Sobre a violência

Numa entrevista em um programa de TV, um mestre de artes marciais recebeu a seguinte pergunta: “o que você faria se um bandido lhe ameaçasse com um rev?lver e tentasse lhe tomar sua carteira?”. O mestre pensou por uns instantes na pergunta, olhou para o entrevistador e respondeu: “Bem, eu a entregaria”. O entrevistador não conseguiu esconder sua decepção, logo pulando para a pergunta seguinte. Decerto esperava ele uma descrição frenética de alguma técnica marcial devastadora.

O episódio, que já deve ter acontecido mais vezes com mestres de artes marciais, revela ignorância em relação ao que são as artes marciais e o que é a violência, sobretudo a urbana, que nos influencia diretamente.

Artes marciais são caminhos espirituais. Por caminho espiritual quero dizer caminho de vida e a vida deve ser compreendida de maneira ampla e completa. Um caminho espiritual compreende, desta forma, corpo, mente e espírito, preferencialmente conjugados e equilibrados. A ausência dessa explicação permite que se pense num caminho espiritual como algo místico, algo que praticamente inexiste na maioria das artes marciais. Caminho espiritual significa que a prática conduz à elevação espiritual e que ela inclui, necessária e inevitavelmente, o desenvolvimento do corpo e da mente. Não existe, portanto, arte marcial genuína sem aperfeiçoamento corporal e mental.

Desenvolver corpo, mente e espírito é o objetivo de toda arte marcial, mas não o único, pois este objetivo é por demais individual. Outro objetivo das artes marciais é tornar o mundo melhor. À parte o idealismo que isso possa representar, também este objetivo é conseguido através da prática, em que pessoas diferentes se reúnem num espaço usualmente bastante despojado, vestem-se com roupas simples e discretas e praticam silenciosamente o mesmo exercício de lapidação do corpo, da mente e do espírito. Diferentemente da maioria das religiões, essas pessoas não são convidadas a cantar, a rezar ou a estudar textos sagrados, mas a treinar técnicas marciais e a interagir umas com as outras com sinceridade e respeito. Em japonês, este lugar chama-se dojo (pronuncia-se dojô). A interação é uma das principais maneiras de se aperfeiçoar o corpo, a mente e o espírito, e parte do pressuposto de que só a vida em sociedade é digna de ser vivida. É neste ponto em que podemos começar a falar da violência.

O mestre de artes marciais que tem sua caminhada interrompida por um assaltante com arma em punho não vê outra alternativa senão a de entregar seu dinheiro. Várias artes marciais ensinam técnicas eficientes para defesa em diversas situações; algumas podem ser usadas num assalto, seja para dominar o assaltante, seja para matá-lo. Poucas ensinam que não se deve arriscar a vida num assalto. Poucas ensinam que não se deve arriscar um bem divino por causa de um bem material, mostrando, desta forma, qual a verdadeira ordem das coisas.

Diante de uma situação de violência, várias atitudes podem ser tomadas. Uma delas é o contra-ataque, que invariavelmente aumenta o grau de violência da situação pois coloca as duas pessoas em combate franco, aberto e, em geral, sangrento. Quase sempre uma das duas sairá ferida ou morta. Outra opção é a defesa inconsciente e instintiva, que também pode causar ferimentos ou morte. A defesa inconsciente pressupõe consciência em relação à própria integridade, mas dispensa o defensor de considerações maiores sobre a integridade do atacante. Uma terceira opção é a defesa consciente, aquela em que o defensor evita um ataque sem recorrer ao uso de violência, sem causar danos ao atacante. É uma forma mais eficaz e mais difícil de defesa.

Enquanto as duas primeiras formas alimentam a violência ao reproduzi-la (seja na forma de ataque ou de defesa), a terceira forma de defesa busca eliminá-la desde sua origem. A defesa consciente recusa-se a falar o mesmo idioma do atacante, evitando não apenas o ataque, mas também a defesa que possa levar às mesma conseqüências de um ataque. A diferença entre a terceira forma de defesa e as duas formas anteriores não se resume apenas às técnicas que cada defensor usará, mas inclui a consideração das causas do ataque e das conseqüências da defesa.

