Como estragar uma obra-prima

31 de Julho de 2003
Christian Rocha

Em nome da homenagem à Nossa Senhora, pagodeiros tocam Ave Maria ao cavaquinho. Schubert dá pulos no sepulcro, inconformado por não poder fazer nada. Nunca vi um pagodeiro que soubesse tocar Ave Maria ao piano.

Nas grandes livrarias pipocam os livros que abusam de dois clássicos da literatura filosófica chinesa: o Tao Te King, de Lao Tzu, e A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Recentemente vi O Tao das Finanças e A Arte da Guerra na Alta Tecnologia. Simples assim. Torço para que apareça uma versão taoísta do Tao Te Ching e, quem sabe, algo como A Arte da Guerra nas artes marciais. Mas, ah, taoístas e artistas marciais não precisam de “versões” destas obras: o Tao Te King é o que origina o próprio taoísmo e A Arte da Guerra é um tratado de marcialidade, caso ninguém tenha notado.

Recentemente o italiano Domenico de Masi, mais conhecido por seu livro Ócio Criativo, reeditou e comentou a magnífica obra do jesuíta espanhol Baltazar Gracián, A Arte da Prudência. Tratava-se de uma seleção dos melhores aforismos entre os 300 da obra original. Fogem-me os critérios que Masi utilizou. Fico pensando por que alguém compraria uma obra pela metade, podendo comprar a original por menos da metade do preço: o livro de Masi custa algo em torno de 25 reais e contém pouco mais de uma centena de aforismos de Gracián; o livro original contém os 300 aforismos originais e custa em média 10 reais.

Os maiores inimigos da literatura brasileira são os professores de literatura, que obrigam os alunos a ler os melhores livros dos melhores autores. Por causa disto, criaram-se legiões de jovens alérgicos a Machado de Assis, a Lima Barreto e a Graciliano Ramos. A maioria encontra conforto nos ombros amigos de johns grishams, paulos coelhos e sidneys sheldons, quando não deriva em direções mais torpes. O que é bom é naturalmente procurado, e é melhor que esse contato com a qualidade seja realmente espontâneo. Professores deveriam oferecer literatura medíocre aos seus alunos, dizer-lhes “isto é medíocre por causa disto, disto e disto” e deixar-lhes com uma lista das obras que realmente merecem ser lidas, para que sejam lidas no banheiro ou num acampamento de férias ou quando chover no sábado. Obra-prima não combina com obrigação.

Diante desses exemplos, penso que a melhor maneira de estragar uma obra-prima é trazê-la para perto de si, permitindo que a própria petulância de ouvinte, leitor ou espectador macule a qualidade original da obra. É bastante fácil um empresário ler o Tao Te Ching e interpretá-lo conforme seus interesses; daí a lançar uma versão empresarial da obra máxima do taoísmo, basta ter os recursos necessários, que não necessariamente incluem respeito pela obra original de Lao Tzu. O mesmo pode ser dito da mais deturpada de todas as obras, A Arte da Guerra, escrita originalmente para inspirar grandes generais, hoje usada por jovens e audaciosos empresários que viram no mercado um campo de guerra. Nada errado nisso, desde que não se use o bom nome dos mestres chineses para promover uma estratégia para esmagar a empresa concorrente. Basta mudar as capas dos livros.

A questão da música é mais complicada. O que há de comum entre Schubert e um pagodeiro? Os dois, em algum momento, tocaram Ave Maria, composta pelo primeiro. Mas então o ouvinte acha a música agradável, fica admirado com a habilidade cavaquinística do pagodeiro. Ninguém vai ouvir Schubert porque ouviu um pagodeiro tocando Ave Maria, e o que originalmente era uma homenagem torna-se uma simples macaquice musical. E todos dormem em paz com isso. O mesmo acontecia quando o caminhãozinho do gás tocava Für Elise. Ouvi alguém falar de Beethoven?

Uma das maiores marcas do nosso tempo é a capacidade de inventar versões de obras consagradas. De um lado isso demonstra nossa falta de originalidade, nossa incapacidade de criar coisas realmente novas e boas. E como a originalidade é rara e cara, somos estimulados a optar por cópias malfeitas das obras-primas, processo que, levado ao extremo, nos afasta velozmente do legado dos grandes mestres. Experimentamos uma pseudo-sabedoria, uma pseudo-genialidade, sempre através de intermediários picaretas. Andy Warhol foi o maior deles. O Pós-Modernismo é o algoz da genialidade.

De outro lado, a profusão de versões manquitolas das obras-primas expõe nosso desrespeito com os grandes mestres. Logo surgem estudiosos do homossexualismo de Tchaikovsky e de Oscar Wilde, especuladores que falam da loucura de Nietzsche e de Schumann, comentadores da feiúra de Sócrates e de Paganini, sujeitos que têm inveja dos casos amorosos de Vivaldi e de Liszt. E assim, sem perceber, o que antes era grandioso, torna-se fútil. O que pensar de um compositor que ao mesmo tempo compõe Jesus, Alegria dos Homens e produz tantos filhos quanto um retirante? O que pensar de um pintor que revoluciona a pintura e que ao mesmo tempo corta a própria orelha? As pessoas fazem conexões das mais tolas entre a mundanidade e a genialidade e esquecem-se que a genialidade é a única maneira que essas pessoas encontraram para transcender a mundanidade. Tentam, mas não conseguem, simplificar a genialidade alheia, num misto de inveja e sabotagem, como que para buscar uma igualdade que não existiria de outra forma. Se Mozart era um bebum e morreu pobre, talvez o boteco da esquina tenha um grande compositor não reconhecido. O raciocínio é simples. A destruição da nossa mais importante ascendência também é. Com isso se constrói um mundo sem história, ou com uma história resmungona, que privilegia maus exemplos e que, por ranhetice, pune os bons exemplos.

Nivelemo-nos por cima, por amor aos grandes mestres, por mais que isso nos exija o reconhecimento de nossa própria mediocridade.

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