Onde o tempo parou

Christian Rocha
O Expressionista – Junho de 2002



Uma rápida passagem por qualquer telejornal noturno pode ensinar muito a respeito de nossas metrópoles. Em São Paulo, os engarrafamentos são a imolação diária dos motoristas. No Rio de Janeiro, a instituição do malfadado poder paralelo através do crime organizado sobrepõe-se à sociedade e ao Estado desorganizados. Em todas as outras grandes cidades brasileiras os problemas não são menores; violência, poluição, pobreza e trânsito intenso repetem-se como se cada cidade fosse uma cópia mal-feita de um modelo ultrapassado.

Não é exagero referir-se à metrópole como um gigantesco mecanismo cujo funcionamento não pode ser interrompido nunca. Um observador isolado ficaria intimidado diante de qualquer grande avenida, diante da altura dos arranha-céus e do fluxo incessante de pessoas em estações de trens, metrô e ônibus. O que sente uma pessoa ao se deparar com algo que a reduz a um número? Se fosse possível observar a cidade e a população como objetos distintos, seria fácil estabelecer uma hierarquia: esta vive em função daquela. O humanismo só existe numa metrópole na medida em que ela permite a existência dos meios que o nutrem. Neste sentido, a máxima cristã — “nem só de pão vive o homem” — tem sido invariavelmente ignorada, o que causa a impressão de que o humanismo é um empecilho ao desenvolvimento da metrópole.

O trânsito é pensado em função dos veículos; o pedestre é um obstáculo, o mal-sucedido que não foi capaz de comprar um carro e usufruir as grandes avenidas projetadas por burocratas. A educação existe dentro dos limites das escolas e das bibliotecas; colocada desta forma, ela sempre é um estorvo para qualquer estudante e com isso eterniza-se o conflito entre a necessidade e a vontade de aprender. A saúde está contida em hospitais, postos de saúde e repartições públicas de assistência; passa-se mais tempo em filas e cemitérios do que em consultórios médicos. O lazer é direcionado a cinemas, bares, danceterias e outros templos dionisíacos; todos têm seu preço e sua participação na dinâmica urbana de exclusão e mediocridade. Cada um desses lugares é artificialmente construído, em vez de constituir-se sobre bases mais humanas, justas e dignas. Em cada um desses setores da vida, confunde-se o conceito com o lugar que o representa, geralmente em detrimento daqueles que precisam de educação, saúde e cultura autênticas.

Não apenas por razões dimensionais, o contraponto à metrópole está em cada cidade pequena, aquela com pouco menos de dez mil habitantes, com uma estrutura rústica de serviços e uma população que ainda se remete às tradições para determinar seu futuro. Numa pequena cidade tem-se a sensação de que o tempo parou; ele só existe na proporção direta da relação dessa cidade com uma metrópole, donde vem toda sua urbanidade. Em geral numa cidade pequena não há violência porque não há nada muito palpável que se possa desejar e possuir; com freqüência as tradições, os costumes, o patrimônio ambiental e cultural são considerados as verdadeiras riquezas do lugar. Cidades pequenas são construídas sobre esses pilares, quase sempre invisíveis, quase sempre alheios à dinâmica que rege as metrópoles. Nestas, o desenvolvimento resume-se à hipertrofia que pretende contornar os problemas existentes. Nas cidades pequenas, o desenvolvimento é uma forma de inércia, isto é, consiste em preservar as virtudes e os valores existentes.

Há cidades que estão a meio caminho entre essas duas realidades — a da metrópole e a da cidade pequena. Embora sejam cidades ainda muito ricas em tradições e recursos ambientais, os primeiros traços de urbanidade já são sentidos na prioridade dada ao crescimento exterior (estrutural) em detrimento do crescimento interior (social). Se olharmos com mais atenção, a maioria das cidades brasileiras encontra-se neste grupo. São as chamadas cidades médias, não apenas no número de habitantes, mas também nos princípios que determinam a dinâmica destas cidades. Estes princípios já não são completamente vernaculares, mas também não estão inteiramente subordinados à urbanidade das metrópoles. Talvez por isso tais cidades sejam um importante laboratório para observadores e pensadores urbanos; nelas é possível observar a morte iminente de tradições seculares e de recursos ambientais abundantes e a opção — nem sempre consciente, mas sempre mortal — pelos confortos metropolitanos.

Pode-se observar nestas três categorias de cidades uma escala de humanidade. Numa metrópole, a vida existe na medida em que existem estruturas definidas de serviços e utilidades públicas regidas pelo tempo — transporte, escolas, hospitais, museus, shopping centers, edifícios de escritórios, espaços em que tudo deve funcionar conforme um tempo determinado. Numa cidade pequena, a vida existe na medida em que há espaço para que as pessoas relacionem-se naturalmente; a escassez de serviços é determinada pela pouca necessidade que há deles; quem vive numa cidade pequena goza a possibilidade de desenvolver-se interiormente sem escravizar-se pelo desenvolvimento exterior — não há por que ostentar porque não há para quem ostentar. Uma cidade pequena é, de algum modo, o sonho possível dos socialistas.

A cura para a doença de uma metrópole começa na observação atenta das cidades que são menores do que ela. Cada uma delas ensinará algo, seja por mostrar a preservação absoluta de recursos humanos e ambientais ou a destruição incipiente dos mesmos. Quanto às metrópoles, elas só nos transmitem uma lição essencial: a idéia de que é necessário fugir para sobreviver, isto é, que toda vida metropolitana um dia se dedicará à sua própria expiação em lugares tranqüilos e distantes. Qual cidadão metropolitano, mesmo o mais mundano e materialista, não deseja viver num lugar onde o tempo parou?

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