amizade; e a preciosa jóia da iluminação.”

“A ARTE DA PAZ é o princípio da não-resistência. Uma vez que é não-resistente, ela é vitoriosa desde o começo. Aqueles imbuídos de más intenções e de pensamentos contenciosos são vencidos instantaneamente. A Arte da Paz é invencível pois não está em luta com coisa alguma.”

E sobretudo:

“O Caminho de um Guerreiro [BUDO] é baseado na humanidade, amor e sinceridade; o coração do valor marcial é a verdadeira bravura, sabedoria, amor e amizade. A ênfase colocada nos aspectos físicos da arte de guerrear é fútil, pois o poder do corpo é sempre limitado.”

A segunda confusão que se dá em torno da eficiência surge daquele que é o principal paradoxo do Aikido.

O Aikido tem diversos epítetos: a arte da paz, o caminho da harmonia, o caminho da sabedoria, a arte da cooperação, a arte da reconciliação. Todos este nomes coincidem em pelo menos um ponto: união. A paz existe onde não há conflito; se as pessoas estão unidas, há paz, pois não há diferença entre mim e as outras pessoas. Assim ocorre com a harmonia. Além disso, uma das marcas do sábio é a capacidade de gerar união e consonância, de trazer à tona os elementos que aproximam coisas e pessoas diferentes; todo sábio é, portanto, um pacificador. Reconciliar significa também reunir, aproximar o que estava distante. E a cooperação só ocorre quando existe proximidade e união. O próprio nome Aikido traz em si a palavra Aiki. Aiki significa “harmonia com energia” ou “unificação do ki” (ki é a energia que fornece e sustenta a vida em todas as suas formas).

Como crer que uma arte com estes significados possa acontecer através de técnicas de combate? A resposta surge quando observamos um dos epítetos acima expostos: reconciliação.

O-Sensei conhecia a natureza humana. Ele próprio foi vítima de diversos ataques no início de sua vida de artista marcial — é emblemática a história de sua viagem à Mongólia, onde foi preso e por pouco não foi executado. A Aikikai, que promoveria a divulgação do Aikido no mundo, foi fundada em 1948, poucos anos depois do final da Segunda Guerra, ainda com o Japão marcado pela derrota. Seria inadequado propor uma arte de reconciliação sem propor maneiras capazes de lidar com as causas dos conflitos e com a agressividade inerente ao ser humano. Como passar da violência à paz?

A primeira forma de lidar com a violência é sobrevivendo a ela. Para isso não é necessário matar ou ferir os supostos agressores, mas apenas livrar-se das agressões.

A segunda forma é eliminar ou interromper a violência, isto é, a ação física. Isso não pode ser feito de uma forma qualquer. Se uma pessoa lhe dá um soco, há várias técnicas de defesa que lhe permitirão defender-se fraturando o braço do oponente. Mas isso não parece inteligente, já que uma defesa desse tipo provavelmente terá causado sérios ferimentos, rancor e ódio — coisas que alimentam a agressividade e o espírito vingativo. A defesa, neste caso, teve efeito inverso, isto é, aumentou a possibilidade de um ataque.

A terceira forma é transformar o espírito agressivo em espírito pacífico. Abraham Lincoln dizia que uma das melhores formas de eliminar um inimigo é transformá-lo em amigo.

A primeira forma é o “o que” da arte marcial — sobrevivência. A segunda forma é o “como”. A terceira forma é o “por que”. Técnica e eticamente falando, a arte marcial é 1) uma forma de defender-se de um agressor, 2) de preservar a integridade física, espiritual e mental das pessoas envolvidas na agressão e, principalmente, 3) de transformar o espírito delas.

As religiões se propõem a construir um mundo pacífico, a harmonizar e eliminar os conflitos, mas a maioria delas é ineficaz ao lidar com ações violentas — algumas até são usadas por fanáticos em ações desse tipo. Da mesma forma, muitas artes marciais permitem a defesa pessoal eficaz, mas causam traumas e estimulam a competitividade, como foi dito antes. E há diversas práticas que tornam o indivíduo forte e resistente, capaz de sobreviver a agressões diversas, mas que não o tornam capaz de pacificar.

As três formas expostas, portanto, não se anulam nem se opõem, apenas se completam. O Aikido se propõe a reuni-las numa única arte.

