Brasil 2004: um plano de fuga

Christian Rocha
3 de abril de 2004


Já defendi outrora a fuga para lugares onde o tempo parou, cidades pequenas, que vivem em outra velocidade, onde as pessoas têm objetivos e vidas diferentes dos que vejo nas grandes cidades.

Ocorreu-me, contudo, que eu poderia ter errado numa coisa: esses lugares, aparentemente tão pacatos e estáveis, podem mudar. Eles estão tão profundamente ligados a uma lógica nacional que é uma questão de tempo até que eles cresçam e apareçam no caderno Cotidiano, da Falha de S. Paulo. A impressão de que nesses lugares o tempo parou é apenas uma impressão, causada por uma percepção incompleta, ligada à minha própria imaturidade. Lá o tempo não parou, é claro, apenas passa de forma diferente.

A prova disso estava sob meu nariz. Vivo numa cidadezinha que está deixando de ser uma cidadezinha. Por muitos anos Ilhabela foi um lugar em que o tempo parou: lento, pacato e humanamente estéril. Faz pouco tempo que percebi uma pequena metrópole onde antes eu jurava ver uma vila de pescadores. A transformação não aconteceu da noite para o dia, evidentemente.

Assim, minha busca encontrava-se numa encruzilhada. Se Ilhabela — o lugar que escolhi para viver — não era mais o idílio que eu idealizava como sepultura, vi-me obrigado a ampliar minha busca para além dos limites deste país.

Todas as cidades brasileiras estão dominadas pelo que eu chamaria de império dos acontecimentos. Todo brasileiro vê a necessidade de acontecer, de vencer na vida. Toda cidade se desenvolve sob esse espírito. Ele não é norte-americano, como gostam de pensar alguns. Recuando no tempo, imagino que seja britânico ou ibérico, idéia que tem relação com o colonialismo, vocação típica de pessoas e nações insatisfeitas e invejosas: em vez de cuidar do quintal da própria casa, deixam-no sujo e pilham a casa do vizinho para obter bibelôs para a sala de estar. Para essas pessoas, vencer é isso: adquirir ornamentos, isto é, qualquer coisa que lhes dê destaque (carros, casas, cargos) para conseguir… mais ornamentos.

Se um chefe de família é assim, toda a família cresce dessa forma. Se ele não vê um fim superior para seus ganhos materiais ou se esse fim não está sempre em mente durante todo o processo de obtenção de bens, então o objetivo será definido à revelia de seu agente, geralmente em detrimento dele próprio e em benefício do processo per se. A isso, algumas pessoas chamam resumidamente de “tornar-se escravo do dinheiro”.

O problema é que uma cidade inteira pode ser assim. Mais: uma nação inteira pode ser regida dessa forma. O Brasil é. Graças à fúria expansionista — seja para “conquistar mercados”, para “dar certo” ou para continuar sendo “o país do futuro” — brasileiros são sacrificados e ainda sorriem para quem lhes açoita diariamente, o que na prática significa ver 40% de seus ganhos descer pelos ralos estatais e receber serviços ruins em troca. As boas intenções do expansionismo nacional expande apenas as reservas do Estado.

Claro que o Estado é reflexo do povo, o que me obriga a voltar a falar do país e não dividir o discurso entre Estado e população. O Brasil é o sujeito que tenta nadar contra a maré, sem perceber os tubarões ao redor e uma piscina ampla e vazia (de pessoas) logo ao lado. Ele se agita, faz uma gritaria dos infernos e tudo que consegue é uma bóia de isopor fedorenta, como aquelas que ficam empilhadas no fundo das escunas, em períodos de pouco movimento em cidades turísticas decadentes. Não há nada mais patético do que viver no Brasil: como tal, cedo ou tarde você será obrigado a segurar naquela bóia de isopor.

Se eu fosse de escrever manifestos sérios (como você pode ver, raramente consigo ir além das confissões), incitaria os operários a largar os mouses, desligar os laptops, subir na mesa de reunião e dizer em alto e bom-tom: “Vamos para Zurique!” — de Swiss Air, primeira classe, evidentemente.

Além de possuir bons cofres e produzir bons relógios e chocolates, nada mais acontece na Suiça. Há neve também, bons hotéis, esportes de inverno e três idiomas, que as crianças aprendem desde cedo. Em pleno centro da Europa, a Suiça foi um dos poucos países que sobreviveram às loucuras nazistas (ao expansionismo nazista, lembre). O que falta para o brasileiro dar certo é estar na Suiça. Toda a Suiça é uma cidade pequena onde o tempo parou (daí o paradoxo da tradição dos relógios…). A modernidade vem, é claro, mas é difícil imaginar na Suiça aquilo que vemos, por exemplo, na América ou na Europa Ibérica. Lá há também Carnaval, MTV e drogas ilícitas, mas estas coisas não têm a dimensão cultural que têm em países moderninhos. Querer ser moderninho é a melhor forma de afundar na própria obsolescência.

O Brasil quer ser moderninho. O Brasil quer chegar lá, e é isso que o torna tão patético — infeliz, diria Schopenhauer em seu tratado sobre eudemonismo. Todo o país busca algo que está fora, que o empurrará para fora e que ao mesmo tempo o torna cego para as coisas de dentro, mínimas e essenciais (1).

Diante dos problemas sociais, políticos e econômicos, dizem que o Brasil é uma bomba-relógio. Eu discordo: este país está mais para uma fossa prestes a vazar.



(1) “A experiência dos milênios, no entanto, pode ser obscurecida até tornar-se invisível e inconcebível. Basta que um povo de mentalidade estreita seja confirmado na sua ilusão materialista por uma filosofia mesquinha que tudo explique pelas causas econômicas. Acreditando que precisa resolver seus problemas materiais antes de cuidar do espírito, esse povo permanecerá espiritualmente rasteiro e nunca se tornará inteligente o bastante para acumular o capital cultural necessário à solução daqueles problemas”. Trecho de O orgulho do fracasso, artigo de Olavo de Carvalho publicado n’O Globo de 27 de Dezembro de 2003.

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