Alguns podem argumentar que é impossível ponderar numa situação de violência. Para isso o praticante de artes marciais treina, desenvolve corpo e mente para poder responder um ataque com eficiência, rapidez e civilidade.

Há, no entanto, uma quarta forma de defesa. É aquela que se antecipa ao ataque e não dá espaço nem razões para que ele aconteça. É a forma mais difícil de defesa, pois pressupõe uma percepção apurada, não apenas do ambiente e das pessoas, mas das situações que dão origem à violência.

Isto dito, não surpreende que a violência urbana seja comum em muitas cidades brasileiras. A violência é a confluência de fatores diversos: ambiente, falta de cultura e de bases morais, presença de vítimas potenciais e indisponibilidade de meios para defesa, disponibilidade de meios para o ataque, ineficiência dos instrumentos oficiais de coibição e punição a criminosos etc. A violência nasce por uma razão muito pessoal — é o indivíduo que decide se atacará ou não outra pessoa — e espalha-se por razões sociais — pela cultura de violência que impregnou um grupo, presença de armas, pela ausência de meios de defesa, pela falta de policiamento e pela Justiça ineficaz. Perceber estes fatores e o modo como eles interagem entre si é necessário para se antecipar a um ataque, prevendo as condições em que ele poderá acontecer e, desta forma, evitando até mesmo a intenção violenta do agressor ou criminoso.

Esta quarta forma de defesa, ideal e perfeita, implica tirar do agressor ou do criminoso sua vontade de agredir ou de cometer um crime. Em termos ainda mais utópicos, isso significaria transformar a sociedade definitiva e profundamente, impregnando-a de bons exemplos e de boas ações. Claro que não há como causar essas transformações senão iniciando-as em nós mesmos.

Mesmo assim, as principais dificuldades dessa quarta opção residem no fato de que muitas pessoas justas, decentes e respeitáveis são vítimas de violência. Este fato deixa dúvidas quanto à importância de se polir o caráter, de se tornar uma pessoa justa e de se desenvolver para evitar praticar a violência e outros atos que nós censuraríamos em outras pessoas. A ética cristã — “tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós” — raramente sobrevive ao exame humano, invariavelmente superficial e egoísta. Se os bons recebem como recompensa a mesma violência que vitima os maus, por que ser bom? Por que polir o caráter? Por que tratar outras pessoas com justiça e respeito? Por que se educar, estudar, aprimorar-se constantemente e evitar a reprodução da violência? Movidos por estas perguntas, pessoas que não têm caráter saem às ruas cometendo crimes e pessoas que têm algum buscam meios irracionais de defesa, tornam-se neuróticas.

Mas é por excesso de humanidade que a violência se forma. Não se pode falar em humanidade sem pensar em imperfeição e incompletude. A violência é, antes, uma forma abominável de arrogância, um modo que uma pessoa agressiva escolhe para expressar aquilo que deseja ou pensa. Disto, uma forma de eliminar a violência é perceber qualquer traço de arrogância dentro de si mesmo, revestir-se de humildade e transformar-se em aprendiz.

Por esta razão compreende-se a verdadeira vocação das artes marciais. Não o ensino de técnicas de defesa e do espírito combativo, mas o ensino da humildade, da bondade e do respeito. Todo estudante de artes marciais compreende desde cedo que a violência num dojo é inútil e inaceitável. Com o tempo ele percebe que o que se pratica no dojo não é diferente do que se vive diariamente fora dele. O espaço é diferente, as roupas e as pessoas são diferentes, mas a arte marcial lhe diz, às vezes metaforicamente, às vezes diretamente, aquilo que ele deve aprender como pessoa e qual deve ser sua atitude para com outras pessoas.

A violência é um fenômeno bastante complexo para ser compreendido e solucionado rapidamente. Lidar com ela pressupõe recusar a linguagem do mal e falar a linguagem do bem. Pressupõe, em outras palavras, dispensar a agressividade, o rancor e o ódio, e ao mesmo tempo ter caráter, humildade e respeito pelas outras pessoas, mesmo um criminoso. Diante de um crime, um homem de bem não recorre à violência, mas à justiça, que pressupõe que o criminoso seja punido e a vítima seja compensada, sem pusilanimidade e sem espírito vingativo.

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Escrito originalmente em 1º de maio de 2005.

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