Dito isso, discutir a eficiência do Aikido só faz sentido se definirmos o efeito que se espera da arte. O Aikido pode ser um meio de sobreviver a uma agressão, um conjunto de técnicas para controlar um agressor ou uma arte de pacificação. O mais interessante, no entanto, é que o Aikido propõe essas três coisas ao mesmo tempo, sem se prender a qualquer um desses três aspectos. A vacuidade espiritual da prática do Aikido reduz a arte a um conjunto de técnicas de combate. A vacuidade técnica transformaria o Aikido em religião ou simples filosofia. A vacuidade intelectual e filosófica dificultaria o desenvolvimento espiritual e daria espaço à agressividade e à competição. Aikido é corpo, mente e espírito — não nesta ordem, mas simultaneamente.

O fato de o treinamento começar pelas técnicas físicas não exclui o treinamento mental e espiritual. Da mesma forma, o desenvolvimento espiritual e mental não deve reduzir a importância do treinamento técnico e físico. O paradoxo do Aikido e as confusões decorrentes só existem para quem permanece ligado aos elementos visíveis da arte. Sob a técnica e a capacidade impressionante de derrubar oponentes existem anos de treinamento dedicados à purificação de si (no Aikido, esse processo é chamado de misogi) e harmonização do mundo. O-Sensei via o Aikido como uma panacéia, como ele mesmo dizia:

“O mundo continuará a mudar drasticamente, mas as lutas e a guerra podem nos destruir completamente. O que necessitamos agora são técnicas de harmonia, e não de repressão. A Arte da Paz é necessária e não a Arte da Guerra.”

Por fim, a terceira confusão relacionada à eficiência do Aikido diz respeito à própria existência da arte. Primeiramente, não se sabe até que ponto a arte existe por si e até que ponto ela existe através de seus praticantes. O que é o Aikido? Tentar responder esta pergunta conduziria a digressões metafísicas extensas demais para um ensaio já excessivamente longo.

Se o Aikido possui uma realidade apreensível ela se deve sobretudo ao trabalho dos grandes mestres que estudaram com O-Sensei e também de todos aqueles que de alguma forma se dedicam a perpetuar a arte. Atualmente o Aikido está presente em quase todos os países do mundo. Até a década de 1950 era uma arte presente apenas no Japão. Em pouco mais de 50 anos espalhou-se e colocou-se à disposição de pessoas muito diversas. Naturalmente a arte foi influenciada pela cultura dessas pessoas, assim como a visão particular de cada discípulo de O-Sensei deu origem aos estilos que hoje se nos apresentam. Não há razões para crer que uma linha, um mestre ou um dojo é melhor ou mais autêntico, a não ser por critérios muito particulares, limitados e que, portanto, se justificam apenas pela preferência pessoal. Eu, por exemplo, pratico o Ki-Aikido por razões muito pessoais. Cresci nesta linha e devo respeito, lealdade e gratidão a ela. Isso não me permite ignorar, criticar ou recusar os ensinamentos de outros mestres e de outras linhas.

Por estes motivos, o critério de eficiência do Aikido muda conforme as características de cada linha. Em linhas mais técnicas, a eficiência é medida pela capacidade técnica. No Ki-Aikido os critérios envolvem “testes de ki” e outros exercícios com pouca ênfase marcial. Todas as linhas coincidem, no entanto, no objetivo de fazer o aikidoka desenvolver-se completamente, física, mental e espiritualmente.

O procedimento mais sábio seria praticar todos os estilos existentes, inclusive aqueles menos comuns e mais isolados, mas essa tarefa é humanamente impossível. Diante dessa impossibilidade, o respeito às diferenças já basta. Para respeitar, basta perceber que aquele Aikido que é diferente do seu é apenas uma faceta do Aikido transmitido por O-Sensei.

***
Nota: espero que o leitor que teve a paciência e o interesse para chegar ao final deste ensaio entenda que o título não pretendia desafiar, mas fazer pensar. Afinal, o “seu” Aikido não é seu, mas a expressão daquilo que seu mestre lhe ensinou. Ele, por sua vez, aprendeu com outro mestre e todos eles tiveram O-Sensei como fonte comum, sábio samurai que dizia que Aikido é amor, respeito e união.

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4 comentários sobre “O seu Aikido é eficiente?

  1. Onde eu assino??

    Simplesmente perfeito…
    muitos acreditam que artes marciais está para incitar a violencia…Algo que todos os amantes, e conhecedores da verdadeira Arte Marcial,sabe que definitivamente não é…
    Parabens pelo excelente texto!!

  2. Diante de tao belo texto chega a ser dificil enontrar palavras para comentalo. Parabens. Excelente e inspirador o texto.
    Marcio Etiane – Wa Aikido – Manaus – AM

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