Quero meu dinheiro de volta

Christian Rocha
2 de junho de 2006

Entre todas as mensagens que o governador Claudio Lembo poderia ter transmitido à população aflita com a violência do último dia 15, ele escolheu a pior: “Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. (…) A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira”. Numa paulada só, o governador deixou claro de quem é a culpa da violência: dos brancos e, mais particularmente, dos ricos.

Sobre racismo não pretendo me pronunciar neste artigo. O tema é extenso e cansativo. Sobre a relação entre riqueza, miséria e violência, vale a pena dizer algumas palavras.

Primeiro, a bolsa da burguesia já está aberta há muito tempo. O Brasil é o país dos impostos. Cerca de 40% — sim, 40% — de tudo que se produz neste país vai parar nas mãos do poder público. É como se você trabalhasse quase cinco meses a cada ano apenas para pagar impostos. Até as pessoas pobres pagam impostos. Em todos os produtos são aplicados impostos. Quer alguns exemplos? Gasolina: 53%; açúcar: 40,5%; água: 45%. Uma tabela completa — e assustadora — pode ser encontrada no saite do Feirão do Imposto.

Segundo, não bastasse a carga pesadíssima de impostos, os serviços públicos que recebemos em troca são deploráveis. Quem pode, recorre a serviços particulares, conformado com a necessidade de pagar em dobro para ter educação, saúde e segurança de qualidade. Quem não pode, esforça-se para não depender dos serviços públicos. Eu não me incomodaria de pagar pesados impostos se os serviços públicos fossem eficientes e exemplares. Não é o caso.

Terceiro, a pobreza não explica a violência, tampouco a justifica. Há países tão pobres quanto o Brasil, que possuem grande população de miseráveis, como o Egito e a Índia, e que estão longe de ter índices de violência como os nossos. A associação entre pobreza e violência só beneficia as pessoas que insistem nessa idéia, já que a mídia acostumou-se a estender o microfone a elas. Como diz o filósofo Olavo de Carvalho: “Nenhuma ação humana é determinada diretamente pela situação econômica, mas pela interpretação que o agente faz dela, interpretação que depende de crenças e valores. Estes, por sua vez, vêm da cultura em torno, cujos agentes criadores pertencem maciçamente à camada letrada”.

Quarto, a afirmação do governador torna-se ainda mais ofensiva quando lembramos que a maior parte dos eventos ocorridos no dia 15 de maio teria sido evitada com ação estatal eficiente. A petulância crescente dos criminosos é fruto de um trinômio bem conhecido: polícia cada vez mais sucateada e desorganizada; criminosos cada vez mais equipados e organizados; e um Estado cada vez mais gordo e omisso.

Acertam aqueles que dizem que a educação é a solução para tais problemas — do crime organizado à infeliz declaração do governador. É por não ter educação — bases morais, crenças e valores, como disse o filósofo — que uma pessoa é capaz de empunhar uma arma para roubar ou matar. É por não ter educação que um governador vem a público dizer asneiras. É por não ter cidadãos educados que um governo se torna incompetente e incapaz de reconhecer limites para sua inépcia.

Acredite, pode ser pior. Muito pior do que todos os problemas que nos afetam é apegar-se à esperança de que eles tenham solução através das mãos dos governantes. Pessoalmente, só quero uma coisa deles: quero meu dinheiro de volta.

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